A arte de Morrer Longe Mário de Carvalho



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Дата26.04.2016
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Eis Lisboa, de suave desenho, as suas pedras respondendo à luz única, cidade do mundo ideal para alguém flanar, perder-se e reaparecer.

Eis, supra, um breve morceau de bravoure, dedicado à Avenida de Roma, pelo irresistível amor que lhe tenho, deixando prometidos para outro dia o louvor da personalidade pacata de Campo de Ourique, dos declives carregados de história da Graça, dos bigodes republicanos e carbonários da Penha de França, e dos lugares por onde outrora andei, como dizia o outro,

«ledo e oufano».

Pois nesse sábado, perto da hora do almoço, é precisamente na Avenida de Roma que Arnaldo e Bárbara caminham, preocupados, pelos vastos passeios, com notória má vontade. Deixaram o carro longe, porque houve que calcular um estacionamento que não ficasse bloqueado por algum aproveitador da tolerância que, em especial ao fim-de-semana, é alegremente concedida pela polícia lisboeta.

- Com isto tudo nem houve tempo de estudar os vinhos. A mãe vai reparar.

Tinham, há tempos, feito combinações para quando se propiciasse um almoço. Arnaldo considerou estudar um álbum de vinhos maduros que andava lá por casa, distribuído pelo Natal aos empregados da firma, tão pesado que nenhum dos administradores quisera levá-lo para casa. A ideia era impressionar o polícia e, também, mostrar à mãe que não precisava dela para se tornar ilustrado.

Se queres ganhar um inimigo, faz um favor, lá diz um velho rifão. O caso era mais grave: além de não gostar do polícia, Arnaldo devia-lhe dois favores. Três se considerarmos a promessa que o outro fez de não contar nada à mãe. E isso mais piorava a antipatia que o homem lhe causava e abatia a vontade de lhe suportar as vastas dissertações, entre piscadelas de olho cúmplices e furtivas. Que jeito e desaforado gozo dava ao polícia Gervásio ter na mão o filho da matrona, o «enteado», como ele dizia ...

Foi, pois, com grande relutância que Arnaldo tocou à campainha e, após uma inútil hesitação, seguiu atrás de Bárbara, pela entrada daquele prédio que fica em frente do edifício que exibe na cima lha novecinquentista um atleta despido, recortado contra o céu, olhando por cima dos telhados, num composto gesto de eternidade, como se quisesse que a cidade assim permanecesse para sempre.

A mãe veio à porta com um velho avental branco comprado há muitos anos, na Festa do Avante, que tinha inscrito, a toda a largura: «Eu sou comunista, por que não tu?»

Arnaldo aproveitou para tomar logo a ofensiva:

- Mãe, francamente, vir à porta nessa figura!

E o polícia, mais tarde, comentaria:

- Todos os regimes têm coisas boas e coisas más.

E a mãe:

- Não preciso que me defendam, isto é um país livre e uso os aventais que bem quiser.

- Mas, mãe, não é verdade! Cá em casa nunca fomos comunistas.

- O teu pai era.

- Só se foi antes de existir a Festa do Avante ...

- Não é esse o ponto, meu querido, não é esse o ponto.

O ponto era que a senhora estava habituada a comer fora, e, para aquela experimental ocasião, sacara um avental esquecido duma gaveta onde se encontrava desde que uma mulher-a-dias o oferecera por pirraça anticapitalista e antielitista.

De qualquer forma, não era coisa que a preocupasse. Dava-se bem com todos os «ismos». que lhe eram, aliás, profundamente indiferentes, desde que a não hostilizassem ou faltassem ao respeito. A indiferença podia passar por espírito de tolerância, o que até nem era mal visto. Política, ideologia, filosofia, religião, eram, quando muito, matérias para condescender durante dez minutos, no intervalo dos assuntos verdadeiramente sérios: o marido da Colélia que tinha deslocado um braço no golfe e era bem feito, para não andar com aquela locutora de televisão muito orelhuda.

