A viagem de ulisses




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A VIAGEM DE ULISSES

Estar no mundo humano é estar vivo à luz do sol, ver os outros e por eles ser visto, viver em reciprocidade, lembrar-se de si e dos outros.”


Jean Pierre Vernant

Terminada a guerra de Tróia, com a completa destruição desta que fora uma das mais prósperas cidades do mundo grego, era hora dos heróis, que passaram dez anos de suas vidas nessa guerra que nascera de um pacto de honra entre eles, retornarem às suas casas.

Os deuses que apoiaram os gregos estavam satisfeitos; os que apoiaram os troianos, furiosos.

No entanto, no calor da destruição e do saque de Tróia, os gregos cometeram um crime sem perdão: arrastaram Cassandra (a vidente) no momento em que ela estava diante do altar de Atena oferecendo um sacrifício, agrediram-na e violentaram-na.

A deusa Atena ficou furiosa e urdiu com Poseidon o castigo: a volta dos gregos pelos mares seria tenebrosa, tempestuosa.

Assim foi. Muitos perderam a vida no mar revolto, esquadras se dividiram em direções opostas.

A frota de Ulisses (o Odisseu), com marujos vindos das mais distintas cidades da Grécia, começou assim sua aventura que iria durar mais dez anos. Muitas seriam as perdas, tantas outras aquisições, perigos e obstáculos sobre-humanos a serem superados.

Ulisses foi deslocado do mundo conhecido e arremetido a um mundo de contornos invisíveis e imaginários, graças àquele deus que viria se tornar seu arquiinimigo (Poseidon). Ele partiria em direção a Ítaca, em busca do reencontro com o conhecido, sua terra, sua mulher (Penélope), seu filho (Telêmaco) e seu pai (Laertes). Tinha ele que retomar seu lugar no mundo, o lugar de rei, de marido, de pai e de filho, lugar que estava ameaçado desde a notícia do fim da guerra de Tróia, e a constatação do desaparecimento do Odisseu (o ardiloso). Era necessário recompor os contornos de sua realidade como ser no mundo (real).

Ulisses não participara da heresia contra a deusa, mas recebera seu quinhão de castigo. Na primeira tempestade provocada pelo deus do mar, sua frota separou-se da de Agamênon e foi dar na ilha dos cícones que o recebeu com muita hostilidade. Ulisses guerreou com os habitantes da cidade de Ísmaro, poupou Máron, sacerdote de Apolo, que, por gratidão, presenteou-o com odres de um vinho que não é uma bebida comum, mas uma espécie de néctar divino. Enquanto esperam o dia seguinte para partir, dormem em acampamento na praia. Durante a noite, os habitantes do campo, que Ulisses não sabia que existiam, atacaram o acampamento e obrigaram os marujos a fugir para o navio e zarpar rapidamente antes que toda a tripulação fosse destruída.

Após essa primeira aventura, já podendo ver as costas de sua querida Ítaca, nova tempestade se abate sobre eles durante sete dias e, finalmente, eles chegam a uma praia onde são recebidos com extrema gentileza pelos habitantes que lhes oferecem seus alimentos usuais: o lótus. Ulisses e a tripulação não sabem que quem come desse alimento esquece tudo. Quem absorve o lótus pára de viver como fazem os homens que carregam dentro de si a lembrança do passado e a consciência de quem são, ficam anestesiados numa espécie de felicidade que paralisa qualquer relembrança, permanecem sem vínculos nem passado, sem projeto: sem desejo de voltar. Terra do esquecimento... E agora?... O que fazer?

Nova aventura... o navio vai singrando numa espécie de nevoeiro sem que os marinheiros precisem remar, sendo impossível ver ou prever o que vem pela frente.

São empurrados pelos deuses e atracam numa ilhota, num breu total, sem nada poderem distinguir. Era como se depois do esquecimento, a porta da escuridão da noite se entreabrisse para eles. Estavam na ilha onde moram os Gigantes monstruosos que tem um olho só no meio da testa e que são chamados de Ciclopes. Aqui Ulisses irá conhecer e enfrentar um deles, Polifemo, filho de Poseidon, que vive numa caverna, se alimenta de queijo de cabras e devora homens. Ulisses e seus homens vão parar exatamente nessa caverna. Famintos, comem da comida do Cíclope que os surpreende e, depois de devorar alguns dos marujos, informa a Ulisses que gostara dele e, por isso, o devoraria por último. Estavam presos na caverna. Ao ser indagado de seu nome o Ardiloso informa: “Ninguém” é meu nome (Por que Ulisses dera esse falso nome? O que fará ele para se salvar e aos seus que restaram?) Já livre do perigo, num círculo de vaidade, Ulisses grita do navio: “eu sou Ulisses, filho de Laertes, Ulisses de Ítaca, o vencedor de Tróia, Ulisses dos mil truques”. Poseidon ouviu o nome e resolveu castigar ainda mais duramente aquele que fizera aquilo com seu filho.

