Xxiv encontro anual da anpocs ordem e Progresso em Gilberto Freyre




Дата канвертавання25.04.2016
Памер56.31 Kb.

XXIV ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS


Ordem e Progresso em Gilberto Freyre

GT10 - Pensamento Social no Brasil


Sessão 2- Obras e Trajetórias das Ciências Sociais Brasileiras

Lucia Lippi Oliveira – CPDOC/FGV



Ordem e Progresso em Gilberto Freyre

Lucia Lippi Oliveira

O centenário de nascimento de Gilberto Freyre em 2000, assim como de Anísio Teixeira, de Gustavo Capanema entre outros, está dando margem a realização de congressos, seminários, ou seja, eventos culturais que permitem a divulgação para as novas gerações das contribuições desses autores. Em um primeiro nível estamos participando de comemorações; estamos dizendo que tais autores devem e merecem ser lembrados. Aqui estamos no espaço da memória, ou seja, estamos confirmando que eles fazem parte da tradição, do panteão de autores brasileiros. Em um segundo nível é preciso mostrar que estes autores foram relevantes em algum sentido e para tal é necessário proceder a uma análise de suas contribuições para o “pensamento social” no Brasil1. Os autores que compõem a tradição são relidos a cada geração seja para que se apresentem novas interpretações, seja para subi-los ou baixá-los em uma escala de relevância que também se altera no tempo. É nesse sentido que se constrói uma história da recepção.
Ordem e progresso é título de livro menos conhecido do famoso Gilberto Freyre além de ser dístico da bandeira do Brasil instituída na República por influência dos positivistas. Tentarei falar de “ordem e progresso” como símbolo dos avanços e dos recuos, assim como dos impasses da sociedade brasileira ao longo dos últimos cem anos. O Brasil passou durante o século XX por grandes transformações. Deixou de ser uma sociedade em que a maioria dos habitantes vivia em áreas rurais, um país recém saído da escravidão, com frágil identificação com a república recém proclamada, uma terra receptora de imigrantes, que para cá vinham “fazer a América” e ajudar no branqueamento da população mestiça, para se tornar o que é hoje: uma sociedade em que 80% da população vivem em zonas urbanas, com um mercado de trabalho formal, em descenso, convivendo com o informal, que cresce todos os dias, com um forte sentido de identidade nacional, expresso principalmente em sua cultura e, pela primeira vez, exportando gente através do processo de emigração.

Como dar conta das transformações da sociedade brasileira ao longo do século XX e da aceleração do tempo histórico que atinge o Ocidente de forma mais ou menos generalizada? Para uns, o Brasil não mudou, conserva traços cujas origens estão aí há quase 500 anos, e essa seria a marca registrada do país. Para outros, mudamos muito, mas não tão rápido quanto seria necessário, e precisamos afirmar cada momento como novo. Assim, as análises sobre o Brasil tendem a pensar o país sob dois prismas: aquele que reforça tudo o que é novo e inédito, e aquele que mostra como tudo, na verdade, continua onde sempre esteve. A historiografia brasileira tem sólida tradição nas duas direções.

Pensar o Brasil tem sido questão fundamental para as inúmeras gerações de intelectuais comprometidas em construir a nacionalidade. A inteligência, às voltas com a construção da nação, procurou vencer uma marca de origem: o país se constituiu a partir do “olhar estrangeiro”, aquele olhar produzido pelos viajantes ao longo do século XIX. A literatura romântica já procurara dar uma especificidade ao ser nacional, tomando como eixo central a figura do índio, ainda que idealizado. Entretanto, essa construção simbólica já estava sendo questionada no final do século XIX. O combate à imitação, à cópia, tem sido retomado por inúmeras gerações de intelectuais, no esforço para vencer a percepção de sua realidade como exótica.

Os intelectuais, durante todo o século XX, se atribuíram a missão de fornecer à sociedade uma interpretação da nação, de construir uma identidade nacional capaz de sobrepujar outras identidades ligadas ao lugar de nascimento, a etnias ou a religiões, e assim vencer localismos ou regionalismos. A identidade nacional deveria se contrapor aos interesses particulares de grupos e classes, e possibilitar o encontro de tempos históricos distintos. Agora, no final do século, os intelectuais estão se ocupando igualmente da tarefa de reconstruir a dignidade dos localismos e de valorizar os tempos particulares da cultura de cada grupo ou etnia.


