Volume 2: Doenças das Plantas Cultivadas



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L. Amorim & H. Kuniyuki.



ENROLAMENTO DA FOLHA - “Grapevine leafroll-associated virus” - GLRaV

O enrolamento da folha da videira, também chamado vermelhão ou amarelo, corresponde à virose “grapevine leafroll”, já descrita em outros países. No Brasil, a doença foi constatada pela primeira vez em 1972, em vinhedos do Estado de São Paulo. Ocorre de maneira generalizada em quase todas as regiões brasileiras onde a videira é cultivada.

O enrolamento da folha é considerado uma das mais importantes doenças de vírus na maioria das regiões vitícolas do mundo, devido à alta incidência e às constantes perdas que ocasiona à produção. No Brasil, a doença ocorre com incidência próxima de 100% nas variedades de maior importância econômica. Em variedades sensíveis como a Cabernet Franc, pode provocar reduções de 63% na produção de uva e de 2,7º Brix no teor de açúcar dos frutos.

Sintomas - Em variedades sensíveis, as plantas afetadas são menores que as sadias. Os sintomas típicos só se manifestam a partir da época da maturação dos frutos, quando as plantas exibem gradual enrolamento das folhas, inicialmente das basais, de tal forma que no fim do ciclo vegetativo, a maioria das folhas apresenta seus bordos virados para baixo. Ao mesmo tempo, apresentam clorose prematura das margens e do parênquima intercostal. As folhas tornam-se avermelhadas ou amareladas, com exceção das nervuras principais e secundárias e áreas adjacentes do parênquima, que continuam verdes. O avermelhamento ou amarelecimento das folhas são evidentes nas variedades tintas e brancas de Vitis vinifera L., respectivamente. As folhas tornam-se também rugosas e quebradiças (Prancha 67.1). Os frutos apresentam maturação irregular e atrasada e são inferiores em quantidade e em qualidade.

As variedades de V labrusca e seus híbridos geralmente não mostram os sintomas típicos da infecção. Algumas podem apresentar folhas ligeiramente enroladas, rugosas, quebradiças, mas não exibem alteração evidente na coloração das áreas internervais, como as variedades Niagara Branca e Niagara Rosada. Os porta-enxertos mais conhecidos não apresentam sintomas da doença.



Etiologia - O enrolamento da folha é atribuído a partículas virais do gênero Closterovirus, de 1400 a 2200 nm de comprimento e limitadas ao floema. Até o presente, cinco closterovirus serologicamente distintos, designados 1, 2, 3,4 e 5 (GLRaV -1, -2, -3, -4 e -5), já foram identificados, os quais, individualmente ou em mistura, estão associados com a manifestação e variabilidade dos sintomas da doença.

Em São Paulo, a existência do GLRaV-3 já foi demonstrada. Há indicações de que este é o mais prevalente dentro dos vinhedos paulistas e de que o complexo do vírus contém algum componente que está serologicamente relacionado com o vírus da tristeza dos citros.

O vírus do enrolamento da folha pode infectar muitas variedades e espécies de videira e é considerado patógeno restrito ao gênero Vitis. Variedades imunes não são conhecidas. É facilmente transmitido por união de tecidos, mas não há relatos de transmissão mecânica e de passagem pela semente. Segundo a literatura, o GLRaV-3 é transmitido pelas cochonilhas brancas (Pseodococcidae) das espécies Planococcus ficus Signoret e Pseudococcus longispinus Targioni Tozzetti. A disseminação natural da doença nos vinhedos de alguns países é atribuída a essas espécies de cochonilhas. No Brasil, esse fato ainda não foi observado. A transmissão do vírus através de afídeo não é conhecida.

A diagnose do enrolamento da folha pode ser feita diretamente nos vinhedos através dos sintomas presentes em plantas infectadas de variedades sensíveis, principalmente das tintas. Contudo, o procedimento de rotina para a identificação da doença consiste no emprego de videiras indicadoras, que são variedades que reagem a infecção com sintomas evidentes e específicos. Estes podem ser observados dentro de um período médio de 18 meses. As indicadoras mais conhecidas são as variedades de V vinifera Cabernet Franc, Mission e Pinot Noir e o híbrido LN-33. Atualmente, as técnicas imunológicas de ELISA e de MEIAD (ISEM) são também empregadas para a detecção dos closterovirus associados ao enrolamento da folha da videira.