O almoço foi um desastre, mas Arnaldo não tinha expectativas de que viesse a ser outra coisa. A mãe aventurara-se a um prato robusto e tinha, com a colaboração do polícia, cozinhado um prato confuso. Já ia na letra C do «sítio» de receitas da Internet, e as amigas, porventura com alguma perfídia, não a tinham desanimado de experiências anteriores, até lhe haviam dado conselhos. E sobre comida não mais direi. A escrita não é competente para falar de sabores. Mais vale uma trincadela que um milhão de palavras.

Sim, eu sei, há todo um Eça, o grande Eça, as suas favas com arroz, o fiozinho de limão a errar subtilmente, que quase nos faz senti-lo, as orgias do Hotel Central, páginas e páginas magníficas. E lá da antiguidade acode o hábil Petrónio, a descrever-nos o banquete do seu Trimalquião, fazendo-nos água na boca com aqueles arganazes recheados com mel. E também Galsworthy, com os Forsyte a abrirem as refeições a poder da sopa de tartaruga fingida, que, antes de provar, convém averiguar do que é composta, assegurando eu que tartaruga não entra, para descanso da que figura nesta história. Tolstoi põe as suas personagens a derrubar garrafas sobre garrafas, a ponto de um mediterrânico acostumado a livre-trânsito de bebidas se interrogar como seria aquilo possível. E o que comem e o que bebem - especialmente o que bebem - as figuras de Gógol, enquanto devoram esturjões inteiros. Emparelham com Pantagruel.

Nenhum destes autores excelsos se pronunciou sobre a canja a doentes da Figueira da Foz, o que me dispensa da competição e abre um tranquilizador vazio de «angústia de influência», para usar a expressão dum crítico americano em vigor.

De resto, nisto da escrita de romances, que é uma espécie de sociedade por quotas, o leitor tem a sua parte e eu peço-lhe que tenha a bondade de a aplicar, recordando-se das vezes em que comeu canja a doentes da Figueira, e de entre elas a pior. Se conseguir imaginar uma ainda mais desengraçada, terá a canja da mãe de Arnaldo. Se ainda conseguir prestar-se a imaginá-la uns graus abaixo, terá a reservada opinião de Arnaldo sobre as virtudes culinárias da mãe e do seu polícia.

Como era de esperar, o polícia dissertou sobre vinhos e feitos de armas, e a mãe fez inúmeras perguntas a um e a outro sem estar minimamente interessada nas respostas, como era seu hábito.

- Que é que tem, Bárbara, não está a gostar? Quer que lhe arranje outra coisa?

Por um instante o olhar da mãe de Arnaldo divagou, como se captasse ao longe, num relance, muito sumido da distância, um qualquer sinal de alarme. Mas Arnaldo fez uma cara tão aterrorizada que Bárbara se obrigou a um trejeito sorridente e representou até ao fim a rábula do casal feliz, ou, ao menos, conformado.

Seguiu-se o interrogatório habitual sobre o emprego, promoções, os exemplos do filho desta, que era chefe duma empresa de não sei quê e ia todas as semanas a Marrocos, a filha daquela que era escrava, mas bem paga, duma sociedade de advogados, que até tinha vidros automáticos e segurança à porta, o sobrinho daqueloutra que comprara um Porsche com o dinheiro dos investimentos e dizia que quanto mais crise mais ele ganhava. E olhava para Arnaldo, num desconsolo:

- Ai, filho, filho ...

Mas as coisas estiveram quase a complicar-se quando a mãe perguntou:

- Então e essa tartaruga, já te viste livre dela?

Arnaldo engasgou-se com um pedaço de ananás e o polícia demorou muito tempo com o guardanapo encostado à boca para disfarçar o riso. Mas a mãe não reparou.

- Ah - informou triunfal -, arranjaram-me um mestre-de-obras de confiança.

Nisto, houve um toque à porta da rua e Arnaldo aproveitou para uma pausa estratégica:

- Deixe estar, mãe, que eu vou abrir.