É dentro da perspectiva de discutir permanências e mudanças, o quê é constante e o quê é mutável, que retornamos a essa obra exemplar. Queremos acentuar como as noções de permanência e de desagregação de cânones culturais de funcionamento da sociedade brasileira constituem eixo central do livro de Gilberto Freyre, Ordem e Progresso, cuja primeira edição é de 1959. O subtítulo da obra, “Processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre; aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república”, já esclarece o leitor mais desavisado.

Vale notar que esta obra de Freyre foi publicada no fim dos anos 50, época em que se materializou sobremaneira a dicotomia modernidade/tradição, sendo atribuídos ao primeiro termo valores positivos e, ao segundo, a negatividade quase absoluta.

Nos anos 50 e início dos 60, é preciso lembrar, a intelectualidade brasileira estava envolvida no projeto de fazer o Brasil deixar de ser subdesenvolvido para se tornar uma nação desenvolvida, lutava para vencer as resistências às mudanças sociais, pregava o abandono do mundo arcaico em todas as suas formas para que o país enfim assumisse os traços culturais de uma sociedade moderna. O pensamento da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) oferecia as coordenadas assumidas pelos diferentes campos das ciências sociais e uma matriz de base econômica guiava, explicita ou implicitamente, a maioria das análises sobre a realidade brasileira.

Desde o fim do Estado Novo e com o estabelecimento da democracia em 1945 se estruturam duas grandes interpretações sobre o popular. Uma delas vai encontrar as fontes genuínas da identidade nacional no passado, nas tradições populares. Para estes, herdeiros de uma tradição que era marcante nos anos 10, ali estaria a essência da brasilidade e cabia aos intelectuais apenas salvá-la do esquecimento pela memória. Outra interpretação considera que o passado de um povo colonizado, cujos valores foram transplantados, não ofereceria grandes perspectivas. Era necessário construir os valores brasileiros que seriam estabelecidos no futuro. A primeira vertente terá base no movimento de recuperação do folclore, na realização de congressos reunindo seus defensores e na criação de uma agência governamental em 1958 com o nome de Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (VILHENA, 1997). Os folcloristas, - Renato de Almeida, Edison Carneiro, Câmara Cascudo, Manuel Diégues Júnior, Joaquim Ribeiro, Theo Brandão, entre outros -, se organizaram através da agência governamental e se dedicaram a preservar um bem considerado por outros intelectuais como arcaico. Visto como sobrevivência do passado, o folclore, segundo os “progressistas” da época, deveria desaparecer no mesmo tempo que o país se modernizava. As ciências sociais, à época lutando por seu reconhecimento nas Universidades, excluíam o folclore de suas áreas de ensino e interesse. Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos, por exemplo, foram sociólogos que, por caminhos distintos, recusavam obras e autores que pretendessem preservar manifestações culturais de populações pré-letradas, já que isto entraria em contradição com o objetivo de diminuir a desigualdade nos ritmos do progresso (OLIVEIRA, 1995).

Os intelectuais ligados ao movimento folclorista faziam a defesa da pluralidade regional das expressões folclóricas e da cultura popular mantida pela tradição oral. Acreditavam que a cultura popular, pura e autêntica, poderia ser mantida e atualizada. E principalmente consideravam ser possível valorizar o caráter comunitário da cultura popular, ou seja, defendiam os principais valores considerados como pertencentes ao universo tradicional, arcaico que, como tudo indicava, parecia fadado ao desaparecimento. Os militantes do movimento de defesa do folclore conseguiram organizar os intelectuais de província integrados à defesa da pluralidade regional mas não conseguiram formular uma projeto de cultura brasileira capaz de se contrapor à tendência dominante.

A outra vertente sobre o popular tem lugar no desdobramento das vanguardas que tentarão “conscientizar” o povo de seus “verdadeiros” interesses. Para esses intelectuais o homem brasileiro era um ser sem passado, era alienado porque colonizado. Uma cultura nacional válida seria fruto de um projeto ligado ao futuro; uma utopia a servir de motor à ação. Os intelectuais reunidos em torno do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) consideravam que o advento do povo seria produto do processo de urbanização e industrialização em curso no Brasil dos anos 50.


Parece-nos então compreensível que Ordem e Progresso não tivesse recebido uma acolhida de destaque ao ser lançado. Ele não se enquadrava nem na vertente folclorista nem na isebiana. . Nesse sentido, diferentemente de Casa Grande e Senzala, sucesso dos anos 30, Ordem e progresso parece obra fora de tempo. O mesmo pode ser dito de Os donos de poder, de Raymundo Faoro, editado em 1958. Estas duas obras serão valorizadas e exercerão influência nas formulações do pensamento brasileiro mais tarde: Os donos do poder, a partir dos anos 70, e Ordem e progresso, nos anos 80 e 90.