MOSAICO DAS NERVURAS - Vírus

O mosaico das nervuras é considerado semelhante à virose conhecida por “grapevine fleck disease” ou “marbrune”, que ocorre na maioria dos países vitícolas. Foi constatado pela primeira vez no Brasil no início da década de 70 em vinhedos de São Roque, SP. Já foi registrado nas principais regiões produtoras do país. A maioria das variedades de copa e de porta-enxerto encontra-se infectada pelo vírus, algumas das quais com níveis próximos a 100%.



Sintomas - Os sintomas da virose são caracterizados no porta-enxerto Rupestris du Lot (St. George) pela presença de manchas cloróticas pequenas nas nervuras da terceira e quarta ordens e áreas adjacentes do parênquima, constituindo um mosaico das nervuras (Prancha 67.2). As folhas apresentam, ainda, superfície ondulada e ligeira curvatura dos bordos para cima. Esses sintomas manifestam-se com intensidade nas folhas jovens e médias da brotação de primavera e desaparecem à medida que elas vão se tornando maduras. As folhas das brotações subseqüentes não exibem sintomas. As plantas infectadas de Rupestris du Lot são menores que as sadias.

A grande maioria das variedades de copa e de porta-enxerto de importância para a viticultura brasileira não exibe os sintomas da infecção. Alguns porta-enxertos como Golia, Kober 5BB e 5C, podem ou não mostrar sintomas, dependendo do isolado do vírus. Nas variedades Kyoho e Olimpia, originárias do Japão, as plantas infectadas apresentam palidez das nervuras principais e secundárias e áreas adjacentes do limbo, desenvolvimento anormal dos ramos e maturação desuniforme dos frutos.



Etiologia - O mosaico das nervuras é causado por um vírus de RNA de partículas isométricas de 30 nm de diâmetro, limitado ao floema e não transmissível mecanicamente. Ainda não está incluído em um dos gêneros taxonômicos de vírus de plantas.

O vírus é capaz de infectar um grande número de variedades e espécies do gênero Vitis. É facilmente transmitido por união de tecidos, mas não passa através da semente. Evidências de disseminação natural do vírus nos vinhedos já foram observadas em alguns países, mas o vetor não foi identificado. Em São Paulo, esse tipo de transmissão não foi observado. O afídeo da videira Aphis illinoisensis Shimer não atua como vetor do vírus.

Quatro isolados do vírus do mosaico das nervuras foram reconhecidos através da sintomatologia em São Paulo: (a) isolado comum, assim denominado por ser o mais freqüente dentro dos vinhedos paulistas, que causa sintomas evidentes nos porta-enxertos Kober 5BB e Rupestris du Lot; (b) isolado inicialmente observado em plantas assintomáticas da variedade Itália, também de ocorrência generalizada, que induz sintomas evidentes em Rupestris du Lot, mas não em Kober 5BB, Kyoho e Olimpia. Existem indicações de que este isolado é o que predomina em outras áreas vitícolas do Brasil; (c) isolado das variedades Kyoho e Olimpia, que provoca sintomas em Rupestris du Lot, Kyoho e Olimpia, mas não cm Kober 5BB; (d) isolado fraco, obtido de uma planta sem sintomas da variedade Itália, que causa sintomas fracos em Rupestris du Lot, mas não em Kober 5BB, Kyoho e Olimpia.

A diagnose do mosaico das nervuras é feita, principalmente, através do emprego da videira indicadora Rupestris du Lot. As reações podem ser observadas de 6 a 18 meses, dependendo da época e do método de enxertia. A detecção através dos testes ELISA e ISEM também pode ser feita.


COMPLEXO DO LENHO RUGOSO - Vírus

O lenho rugoso da videira (“grapevine rugose wood”) é o nome dado a um complexo de doenças caracterizadas por anomalias no lenho e que ocorre na maioria dos países vitícolas. E constituído por, pelo menos, quatro doenças aparentemente diferentes: (a) fendilhamento cortical (“grapevine corky hark”); (b) cascudo ou lenho estriado (“Rupestris stem pitting”); (c) acanaladura do lenho de Kober 5BB (“Kober 5BB stem grooving”); (d) acanaladura do lenho de LN-33 (“LN-33 stem grooving”). As três primeiras ocorrem no Brasil, sendo o fendilhamento cortical, a doença mais freqüente do complexo.