Um homem pequeno e calvo olhou fixamente para Arnaldo. Depois empurrou-o, com uma autoridade suave, entrou e desandou pelo corredor afora. Trás! Arnaldo ouviu a porta de uma das casas de banho a fechar e a chave a dar a volta.

- Mãe. Era o tio Valentim!

- Não o deixes entrar na casa de banho. Pronto!

Este tio Valentim era um simpático irmão do pai, considerado pela família «um grande matemático que tinha tresloucado». Os avós de Arnaldo, em miúdo, muitas vezes o confrontavam com a memória do tio que iam visitar à instituição onde se encontrava internado. Tratava-o jovialmente: «Então, meu rapaz, pão e água-pé-de-vento-em-popa, hã? É o que se quer, é o que mais se verá.» E - parecia-lhe - mantinha uma conversa com os avós muito normal e fluente, exceptuando uma ou outra frase que soava fora do contexto, de que apenas recordava «Aleluia zanfredina», acompanhando um gesto rápido de benzedura. A Arnaldo figurava-se que, se não estivessem naquela saleta em que as pessoas tinham de se olhar de frente e as palavras tomavam uma especial gravidade e espessura, ninguém notaria, com a pressa e a desatenção com que nos tratamos mutuamente, haver ali uma tineta profunda. Circulava a teoria de que um grande desgosto de amor lhe dera a volta ao juízo, como habitualmente acontece nestes casos em que as famílias e os conhecidos tendem a romantizar e nobilitar os desvarios. Os médicos recorriam a outras explicações, de cariz científico, assaz enfadonhas, que não vêm ao caso.

De vez em quando, o tio Valentim aparecia e, sem dar tempo a que se reagisse, seguia apressadamente pelo corredor e ia trancar-se na casa de banho. Ali ficava, durante horas, dias se fosse preciso, e não respondia a toques na porta, rogos, ameaças, promessas, berros ou lisonjas, viessem donde viessem. Havia que chamar o serralheiro (que chegava com aquela pressa, disponibilidade e boa vontade própria dos serralheiros ... ) para desmontar a fechadura e, depois, aguardar que o pessoal da instituição considerasse conveniente mostrar-se e usar do seu ascendente sobre o tio Valentim.

Tinham aprendido a lição quando a chave da casa de banho desapareceu e a mãe lá entrou, deparando com o tio Valentim sentado no tampo da sanita, assarapantado de susto. Ele berrou tão desalmadamente, um grito tão agudo, tão interminável, tão de puro terror, que ela teve de fugir. A única forma de o calar foi fechar a porta de novo e voltar às boas palavras e às súplicas do lado de cá, até que os especialistas, enfim, chegaram.

Estava a tarde estragada. A mãe de Arnaldo agarrou-se ao telemóvel, o polícia encarregou-se da vigilância da porta da casa de banho e das palavras de boa vontade, proferidas, intervaladamente, do corredor, apenas para que não se dissesse que não estava a fazer nada. Era uma questão de urbanidade, provavelmente para que o tio Valentim, que nunca respondia, se não sentisse sozinho. Arnaldo e Bárbara regressaram à sala de jantar e acabaram por levantar a mesa, por não terem mais nada que fazer. Não conseguiram encontrar um pretexto suficientemente forte para se irem embora e aborreciam-se, em frente um do outro.

-Quando é que te resolves a contar-lhe que vamos separar-nos?

- Não é a altura mais oportuna, pois não?

- Detesto estas meias-tintas.

- Dizemos mais tarde. Os dois. Noutra ocasião.