Por outro lado essa obra é vista como o terceiro movimento de uma longa história da qual fazem parte Casa Grande & senzala, que cobre a constituição do patriciado rural na Colônia; Sobrados e mucambos que trata da desintegração desse patriciado e do desenvolvimento do urbano no Primeiro e Segundo Império e, por fim Ordem e Progresso que lida com a República tomada como metáfora política de outro ciclo de transformação da sociedade brasileira. Ainda que seja a continuação de um longo projeto de estudo, Ordem e Progresso causa um estranhamento particular ao ser lido pela primeira vez2

É preciso lembrar que a versão que a academia produziu sobre Freyre, principalmente sobre Casa Grande & Senzala, nunca foi das melhores e as reservas feitas ao autor oscilam entre a recusa total, à la Dante Moreira Leite em O caráter nacional brasileiro, e o aceite com restrições. No capítulo 15, denominado “Em busca do tempo perdido” (p. 268-285), Dante Moreira Leite compara Casa Grande & Senzala a Os Sertões. Deseja apontar as diferenças entre as duas obras. Euclides da Cunha, embora aceitando teoria errada, nem por isso deforma os fatos que observa, em contraposição a Gilberto Freyre, que dispõe de uma teoria correta mas ignora os fatos e acaba por deformar a realidade. Gilberto baseou suas afirmações em intuições da realidade, desprezou a cronologia e o espaço geográfico dos fatos descritos. As limitações teóricas e metodológicas seriam graves, já que falta comprovação objetiva, há ausência de provas para suas afirmações. Em todo o capítulo, Dante Moreira Leite pretende provar estas inconsistências de Gilberto Freyre e conclui: “como não utiliza dados quantitativos, nem pretende fazer levantamentos amplos de um período, Gilberto Freyre limita-se à história anedótica”; completa adiante: “não é apenas anedótica. É também escrita e interpretada do ponto de vista da classe dominante”( p.250 e 251).

Como exemplo do aceite com restrições temos Octavio Ianni, no artigo “A idéia de Brasil Moderno” ( Resgate, UNICAMP, n. 1, 1990) que assim se refere: “A interpretação de Gilberto Freyre vem do pensamento moderno europeu e norte-americano, onde se destacam Simmel e Boas, entre outros. Privilegia as formas de sociabilidade e supera os equívocos que associam raça e cultura. Concentra-se na análise de instituições e formas sociais, tais como a família patriarcal, as etiquetas sociais, os tipos sociais. Lida com os interstícios ou póros da sociedade civil, tomando-os como expressões suficientes desta. Focaliza a família patriarcal como se fosse a miniatura da sociedade, de tal modo que o patriarca aparece como se fosse uma metáfora do governo, e o patriarcalismo do poder estatal”(p.34). E conclui adiante: “Gilberto Freyre não esconde que vê a história na perspectiva da vigorosa matriz representada pelo Nordeste, por sua importância e história ao longo da Colônia e Império. Por isso, provavelmente, a sua interpretação do Brasil guarda as dimensões e as sonoridades de um imponente réquiem” (p.35). ( grifos meus). A suposição de Octavio Ianni é que aquela matriz já morreu, e que só nos cabe apreciar a música tocada no ofício dos mortos, aquela que celebra o repouso eterno. Não há dúvidas que a família patriarcal originária e produtora da Casa Grande não mais existe, entretanto, o que cabe indagar, é se o patriarcalismo (personalismo, familismo, privatismo) ainda se mantém como um dos traços significativos da vida social brasileira. Não importa se Gilberto Freyre é ou não um nostálgico deste mundo ( o que parece ser) e sim indagar se o que ele apresenta em seus livros permite construir um tipo social, decifrar o fundamento de uma gramática da vida brasileira.


A originalidade de Ordem e Progresso tem sido reconhecida principalmente no que se refere às fontes utilizadas. “Por trinta anos o autor colecionou as respostas autobiográficas a um questionário enviado a quase mil brasileiros de todas as classes e antecedentes, nascidos entre 1850 e 1900. (...) Coligindo essas ‘biografias’, Freyre esperava ‘compreender o que fora mais significante no período, o que impressionava aqueles homens como grupo — chegando assim a uma abstração sobre a verdade” (Skidmore, 1994, p.15). A “Nota metodológica”, a “Nota bibliográfica” e o “Índice biográfico” de 183 brasileiros, que compõem o livro, constituem um universo de fecundas questões metodológicas.