Sintomas - Os sintomas gerais do complexo rugoso da videira consistem em redução de vigor, baixa produção de uva, atraso na brotação de primavera, intumescência na região do ponto de enxertia, casca espessa e corticosa, com textura esponjosa, e caneluras (estrias) e acanaladuras típicas no lenho, que correspondem a saliências na superfície cambial da casca. Essas alterações ocorrem em variedades de copa, poria-enxerto ou ambos. A intensidade desses sintomas, principalmente no lenho, parece depender da combinação copa/porta-enxerto. Não existem sintomas específicos nas folhas, mas em algumas variedades, elas tornam-se avermelhadas ou amareladas e apresentam enrolamento dos bordos. Muitas variedades de copa e de porta-enxerto de importância econômica apresentam infecção latente ao complexo.

No Brasil, os sintomas típicos do fendilhamento cortical e do cascudo podem ser observados em algumas variedades comerciais. Os sintomas característicos do fendilhamento cortical são os que aparecem em plantas afetadas da variedade Isabel, Niagara Branca e Niagara Rosada. A partir da época da floração, as folhas podem mostrar leve clorose das áreas internervais e os ramos podem apresentar intumescências ao longo dos entrenós, fendas longitudinais nas áreas intumescidas, aspecto flexível, maturação irregular e pequenas e numerosas caneluras no lenho. Ao final do ciclo vegetativo, as folhas de plantas afetadas permanecem por mais tempo que as das plantas sadias e a casca das regiões intumescidas dos ramos dormentes adquire uma coloração escura, contrastando com a cor normal dos ramos sadios (Prancha 67.3). O tronco pode ter casca espessa e fendilhada. As plantas mostram acentuada redução de vigor e têm produção escassa ou nula.

Os sintomas característicos do cascudo ou lenho estriado são apresentados pela variedade Itália. As folhas são menores que as normais, ligeiramente assimétricas e com mosaico difuso. A casca do tronco torna-se espessa, quebradiça e fendilhada e não se destaca com facilidade do lenho, donde o nome popular cascudo. Em muitos casos, a casca do tronco adquire uma coloração escura. Ao retirar essa casca, podem ser notadas numerosas caneluras ou estrias (“pittings”), que são depressões alongadas e rasas, de comprimentos variáveis que se formam no lenho (Prancha 67.4). Saliências correspondentes a essas caneluras são observadas na face inferior da casca, que penetram naquelas depressões. Em geral, esses sintomas são visíveis em plantas com mais de quatro anos de idade. Plantas afetadas são menos vigorosas e menos produtivas.

Etiologia - Os agentes causais das doenças que fazem parte do complexo do lenho rugoso da videira ainda não foram identificados. O fendilhamento cortical tem sido atribuído a partículas virais do gênero Closterovirus. Segundo alguns autores, o vírus tem partículas de 1400 a 2000 nm e segundo outros, 800 nm de comprimento, é mecanicamente transmissível e é denominado vírus B da videira (“grapevine virus B”), do gênero Trichovirus. Independentemente do vírus envolvido, o agente causal é facilmente transmitido por união de tecidos, mas não passa através de sementes. E também transmitido pelas cochonilhas brancas das espécies Planococcus ficus e Pseudococcus longispinus. A disseminação por vetores ainda não foi constatada no Brasil.

O cascudo e a acanaladura do lenho de Kober 5BB têm sido atribuídos ao vírus A da videira (“grapevine virus A”), do gênero Trichovirus, de 800 nm de comprimento e não relacionado serologicamente com o “grapevine virus B” da videira. E transmitido por união de tecidos e inoculação mecânica e por espécies de cochonilhas brancas como Planococcus citri Risso, P ficus e Pseudococcus longispinus.