Mas já a mãe aparecia na sala e se deixava cair num canapé, abatida. Logo na altura em que tinha conseguido que um empreiteiro, por muito favor, se dispusesse a ir ver o estado da casa, na Lagoa Moura, acontecia-lhe aquilo. E ia durar a tarde toda. Ela não acreditava que o pessoal da instituição chegasse a tempo, a ponto de valer a pena deslocar-se à Lagoa Moura. O polícia ia entrar de serviço. Aliás ela não gostaria de o envolver nestas coisas de família, obras, negócios, bastava o que bastava, eles já eram crescidinhos e decerto compreenderiam. E ao dizer isto baixava a voz, enquanto se ouvia o outro, do fundo do corredor, apaziguando o tio Valentim:

- Ó amigo Valentim, esteja tranquilo, tem de ter confiança em mim, pá, que sou uma autoridade.

- A questão é esta - adiantou a mãe, tristemente -, se eu não agarro o homem este fim-de-semana ele aceita outra obra e nunca mais o vejo. E amanhã tenho aquela estúpida reunião de condóminos a que não posso faltar. Imagina que a tonta da vizinha quer instalar todos os condensadores de ar condicionado do prédio no nosso terraço, com o argumento que desfeiam a fachada, que é de autor. Há cartas trocadas, há insultos, há condóminos que, como sempre, aproveitam estas situações para deixar de pagar a mensalidade. Se eu não vou, podemos ter maçada da grossa.

- Por que é que a mãe não passa uma procuração? - respondeu timidamente Arnaldo, que já estava a pressentir aonde a mãe queria chegar.

- Porque não tenho confiança em ninguém.

Arnaldo olhou, estarrecido, para Bárbara que, sentada à mesa, fingia folhear um álbum sobre As Grandes Divas do Século e, sombriamente, não parecia disposta a salvá-lo. Via-se numa rancorosa reunião de condóminos, na inóspita garagem, com toda a gente a falar ao mesmo tempo, intervenções inflamadas sobre os elevadores, tipos que gesticulavam com as folhas do orçamento na mão, revelações tenebrosas sobre as fendas na empena, as infiltrações do quinto esquerdo, reclamações sobre o barulho que a mãe pianista fazia, com os seus alunos, os rancores e azedumes acumulados, que se exprimiam por rosnidos e apartes, os dilemas terríveis, o catastrofismo, as personalidades impantes, os exibicionistas, os engenheiros, os contabilistas, os advogados, e o ex-emigrante que vinha da província e tinha o seu andar a render.

Assistira a duas reuniões quando a mãe fora administradora e o pusera a escriturar-lhe a contabilidade. A mãe sentia-se ali como peixe na água, colocava e alteava a voz, contava casos, dramatizava o problema da segurança, que mais não fosse para distrair as atenções quando alguém levantava a questão dos móveis velhos que ela insistia em arrumar no terraço e que «criavam» bichos e acumulavam humidades. Mas a mãe era uma lutadora, ele não. Baixou os olhos, já conformado, com a resignação de um cachorro que sabe que vai tomar banho.

Mas Bárbara emergiu do álbum, e, sem olhar para ele, disse, em voz baixa, uma frase que salvou a situação:

- Por que não vais tu à Lagoa Moura?

- Mas eu não percebo nada de obras - respondeu Arnaldo, só para não se dar imediatamente por vencido. A Bárbara não escapou o brilho que luziu, disfarçadamente, naquele olhar.

- De facto, filho, nunca deste muita atenção à casa da Lagoa Moura - disse a mãe, com um tom magoado.

Na opinião de Arnaldo, opinião aliás posta em dúvida por Bárbara e por todos os outros que conheciam a casa da Lagoa Moura e que não tinham lá passado férias solitárias e contrariadas, a casa «era um pardieiro». Mas Bárbara insistia:

- Também é só mostrar a casa ao homem e pedir um orçamento.

Arnaldo sentiu-se naquele momento extremamente grato para com a mulher. E quase incomodado por não vir a propósito exprimir essa gratidão.

E a mãe:

- Sim, eu até te escrevia numa folha tudo o que fosse preciso.

Soaram pancadas ritmadas no corredor. Era o polícia a bater na porta da casa de banho, e a chamar, a ver se resultava.

- Amigo Valentim! Ao menos responda, pá! Amigo Valentim!