O artigo de Lina Rodrigues de Faria (1998), por exemplo, destaca o pioneirismo de Freyre na utilização da história oral no Brasil. Foi através “da comparação das respostas, [que] Freyre pôde compreender e, principalmente, interpretar a ‘intimidade de um tempo social’”. Para a autora “a característica distintiva de OP em relação ao conjunto da obra do autor” se deve à utilização do recurso intensivo às técnicas de história de vida e história oral, “para captar o sentido daqueles ‘valores’ materiais e imateriais para os brasileiros que viviam o momento de desorganização do Brasil monárquico”. As confissões de seus entrevistados, esclarece Gilberto Freyre, “só nos foi possível reuni-las num esforço aparentemente fácil, na verdade dificílimo, de bisbilhotice disfarçada em investigação sociológica" (OP: XXI). Lina Rodrigues de Faria destaca também outros tipos de fonte histórica utilizados pelo autor, “em especial, documentos pessoais guardados em arquivos de família: correspondências, cartões postais, diários, escrituras, inventários, testamentos, álbuns de família, cadernos escolares, livros de cozinha, porcelanas, cristais e peças de vestuário que ilustravam aspectos importantes da vida nacional”. Lançou mão de arquivos de família entre eles os da Família Imperial e da Família Joaquim Nabuco. “Foram pesquisados também coleções de rótulos de cigarros, de leques, de caixas de rapé, de camafeus, além de jornais e revistas de época, caricaturas e crônicas, literatura nacional e estrangeira”. Outra importante fonte documental utilizada por Freyre foram as fotografias de época. que retratam o viver patriarcal.

Reforçado a atualidade de Ordem e Progresso, Lina Rodrigues de Faria diz que “as posições defendidas por Gilberto Freyre décadas atrás encontram perfeita sintonia com o debate atual. (...) Nos dias atuais o debate em torno da utilização da técnica de história oral na reconstrução histórica repõe aquelas questões, não resolvidas décadas atrás”. Ainda hoje “existe por parte de alguns historiadores tradicionais um ceticismo quando ao valor dos testemunhos e depoimentos orais na construção do passado de uma sociedade. Na visão desses historiadores, a história deve ter por instrumento essencial e fundamental os documentos escritos”.
Participando de Congresso sobre Gilberto Freyre, em agosto de 2000, Evaldo Cabral de Mello atualizou o estranhamento que a obra de Freyre produziu nos historiadores. Lembra esse autor as diferentes perspectivas analíticas derivadas da antropologia e da história, pelo menos da história mais tradicional. Parece-nos que a construção de Gilberto Freyre estaria bem distante da causalidade histérica e sim mais próximo da construção de uma sociologia cujos próceres são Simmel e Norbert Elias.

Voltando à Gilberto Freyre vamos ver como ele apresenta Ordem e progresso. Lá encontramos a definição de seu objetivo. Ele deseja realizar uma “introdução sociológica e antropológica à história da sociedade patriarcal no Brasil” e, para tal, ele vai privilegiar em seu estudo o passado íntimo como elemento fundamental para entender o passado público. Esse caminho de investigação, marcado pelo estudo direto das pessoas, pelo estudo de valores e símbolos através da análise sociológica de formas e processos, marcado enfim pela empatia, permitiria apreender os valores em mutação e penetrar nos valores definidores de uma época. Esse tipo de investigação forneceria a possibilidade de apreender “as relações entre o mundo pessoal e o impessoal, dentro do qual se formou o mesmo indivíduo; sua simbiose com os espaços – o físico, o social, o cultural – pelos quais se estendeu sua vida de brasileiro” (Freyre, 1990, p. XXXI).

Para Freyre,3 houve no passado um estilo brasileiro de sociedade baseado no patriarcalismo, com seus atributos de personalismo, familismo e privatismo, atributos esses que são despóticos e segregadores de um lado, mas democráticos e inclusivos de outro. É a dialética desses pólos que tem garantido a longevidade do patriarcalismo brasileiro.

O patriarcalismo agrário, segundo Freyre, teria sido ferido de morte com a urbanização e com a Abolição, um ano antes da República, mas de fato não teria morrido. As alterações do país ocorriam sob a permanência de forças que resistiam aos novos tempos. Na constituição do patriarcalismo no período colonial foi fundamental a família como unidade básica, já que o Estado português e suas instituições estavam muito longe. Para a autoridade pessoal do senhor de terras e escravos, não existiam limites. Freyre sustenta que os costumes espirituais e sociais, herança da sociedade patriarcal, se disseminaram por todo o país através da migração interna de nortistas e nordestinos (Skidmore, 1994, p. 18; Freyre, 1990, p. 406-7). A decadência do patriciado rural, entretanto, se dá com a ascendência da cultura urbana. Com a urbanização, altera-se o exercício do poder patriarcal, já que o Estado passa a minar o poder pessoal do chefe da família ao requisitar seus filhos para integrar as carreiras da burocracia.