A diagnose das doenças do complexo do lenho rugoso é feita através do emprego de videiras indicadoras apropriadas: (a) fendilhamento cortical - acanaladuras e estrias no lenho de LN-33 e Rupestris du Lot, mas não em Kober 5BB. A indicadora LN-33, de emprego universal, apresenta ainda drástica redução no desenvolvimento vegetativo, intumescências características nos entrenós dos ramos e avermelhamento das folhas, inclusive das nervuras. Esses sintomas manifestam-se de 6 a 18 meses, dependendo da época e do método de enxertia. Existem em São Paulo dois isolados que podem ser separados através da sintomatologia. O isolado comum induz sintomas em LN-33 e em algumas variedades americanas como Concord, Isabel e Niagara. O outro isolado, menos freqüente, causa sintomas mais fortes em LN-33, mas não provoca sintomas nessas videiras americanas. (b) cascudo - faixa ou banda de pequenas caneluras no lenho de Rupestris du Lot, que se desenvolve a partir do ponto de enxertia para a base da planta. Esses sintomas levam de 24 a 36 meses para se desenvolver. Os porta-enxertos Kober 5BB e LN-33 não apresentam sintomas. (c) acanaladura do lenho de Kober 5BB - sulcos ou canais longos e profundos no lenho de Kober 5BB, mas não em LN-33 e Rupestris du Lot. Os sintomas manifestam-se 24 a 36 meses, ou mais, após a enxertia. (d) acanaladura do lenho de LN-33 - sulcos ou canais longos e profundos no lenho de LN-33, mas sem intumescências nos entrenós e descolorações foliares. Os porta-enxertos Kober 5BB e Rupestris du Lot não exibem sintomas.
MOSAICO DA VIDEIRA TRAVIÚ - “Grapevine fanleaf virus” - GFLV

O mosaico da videira Traviú foi observado pela primeira vez em vinhedos de Jundiaí, SP, em 1970. A virose recebeu esse nome por ter sido reconhecida em plantas do porta-enxerto Traviú ou Riparia do traviú. É também conhecida pelo nome simplificado de mosaico do Traviú. Ocorre também no Rio Grande do Sul. Corresponde à doença denominada folha em leque da videira (“grapevine fanleaf” ou “fanleaf degeneration” ou “court-noué”), que ocorre na maioria dos países vitícolas, onde causa grandes prejuízos. No Brasil, a doença ocorre com baixa incidência e, portanto, não representa importância econômica.



Sintomas - Em São Paulo, os sintomas são caracterizados no porta-enxerto Traviú e consistem em pequenas manchas arredondadas e translúcidas, distribuídas irregularmente nas folhas da brotação de primavera. Manchas sob a forma de anéis e faixas cloróticas, em ziguezague, também podem ser observadas nas áreas entre as nervuras principais e secundárias de algumas folhas. Ramos severamente afetados apresentam folhas pequenas e ligeiramente deformadas. Alguns porta-enxertos como o Kober 5BB e Rupestris du Lot, exibem apenas pontuações translúcidas. Muitas variedades de copa cultivadas em São Paulo não mostram sint6mas de infecção, mas algumas delas, como Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, apresentam pontuações translúcidas e estreitas faixas amareladas ao longo das nervuras de folhas bem desenvolvidas.

No Rio Grande do Sul, os isolados prevalentes podem, cm plantas de algumas variedades de V vinifera, causar anomalias nos ramos como bifurcações, achatamentos, nós duplos e entrenós curtos, e nas folhas como assimetria do limbo, redução de tamanho e distribuição anormal das nervuras. O porta-enxerto Rupestris du Lot também apresenta esses sintomas, quando infectado.



Etiologia - O mosaico da videira Traviú é causado por um vírus de partículas isométricas de cerca de 30 nm de diâmetro e pertence ao complexo da folha em leque da videira (“grapevine fanleaf virus”), formado por estirpes de uma espécie do gênero Nepovirus, da família Comoviridae, e possui genoma bipartido, composto de RNA de fita simples. O isolado que ocorre em São Paulo, embora serologicamente idêntico, difere sintomatologicamente das três estirpes mais comuns do vírus da folha em leque que ocorrem em outros países (“fanleaf’ ou “infectious malformation”, “yellow mosaic” e “vem banding”). Já os isolados registrados no Rio Grande do Sul têm uma relação sintomatológica mais estreita com aquelas estirpes, mas as respectivas correspondências ainda não foram feitas.

A grande maioria das variedades de copa e de porta-enxerto de valor comercial é suscetível ao vírus. Há evidências de que as espécies V musoniana e V rotundifolia (Muscadina) sejam altamente resistentes aos nematóides vetores do vírus e à transmissão do vírus pelos nematóides.