- Ah, este homem - disse a mãe, levando as mãos à cabeça - Ah, este homem.

E o jovem casal não percebeu bem a qual dos três ela se referia.

Pelo fim da tarde, depois de um corrupio de tipos de bata branca e de uma grande azáfama de telefonemas, Arnaldo achou-se ao fim da escada com três grossas chaves a tilintar na mão.

- Obrigado - disse ele a Bárbara.

E mais não declarou.
Através do acrílico turvado do aquário, a tartaruga distinguiu umas intercepções de luz e sombra, ouviu toldarem o espaço uns ruídos entrechocados, uns gorgolejos, umas ressonâncias. A densa quietude da sala quebrou-se, vibravam umas presenças no ar, na água, nas espessuras da matéria. Rangeram e tiniram objectos. Recolheu-se, lentamente, à carapaça e aguardou que tudo estabilizasse.

Ao doutor Ivan Petrovich Pavlov nunca ocorreu trabalhar com tartarugas, de maneira que é difícil estabelecer se os ruídos antecipavam, naquela mente muito primária e nebulosa, a aprazível torrente de mini camarões, escorrendo de cima, numa chuva de maná delicado. Admitamos que não, para simplificar.

Arnaldo e Bárbara tinham entrado em casa e vinham conversando. Dizia Bárbara:

- Mas eu não quero lá ficar.

Respondia Arnaldo:

- Mas tu é que tiveste a ideia ...

A mãe de Arnaldo marcara a conversa com o mestre-de-obras para o dia seguinte, às nove da manhã. Eram duas horas de caminho. Arnaldo não estava com vontade de se levantar tão cedo ao domingo e meter-se à estrada. Bárbara, que era mais expedita nas ideias, tinha sugerido que levassem a tartaruga e a deitassem na Lagoa Moura. Era a solução óptima, que convinha a todos.

- Mas achas que ela consegue alimentar-se?

- Com certeza! Deve haver muito mais insectos, muito mais vida que nestes lagos dos jardins.

E nisto vieram praticando desde a casa da mãe de Arnaldo até ao Lumiar. A mãe nunca os tinha convidado a utilizar a casa da Lagoa Moura, onde, de resto, só se deslocava duas ou três vezes por ano, se tanto. Desde o casamento que Arnaldo e Bárbara apenas haviam passado lá um fim-de-semana, com a mãe a enfrenesiar toda a gente. Numa roda-viva, não parava de solicitar o casal, faz isto, faz aquilo, limpa aqui, leva acolá, mas que fazes? Onde estás? Traz a lenha, corta, pega, puxa, traz e põe.

Arnaldo lembrava-se vagamente de o pai lhe ter dito um dia, interrompendo-lhe as voltas de triciclo em volta da casa: «Anda daí à Lagoa!» O pai seguiu à frente, dois ou três metros, assobiando entre dentes. O dia estava fusco e húmido, as rãs saltaram à aproximação dos dois, num revoar espalhado de mergulhos vergastando as águas. Depois, ficaram-lhe na memória as pedras rasantes que o pai arremessou, e que iam ressaltando na lagoa, três, quatro vezes, deixando um vinco breve a cada toque. Também atirou pedras, mas elas seguiam uma trajectória incerta e caíam, pifiamente, com um pluf vão, nas águas empardecidas. O pai nem olhou, não disse uma palavra, não o adestrou nos ricochetes e voltou para casa, de mãos nos bolsos, tão silencioso como à ida. Dias depois, partiria para o estrangeiro, e não mais voltaria. A lembrança daquela tarde ficou sempre para Arnaldo como uma incomodidade dorida, um vazio inexplicado, uma interrogação a ressoar por toda a vida.

Considerava agora a hipótese de ele ter abandonado na casa da Lagoa Moura um velho casaco de tropa que o tinha um dia fascinado. E apresentou esse interesse a si próprio como uma motivação suplementar que, sem o fazer feliz, nem compensar da despesa da gasolina, sempre trazia alguma vantagem. Era sofisticado andar por casa de casaco de tropa, em vez do blusão de malha que já apresentava uma constelação de minúsculas perfurações de traça.