Assim, as mudanças envolvem tanto o mercado quanto o crescimento do aparelho de Estado, sob o impacto de um processo de europeização do Brasil. Para Freyre, é preciso lembrar, a sociedade patriarcal era moura e africana, já que o português era também pouco europeu e diferente do castelhano. A especificidade do português era mesmo não ter especificidade alguma, “nem ideais absolutos, nem preconceitos inflexíveis”.

A aceitação da cultura européia, agora burguesa, trouxe como traço mais importante o espaço para o talento individual através da valorização do conhecimento, elemento burguês democrático por excelência. O conhecimento, a perícia, passam a definir a nova hierarquia social que então se monta. Passa a existir um processo de mobilidade social de mulatos aprendizes e artífices e de imigrantes, principalmente portugueses, então caixeiros e comerciantes. O mestiço bacharel integra como que uma nova nobreza associada às funções do Estado. O papel do exército, similar ao da coroa, e a chamada “República dos Conselheiros” — forma de se referir à presença, na República, de inúmeras figuras eminentes do Império — são alguns indicadores de constantes culturais que se enraizaram no país desde os tempos coloniais. São ajustes entre tempos e formas sociais distintas, que se moldam sob as constantes culturais. Para Freyre, o papel democratizante/modernizador do Estado se fará presente pela atuação de diversos agentes sociais — os mestiços, os bacharéis e os reformadores sociais, aristocráticos como Joaquim Nabuco — construtores da mudança. A diversidade de agentes e de ações permite conhecer o tempo plural brasileiro no início do século XX, concomitantemente industrial, agrário e aristocrático.

Assim, o Estado, e não apenas o mercado, aparece como o locus de uma modernidade híbrida. Freyre também nos lembra que o processo de incorporação do mestiço à nova sociedade foi paralelo ao processo de proletarização e demonização do negro. As influências individualizantes e burguesas foram rapidamente assimiladas, porque já existiam na sociedade brasileira costumes flexíveis (o autor cita a experiência de os filhos ilegítimos herdarem a riqueza paterna). Para Gilberto Freyre, o sistema era sociologicamente flexível, e não rígido, desde que o princípio estruturante — personalismo, privatismo e familismo — fosse mantido (Souza, 1999).

Freyre vai então apontar tanto os elementos de constância, de conservação, que definiriam um ethos brasileiro, quanto as transformações em curso na sociedade nacional na virada do século XIX e início do XX, sob pressão de novas condições de contato, principalmente com o mundo burguês europeu. Assinala a noção de tempo plural — a existência de sentidos variados de tempo —, que volta e meia aparece em obras e análises de diferentes autores ocupados em exprimir a cultura e a identidade brasileiras. O que diferencia Gilberto Freyre de outros analistas, cremos, é ele não estar ocupado em propor receitas econômicas, políticas ou culturais para sincronizar tais tempos.

Se as ordens social, cultural, política, econômica e étnica têm progressos desiguais e contraditórios, Gilberto Freyre vê como que uma ordem metassocial marcada pelo equilíbrio, a acomodação, a conciliação entre ordem nacional e progresso, entre Império e República, entre passado e futuro.

Esse sentido de ordem condicionaria o sentido de progresso no Brasil. Mesmo, ou particularmente, nas transições — épocas em que se tem conflito entre valores —, ela se faz presente na história do país. Na República, muitos conservadores monarquistas aderiram à Nova Ordem, já que valores estruturantes, aqueles elementos formadores da vida social, não estariam sendo alterados. A República era então a continuação sociológica do Império, dentro do contínuo jogo entre dois contrários aparentes: a ordem e o progresso (Freyre, 1990).

A conciliação entre aparentes antagonismos produziu ao mesmo tempo conservação e mudança, permitiu a convivência de uma pluralidade de tempos. Freyre vai valorizar a permanência do poder pessoal, ainda que reconheça seu exagero no caciquismo republicano. Mandonismo e autoritarismo, do lado das elites, e populismo e messianismo, do lado das massas populares, marcam o primeiro tempo republicano. Por outro lado, esse autor também aponta as ambigüidades da europeização, já que “o primado cultural não despótico do português, que não só admitia como estimulava compromissos e acomodações com as tradições culturais dominadas, foi substituído pela dominação do absolutamente superior pelo absolutamente inferior” (Souza, 1999). Para Jessé Souza (1999), o valor de Gilberto Freyre em sua análise da singularidade da formação social brasileira estaria exatamente em não fazer uso de conceitos que implicassem necessariamente seu contrário. O conceito de patrimonialismo implica seu contraponto, a sociedade racional-legal; o homem cordial pressupõe o protestante asceta e seu controle emocional como pré-requisito para o mercado competitivo e a democracia; o capitalismo dependente e a cidadania regulada se confrontam com o capitalismo e a cidadania autônomos.