O vírus é facilmente transmitido pela enxertia e por inoculações mecânica de extratos de videira infectada para algumas hospedeiras herbáceas como Chenopodium amaranticolor Coste & Reyn., C. quinoa Willd e Gomphrena globosa L. Em outros países, é transmitido pelo nematóide da espécie Xiphinema index Thorne & Allen. No Brasil, ainda não foram encontradas evidências da disseminação por vetores nos vinhedos infectados.

A identificação do mosaico da videira Traviú é feita mediante emprego das videiras indicadoras Rupestris du Lote Traviú. É também feita através da sintomatologia apresentada por algumas espécies herbáceas e dos testes imunológicos de ELISA e de ISEM.


NECROSE DAS NERVURAS -Vírus

A necrose das nervuras da videira, que corresponde à doença “grapevine vem necrosis”, descrita nos principais países vitícolas, já foi experimentalmente constatada no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Muito provavelmente, deve ocorrer nas outras áreas produtoras de uva do Brasil.



Sintomas - Os sintomas da doença são caracterizados no porta-enxerto 11OR. Consistem em redução no crescimento, necroses nas nervuras, folhas encarquilhadas ou enroladas, estrias escuras nos ramos novos, gavinhas e pecíolos. Seca das pontas das gavinhas e dos brotos também pode ser observado.

O porta-enxerto Solferino também apresenta sintomas semelhantes aos presentes em 11OR. No entanto, a grande maioria das variedades comerciais de copa e porta-enxerto não exibe os sintomas da doença.



Etiologia - O agente causal da necrose das nervuras ainda não foi determinado, mas presume-se ser um vírus. É facilmente transmitido por união de tecidos, mas não passa para plantas herbáceas através de métodos rotineiros de inoculação mecânica. A diagnose só pode ser feita com o emprego da videira indicadora 11OR. A reação típica ocorre dentro de 1 a 12 meses, dependendo da época da enxertia.
CONTROLE GERAL DAS VIROSES

Sendo a videira planta de propagação vegetativa, a disseminação e o acúmulo de vírus são favorecidos pelo transporte e emprego de material propagativo infectado. Assim sendo, o controle das viroses que a afetam já pressupõem a adoção de medidas preventivas de controle, como o emprego de material de multiplicação sadio de variedades de copa e de porta-enxerto.

No Brasil, os vírus da videira registrados até o presente são perpetuados através das partes vegetativas infectadas usadas na propagação, pois evidência de disseminação natural (por vetores) dentro dos vinhedos não foram encontradas. Se essa forma de transmissão ocorrer, deve ser de modo pouco eficiente e não deve representar importância na epidemiologia dessas doenças. Por conseguinte, as viroses podem ser controladas de modo eficaz pela adoção de apenas uma medida: emprego de clones sadios.

A obtenção de material livre de vírus de videira é, basicamente, feita segundo três métodos: (a) seleção ou isolamento de clones sadios de variedades não totalmente infectadas, mediante indexação de plantas de diferentes origens, empregando videiras indicadoras; (b) produção de clones sadios de variedades totalmente infectadas através de tratamentos curativos como a termoterapia e a cultura de meristema. Em videira, o método mais empregado de termoterapia é o baseado no condicionamento de plantas envasadas em câmara de crescimento a temperaturas de 36 a 390C durante 60 a 90 dias e na propagação de ápices caulinares, de tamanho variável, dependendo do vírus e da técnica empregada, como o enraizamento sob nebulização, enxertia em porta-enxertos sadios e o cultivo in vitro. A cultura de meristema é outro método curativo bastante utilizado, pois possibilita a eliminação, não só de vírus como de viróides, que resistem às altas temperaturas e tornam inviável a aplicação de termoterapia; (c) importação de material de propagação sadio. E uma alternativa perfeitamente viável e recomendável, se feita de países onde programas de certificação de videiras livres de vírus são desenvolvidos por instituições especializadas. A importação resulta em considerável ganho de tempo, pois os testes de seleção por indexação e de limpeza, através de processos como termoterapia e cultura de meristemas, são bastante demorados, de 3 a 4 anos. Essas operações apenas se justificam para as variedades de valor regional, cujos materiais propagativos sadios não são disponíveis em outros países. Apesar das vantagens da importação, todas as precauções devem ser tomadas no sentido de evitar o risco de introdução de doenças ainda não existentes no Brasil, que são numerosas.

Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, existem programas cm andamento que visam a obtenção de donos sadios de variedades de copa e de porta-enxerto mais importantes para a viticultura brasileira e a constituição de matrizes livres de vírus para fornecimento de material propagativo aos viticultores.
ANTRACNOSE - Elsinoe ampelina (de Bary) Shear (Sphaceloma ampelinum de Bary)

A antracnose é uma das mais importantes doenças da videira em regiões úmidas. Os danos na produção são severos e reduzem significativamente a qualidade e quantidade da colheita em variedades suscetíveis. Quando a severidade é alta, o vigor da planta é afetado, comprometendo não apenas a safra do ano, mas também safras futuras. Esta doença é também conhecida por “olho de passarinho”, devido ao sintoma característico nas bagas. Outras sinonímias da doença são varíola, varola, carvão e negrão. A antracnose é originária do continente europeu e tem sido relatada em todas as áreas produtoras de uva do mundo.



Sintomas - A antracnose manifesta-se em todos os órgãos aéreos da planta. Tecidos jovens, verdes e suculentos são os mais suscetíveis.

Nas folhas, os sintomas apresentam-se como pequenas manchas (1 a 5 mm de diâmetro) circulares, pardo-escuras, levemente deprimidas. As lesões são, normalmente, muito numerosas e podem coalescer, tomando parte expressiva do limbo, ou permanecer isoladas. O tecido necrótico eventualmente desprende-se da lesão, que transforma-se num pequeno furo. No pecíolo e nas nervuras, as lesões são alongadas. Nas nervuras, elas são mais notáveis na página inferior da folha. Estas lesões provocam o desenvolvimento desigual dos tecidos foliares que ocasiona o enrolamento e encarquilhamento das folhas. Como as folhas jovens são mais suscetíveis, estas deformações são mais evidentes nos ápices dos brotos, que parecem queimados.

Em brotos, sarmentos jovens e gavinhas, formam-se, inicialmente, manchas necróticas pardo-escuras que progressivamente vão se alargando, aprofundando-se no centro, transformando-se em verdadeiros cancros, acinzentados na parte central, deprimidos, pardo-escuros nos bordos e levemente salientes. Sob condições de alta umidade, à parte deprimida das lesões apresenta massas rosadas formadas pelos esporos do agente causal. A manifestação da doença nos ramos, quando severa, restringe seu crescimento e ocasiona o subdesenvolvimento das folhas, que tomam uma coloração mais clara que as folhas normais.

Nas bagas, a doença manifesta-se como manchas circulares, necróticas e isoladas. Quando completamente desenvolvidas, as manchas alcançam 5 a 8 mm de diâmetro, apresentam o centro acinzentado e os bordos pardo-avermelhadas. Estes sintomas são conhecidos pelo nome de “olho-de-passarinho”. As lesões podem, eventualmente, estender-se até a polpa e provocar rachaduras na casca da uva. Na ráquis e nos pedicelos, as lesões são semelhantes àquelas que ocorrem em brotos e sarmentos.



Etiologia - O agente causal da antracnose é o fungo Elsinoe ampelina, Ascomiceto da ordem Dothideales que, na fase imperfeita (fase anamórfica), corresponde à espécie Sphaceloma ampelinum.

Os ascos (80- 100 x 11-23 μm) de E. ampelina são formados em lóculos periformes, imersos em estroma, com um asco por lóculo. Como os lóculos são desprovidos de ostíolo, é necessária a desintegração do estroma para a liberação dos ascósporos. Os ascósporos (29-35 x 4,5-7 μm) são hialinos e triseptados. Sob nossas condições não há formação da fase perfeita.



Sphaceloma ampelinum possui conídios unicelulares (3-6 x 2-8 μm), hialinos, oblongos a ovóides, formados sobre conidióforos curtos e cilíndricos, em acérvulos, sobre urna base estromática. Os conídios são produzidos na fase de crescimento vegetativo da videira, sob condições de alta umidade, e são responsáveis pelo progresso da doença cm cada safra.