Próxima parada: ilha dos eóbios, murada com altos penhascos como muro de bronze, onde vive Eólo com sua família, sem contato com ninguém, em solidão absoluta. Eólo é o senhor dos ventos que facilitam ou dificultam as rotas marítimas. Ulisses conta sua viagem e Eólo lhe dá um odre onde estão guardadas as fontes dos ventos, as sementes de todas as tempestades. Ali ele guardou todos os ventos, à exceção do que conduz a Ítaca, e recomendou que estava expressamente proibido abrir o odre para que não se perdesse o controle sobre os ventos. Ulisses e os sobreviventes partem felizes para Ítaca. Novamente a terra querida é vista de longe; feliz, Ulisses adormece, entra no mundo do Hýpnos, do Sono. O odre tem que ficar fechado... Ninguém, a não ser Ulisses, sabe o que contém o recipiente. Falta de confiança nos companheiros?... Ele assim ordenara. A curiosidade se aguça. Os marujos se perguntam: o que há no odre de tão precioso que Ulisses não o larga? Será ouro? Por que ele esconde tanto?... Curiosidade... ambição... desconfiança. O odre não poderá ser aberto e somente Ulisses sabe disso. Se os ventos escaparem será o caos e não haverá uma nova chance.

Tormenta, vendaval, negação de nova chance, e a flotilha chega à ilha dos lestrigões, homens e mulheres enormes, camuflados de gentis hospedeiros, mas que na verdade devoram todos os humanos que vêem pela frente.

Com o que sobrou de tripulação e da flotilha, chegam à ilha de Eea, a ilha de Circe, a bela maga que transforma homens em animais para não ficar só. Ulisses, com a ajuda de uma poção que lhe fora enviada pelos deuses, salva-se a si, recupera os marujos transformados em porcos e vive um idílio intenso com Circe. Puro prazer e tranqüilidade, até que a tripulação se cansa da calmaria.

Partem e Circe lhes orienta sobre os perigos do caminho, ensinando a Ulisses como falar com a alma (sombra) de Tirésias, que já estava na morada dos mortos.

Tirésias ensina o caminho a seguir, prevenindo o destemido Ulisses sobre os perigos de Cila e Caríbdis, dois rochedos que se movem para impedir a passagem dos navios. Caríbdis, que leva os barcos ao redemoinho, o desfiladeiro sem fim, e Cila, que ataca por cima como um gigantesco cão de oito patas que destrói e devora. (Ulisses terá que escolher. Qual risco decidirá correr?).

O outro perigo é a ilha das sereias que seduzem e encantam com seu canto, chamando a si os encantados e os devorando. As sereias eram ninfas marinhas que tinham o poder de enfeitiçar com o seu canto todos quantos as ouvissem, de modo que os infortunados marinheiros sentiam-se irresistivelmente impelidos a se atirar ao mar onde encontravam a morte. Circe aconselhou Ulisses a tampar com cera os ouvidos de seus marinheiros, de modo que eles não pudessem ouvir o canto, e


a amarrar-se a si mesmo no mastro dando instruções a seus homens para não libertá-lo, fosse o que fosse que ele dissesse ou fizesse, até terem passado pela Ilha das Sereias. Ulisses seguiu estas instruções. Tampou com cera os ouvidos de seus homens e fez com que estes o amarrassem solidamente ao mastro. Ao se aproximarem da Ilha das Sereias, o mar estava calmo e sobre as águas vinham as notas de uma música tão bela e sedutora que Ulisses lutou para se libertar e implorou aos seus homens, por gritos e sinais, que o desamarrassem. Eles, porém, obedecendo às ordens anteriores trataram de apertar os laços ainda mais.

O terceiro perigo é a ilha do deus Sol (Trinácia) onde se encontra o rebanho sagrado e intocável do deus. A fome poderá abater sobre todos. Morrer de fome ou aceitar o castigo por abater os animais sagrados? Ulisses se afasta e vai até o topo da ilha verificar se há algo que possa ser feito. Novamente adormece. Enquanto isso a tripulação mata as vacas sagradas do deus Helio, assam-nas e devoram-nas. A fúria do deus foi desmesurada. Ele chamou por vingança e ameaçou escurecer o Mundo. Zeus precisou acalmá-lo, mas teve que castigar Ulisses e sua tripulação com um vendaval.

O que restou da frota do Odisseu vai parar em Caribdis. O que restou é Ulisses náufrago que, agarrado a um mastro durante nove dias, salva-se do afogamento. Calipso, a ninfa, salva e cuida de Ulisses e, novamente, um interlúdio amoroso acontece. Cinco, talvez dez anos ali permanece Ulisses vivendo nesse paraíso em miniatura. Um interlúdio contínuo, apaixonado, numa total solidão a dois, num tempo em que nada se passa, não há fatos, todo o dia é idêntico ao outro. Ulisses está fora do mundo, fora do tempo. Calipso – do verbo grego Kalypsó, que significa “esconder” –, aquela que está escondida num espaço fora de tudo, esconde Ulisses de todos os olhares.

Mas Ulisses não esquece Ítaca e sua Penélope; quer partir. Calipso oferece-lhe a imortalidade dos deuses. (E agora? A promessa da imortalidade... Ítaca, Penélope, Telêmaco... O que escolher? E Poseidon? Qual o próximo castigo? E se não conseguisse chegar a Ítaca? Teria perdido a chance da Imortalidade... Difícil decisão... Por que partir? Por que permanecer?)


Síntese livre da Odisséia, por Paulo Ferreira Vieira – Utilização restrita ao autor, ou por prévia autorização deste.




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