Para Gilberto Freyre, entretanto, há uma questão não resolvida, nem pelo Império, nem pela República: a valorização do trabalho (Rezende, 1998). O capítulo “A República de 89 e o desafio dos adeptos da restauração monárquica aos republicanos no poder, em torno da questão social” (p.713-755) explora os desafios da época e as atuações de Pinheiro Machado, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco frente ao problema do trabalho. A valorização extrema da ciência, atributo do progresso, permitiu a mobilidade social, mas trouxe a glorificação dos setores médios da sociedade em detrimento das massas. No início da República, há uma valorização das coisas e um negligenciamento em relação ao trabalho “deixando-se a massa brasileira de descendentes, quer de escravos, quer de brancos pobres, em situação de quase inteiro abandono” (Freyre, 1990, p.733). O abandono das massas, o preconceito contra o popular, são mesmo um traço marcante da cultura brasileira durante todo o século XX ( OLIVEIRA, 1999)



Gilberto Freyre pode sim ser considerado um autor conservador, se entendermos como tal aqueles autores ocupados em mostrar as continuidades na mudança, como Tocqueville do Antigo Regime. Estava fora do tempo nos anos 50 entretanto hoje se apresenta mais atual que muitas obras dos anos 60 e 70. Para os progressistas dos anos 50 e 60 a nova ideologia transformadora deveria vencer então a alienação cultural do povo brasileiro. Descolonização e busca de identidade e autenticidade cultural marchariam juntas no processo de luta política que permitiria a sincronia de tempos históricos distintos. A possibilidade de aceleração do tempo histórico através da atuação de forças sociais progressistas, em oposição às reacionárias, marca o pensamento da época e a atuação das vanguardas no início dos anos 60. E hoje, como pensar o tempo social?

Vamos falar de um traço cultural contemporâneo fazendo uso de um interessante artigo de Vera Follain de Figueiredo (1999) denominado “Em busca da terra prometida”. Para a autora, “no final do século XX, é novamente o cinema que toma posição para reorganizar o imaginário brasileiro. Diante do processo de desinvenção da nação desencadeado pela estratégia globalizadora (...), a narrativa cinematográfica registra o impasse decorrente das exigências da nova ordem mundial e tenta inventar outras formas de solidariedade que ocupem o lugar deixado pelo afrouxamento dos laços nacionais. Novas narrativas são gestadas, problematizando a desinvenção do Brasil e buscando criar um imaginário que trabalhe o sentimento de orfandade decorrente do fato de a pátria-mãe querer sair do cenário antes do filho atingir a maioridade” (Figueiredo, 1999, p. 78). A autora passa então a analisar dois filmes recentes de Walter Salles Junior, Terra estrangeira (1995) e Central do Brasil (1997), e observa que “em ambos, o que desencadeia a ação do enredo é a perda da mãe, numa família em que o pai é ausente”; é “este acontecimento [que] gera a migração”. Em Terra estrangeira, o filho fica desprotegido quando o pai-Estado (a voz do governo Collor) trai sua confiança e usurpa os parcos recursos da mãe. O jovem emigra, refazendo na direção inversa o movimento dos descobridores, e busca uma origem mais remota, onde tudo teria começado. Aponta a falsidade do discurso que quer fazer crer que os homens estão em uma aldeia global, em total comunhão planetária. “Os personagens do filme tornam-se estrangeiros em qualquer parte da terra à medida que a nação não lhes serve mais de referencial, mas é um referencial para que sejam marginalizados no exterior, alimentando a criação de estereótipos discriminadores” (p. 79). Temos a inversão do eixo migratório, a idéia de retorno, que também estará presente em Central do Brasil com o nordestino que volta ao lugar de onde partiu. Através da migração interna, vai-se buscar um tipo de solidariedade que possa preencher o vazio de laços nacionais. Dora — “a pátria-mãe não gentil” — explora o analfabetismo e o desenraizamento de um lugar adequado, a estação de trem Central do Brasil. Os milhares de trabalhadores pobres que por lá circulam perderam os laços de comunicação com seus lugares de origem. Precisam de Dora, como mediadora de códigos que eles, analfabetos, não dominam. A viagem para o interior do Brasil em companhia do menino órfão é também a viagem de Dora em direção a si mesma. “O vazio ético deixado pela perda dos valores coletivos que a nação encarnava (...) será preenchido pelo reencontro com o local (...). No lugar da alienação promovida pela grande cidade e seus espaços desterritorializados, o filme propõe a redescoberta da dimensão local para suprir a perda de sentido dos vínculos mais amplos” (p. 81). O vazio ético deixado pela perda dos valores coletivos será preenchido pelo encontro com o local, com os jovens irmãos. “A narrativa de Walter Salles Junior propõe, assim, uma nova descoberta do Brasil, através de uma viagem em direção ao que seria o seu verdadeiro centro, que se confunde com o país simples, mais arcaico do interior”. Cada brasileiro teria em seu coração a saída, que se realizaria no campo pessoal, através do afeto existente no pequeno grupo familiar. Retoma-se a imagem do Brasil menino e, ao contrário da leitura antropofágica ou da leitura do Cinema Novo, trata-se de um menino que não devora nem mata o pai. “Em Central do Brasil, o chamado Brasil ‘atrasado’ teria uma lição a ensinar ao ‘falso’ Brasil moderno” (p. 82).