O fungo sobrevive de um ano para outro nas lesões dos sarmentos e gavinhas, bem como sobre restos de cultura no solo. Ao final do ciclo da cultura, pode haver formação de escleródios nos bordos das lesões. Em países temperados, os escleródios são a principal estrutura de sobrevivência do fungo. Na primavera, sob alta umidade, conídios são formados a partir dos escleródios ou de lesões dormentes. Eles são disseminados por respingos de chuva e, ao atingir tecido jovem, germinam e infectam o hospedeiro. A infecção requer pelo menos 12 horas de água líquida sobre o tecido vegetal e pode ocorrer a temperaturas que variam de 2 a 320C. O intervalo ótimo de temperatura para o desenvolvimento da doença é 24-260C. Sob condições favoráveis, a incubação do patógeno (período entre a infecção e o aparecimento dos sintomas) é curta, em torno de 7 dias.



Controle - O controle da antracnose deve aliar medidas tomadas no período de repouso da planta, com o objetivo de reduzir o inóculo inicial e medidas tomadas no decorrer do ciclo vegetativo, para evitar o desenvolvimento de epidemias.

A eliminação de restos de ramos podados e frutos mumificados, pelo fogo por exemplo, é a primeira medida a ser tomada no inverno. Em plantas muito afetadas, recomenda-se a limpeza do tronco com estopa, eliminando-se toda a casca velha, para, em seguida, aplicar calda sulfo-cálcica a 4º Baumé. O preparo da calda sulfo-cálcica é trabalhoso. Para preparar o concentrado de calda, deve-se seguir os seguintes passos:

1 - peneirar 15 kg de enxofre em pó e fazer uma pasta usando um pouco de água. Para a melhor dissolução do enxofre, pode-se adicionar 20 ml de espalhante adesivo.

2 - colocar a pasta num tonel de 200 litros e acrescentar 80 litros de água.

3 - dissolver e levar ao fogo, adicionando-se, em seguida, 12 kg de cal virgem. Esta mistura deve ferver por uma hora, sob constante agitação. Durante a fervura, o nível de água deve ser sempre completado para 60 litros.

4 - quando a calda passar da cor vermelha para pardo-avermelhadas, apagar o fogo e deixar resfriar.

5 - a calda deve então ser filtrada numa peneira de malha de 0,8 mm, dobrada.

6 - deve-se medir a densidade da calda, com um areômetro de Baumé. Densidade igual ou superior a 25º Baumé é considerada boa.

7 - a calda deve ser acondicionada em recipientes de vidro ou plástico, em local escuro. O período de armazenamento não deve exceder um mês.

8 - no momento da aplicação, a calda deve ser diluída, até atingir 4ºBaumé, conforme Tabela 67.1.

Durante o período vegetativo da planta, pode-se aplicar os seguintes produtos, registrados para o controle da doença: sulfato de cobre + hidróxido de cálcio (calda bordalesa), hidróxido de cobre, oxicloreto de cobre, oxicloreto de cobre + mancozeb, captan, chlorothalonil, mancozeb, folpet, ziram e tiofanato metílico. Deste grupo, apenas o tiofanato metílico é sistêmico. As aplicações devem ser efetuadas a partir do estádio fenológico 5 (Figura 67.1) e repetidas semanalmente, para os fungicidas protetores, até o início da produção.
Tabela 67.1 - Quantidade de água a ser acrescentada a um litro da concentração original para atingir 4º Baumé.

Concentração

original da calda 33º 32º 31º 30º 29º 28º 27º 25º 22º 20º 17º

Litros de água 9.4 9.0 8.6 8.2 7.8 7.4 7.1 6.4 5.3 4.7 3.7




A calda bordalesa pode ser adquirida em formulação comercial (Bordamil, Mildex Br), ou ser preparada na propriedade. O método clássico de preparo da calda bordalesa consiste em dissolver 2 kg de sulfato de cobre (CuSO4. 5H2O) em 50 litros de água, num recipiente de madeira ou cimento. Em recipiente separado, deve-se dissolver 2 kg de cal em 50 litros de água. As duas soluções devem ser misturadas num terceiro recipiente. Obtém-se, assim, uma calda de proporções 2:2:100. Um programa de controle de doenças da videira (antracnose e míldio), baseado na aplicação sistemática da calda bordalesa é apresentado na Tabela 67.2.

Além do controle químico, a antracnose pode ser controlada com o uso de cultivares resistentes. São considerados resistentes a espécie Vitis ripa ria e os cultivares Bacco 22A, Seibel 4986, 5. 5213, 5. 5437, 5. 5455. Como tolerantes são citados Seyval (SV 5276), Seibel 10146, Seibel 2, Seibel 1077 e Isabel.




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