O processo de transformação em curso na sociedade brasileira, sob a égide da globalização, traz em seu bojo a recuperação de traços culturais passados, agora revisitados sob novos formatos. Um modo igualmente interessante de trabalhar as permanências e as mudanças pode ser analisar comparativamente os filmes “Vidas secas” e “Eu, tu, eles”. A constituição de novas identidades nos dias de hoje caminha no sentido de buscar em experiências pretéritas, durante muito tempo consideradas arcaicas, o sentido do novo, em uma espécie de “viagem redonda”4.


Desde os 40 as análises sobre a formação social brasileira têm se dividido entre autores designados como partidários da tese “feudal” do Brasil colônia e aqueles que falam da permanência do Estado patrimonialista como herança do Estado português. Oliveira Viana e Nestor Duarte podem ser citados como expoentes da primeira vertente., enquanto Raimundo Faoro é o expoente maior da segunda. A solidariedade de clã, a matriz familística, o pater familia, a ordem privada, a família patriarcal e a casa grande podem ser vistos como diferentes modos de expressar essa interpretação “feudal” a vida social (CARVALHO, 1998). Outro ângulo de acentuar a continuidade é aquele que vê no iberismo a marca de origem irremovível da cultura e da sociedade brasileiras (VIANNA, 1997). Podemos ressaltar que autores que trabalham com a longa duração tendem a realçar mais as continuidades, mesmo aqueles que querem tudo revolucionar.

Autores recentes, e não só o “conservador” Gilberto Freyre, têm trabalhado com a noção de continuidade da sociedade brasileira. O sentido de ordem social envolve a noção de uma “gramática” da cultura brasileira, entendida como “padrões institucionalizados de relações” entre sociedade e Estado. O livro de Edson Nunes (1997), por exemplo, vai tratar de clientelismo, corporativismo, insulamento burocrático e universalismo de procedimentos como constitutivos de quatro padrões, ou “gramáticas”, que convivem e se interrelacionam de diferentes formas na história brasileira5. O clientelismo faz parte da tradição secular brasileira, ao passo que as outras três gramáticas emergem após 1930. Para o autor, política ideológica e política clientelista e fisiológica não são mutuamente excludentes. No Brasil, a partir dos anos 50, tivemos mesmo a criação de instituições híbridas ou a institucionalização de um sistema sincrético.


Há inúmeras análises que procuram ver a história brasileira não como continuidade do mesmo mas acentuando a luta entre, por exemplo, a construção do Estado — segundo uma lógica abstrata e impessoal — exercida por intermédio da burocracia, e a lógica da troca de bens, de favores e de relações de reciprocidade, típicas do clientelismo. Este jogo parece não ter fim, e seu resultado parece variar: ora ganha um, ora outro. Há nichos onde a lógica abstrata, universalista, parece estar implantada, e muitos outros onde a solidariedade familística é predominante. A ordem social, entretanto, parece ser predominantemente baseada em relações de dependência, fidelidade, alianças e disputas entre grupos, e mesmo as instituições públicas obedecem a essa lógica de trocas recíprocas. Há períodos em que se considera um tal modelo superado, só permanecendo nos grotões do Brasil. Em outros, parece que os grotões chegam até os grandes centros do país. Seria isto atraso ou traço estrutural — gramática — da sociedade brasileira? Há uma anedota que “corre” nas ciências sociais dizendo: o Brasil é o paraíso para os antropólogos, o purgatório para os sociólogos e o inferno para os cientistas políticos.
Se o patriarcalismo com seus atributos – personalismo, familismo, privatismo -parece prevalecer desde tempos “imemoriais” na cultura brasileira, ele parece estar sendo revisitado, nos dias de hoje, sob novos parâmetros, e a busca de valores locais, pessoais, familiares, se apresenta agora como estratégia atualíssima para enfrentar a cultura globalizada do século XXI.

Estamos vivendo novamente um período de profundas transformações, um tempo de transição –época de conflito de valores-, marcado por um tempo plural. Torna-se necessário retornar a uma perspectiva sociológica como a de Gilberto, escrever novamente obras como Ordem e progresso da virada do século XX anotando, como fez Gilberto Freyre, os elementos de constância e os de transformação que marcam o curso da sociedade brasileira.


Referências bibliográficas:

ARAUJO, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz: casa grande e senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Rio de Janeiro, Editora 34, 1994.

CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. In: Pontos e bordados: escritos de história e política Belo Horizonte, UFMG, 1998,p.130-153.

CAVALVANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O Boi-Bumbá de Parintins, Amazonas: breve história e etnografia da festa. ( mimeo), 1999.

FARIA, Lina Rodrigues de. Histórias de vida: o pioneirismo de Gilberto Freyre. Sociedade e Estado. UnB, vol.XIII, n.2, jul/dez, 1998.p.141-164.

FIGUEIREDO, Vera Follain de. Em busca da terra prometida. Cinemais. Revista de cinema e outras questões audiovisuais. Rio de Janeiro, n. 15, janeiro/fevereiro, 1999, p. 73-83.

FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso. 4ª ed. Rio de Janeiro, Record, 1990.

NUNES, Edson. A gramática política do Brasil; clientelismo e insulamento burocrático. Rio de Janeiro/Brasília, Jorge Zahar/ENAP, 1997.

OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A sociologia do Guerreiro. Rio de Janeiro, UFRJ, 1995.

_____________. Cultura brasileira no século XX. CPDOC, 1999 (mimeo).

REZENDE, Maria José de. Mudança social no Brasil- a construção de um ideário conservador. Tempo social. Vol.10, n.2, 1998.

SKIDMORE, Thomas E. Gilberto Freyre e os primeiros tempos da República brasileira. In: SKIDMORE, Thomas E. O Brasil visto de fora. São Paulo, Paz e Terra, 1994.

SOUZA, Jessé. Democracia e singularidade cultural brasileira: a atualidade de Gilberto Freyre. 1999 (mimeo).

VELOSO, Mariza e MADEIRA, Angélica. Leituras brasileiras; itinerários no pensamento social e na literatura. São Paulo, Paz e Terra, 1999.

VIANNA, Luis Werneck . A revolução passiva; iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro, IUPERJ/Revan, 1997.

VILHENA, Luiz Rodolfo. Projeto e missão; o movimento folclórico brasileiro. Rio de Janeiro, FUNARTE/FGV, 1997.




 Outra versão desse texto foi apresentada no Congresso Brasil-Portugal realizado no Recife em 1999.

1 Gilberto Freyre já recebeu atenção no GT Pensamento Social no Brasil em textos de Glaucia Villas Boas, Luis Antonio de Castro Santos, Paul Freston e Ricardo Benzaquem de Araújo.

2 Li, ou melhor, tentei ler Ordem e Progresso pela primeira vez no início dos anos 70. Não consegui chegar ao seu fim e não conseguia dizer o que me desagradava. Abandonei a leitura considerando que Gilberto Freyre não tinha mais nada a me dizer...

3 Sobre o tema, estou fazendo uso dos artigos de Jessé Souza (1999); Maria José de Rezende (1998) assim como do livro de Ricardo Benzaquen de Araujo (1994).

4 Sobre uma festa moderna/arcaica ver CAVALCANTI, 1999.

5 “[Cultura] é como uma gramática, e a partir de seu conhecimento nenhuma declaração real pode ser prevista (embora uma infinidade delas possa ser imaginada e outras, também, possam ser desmentidas), mas sem uma compreensão pelo menos implícita dela nenhuma declaração real pode ser feita ou entendida” (Clifford Geetz. In: Nunes, 1997, nota 27, p. 44-5).



База данных защищена авторским правом ©shkola.of.by 2016
звярнуцца да адміністрацыі

    Галоўная старонка