Em contrapartida, Bárbara, que, antes de casar, sempre vivera em Alcântara, gostava da casa de campo. Minimizou as admoestações constantes da sogra, encantou-se com as novidades que ia descobrindo, as velhas camas de ferro, as arcas, os móveis pintados, os ferros da lareira, um carreiro de formigas, desvaneceu-se com as árvores, os espaços, os alecrins, os pássaros, e suspeitou ter uma vocação de pioneira com mão para jardinagem e jeito para

proprietária.

Mas não quis relembrar ao marido, na contingência, este gosto rural. E foi de forma muito prática e seca que disse a Arnaldo, estendendo-lhe um despertador de campainhas de cobre.

- Levantas-te cedo, falas com o homem e depois pões o bicho na lagoa.

- De dia? E se me vissem?

- Que é que tinha?

- A dar cabo do ecossistema? Podia ser preso!

- Que disparate.

- Disparate? Não seria o primeiro. - Então, olha, faz como quiseres ...

Com desalento, espojando-se no sofá, o Arnaldo protestou timidamente:

- Tínhamos combinado ser os dois a levá-la ...

Bárbara sentiu pena dele, tão lasso, desamparado, a cabeça baixa, os cabelos sobre os olhos, um ar de tristeza menineira, de criança a quem é negada uma promessa, ou frustrada uma expectativa.

- Paciência, vou lá ficar esta noite. Pões ao menos a tartaruga num saco?

- Os lençóis devem estar húmidos ... A tua mãe terá por lá algum aquecedor?

- Vens comigo? Era uma súplica enternecedora.

Bárbara por pouco não estendia a mão e lhe afagava os cabelos. Limitou-se, decidida, a abrir a porta dum armário.
Prepararam-se para sair, metodicamente, falando-se com muita cortesia, em voz baixa, COIll uma severa dignidade de gestos e muita competência nas arrumações. No íntimo, cada qual estava repassado de um júbilo que exigia um grande trabalho de músculos faciais para ser reprimido.

A tartaruga viajou no aquário de acrílico, remexendo-se e desandando de canto para canto. Se estranhou a mudança de ambientes, o ruído do automóvel, os cheiros misturados, foi como se nada tivesse acontecido, porque o casal, de olhos fitos na estrada, e pensamento ao longe, não deu por isso. Durante o percurso, Arnaldo consolidou, no íntimo, a gratidão para com Bárbara por tê-lo poupado à assembleia de condóminos, com todos aqueles zelotas das portas-a_trancar-a-horas-certas e das actas em triplicado com remessa para o Ministério Público e conhecimento ao presidente da Câmara. Sentiu-se vagamente arrependido, não sabia bem de quê.

Bárbara, ao som da música do rádio, baixinho, aceitava a lassidão da noite acolhedora, nas sombras de árvores que iam passando, uma após outra, numa sequência tranquila que apelava ao repouso e ao apaziguamento. A presença de Arnaldo, ao seu lado, em silêncio, fazia parte dessa quietude harmoniosa.

Talvez os lençóis da casa da Lagoa Moura estivessem, de facto, húmidos, talvez o ar pairasse, denso, esfriado e bafiento, talvez os objectos, desacostumados de presenças humanas, se acomodassem mal à figura daqueles dois.

Mas fazer as camas, coordenar gestos, estender cobertores, aconchegar almofadas, envolveu uma comunhão de intenções e um cruzamento de mãos que pediram ainda maior desenvolvimento e maior sincronia e não tardou que estivessem enlaçados em cima do colchão, passassem a novos patamares de acção e insuspeitadas contorções, na cansada cama de ferro, que chiava, rangia e gania, não se sabe se de protesto se de cumplicidade, e longo tempo assim se revolverem até que os materiais se submeteram e se coibiram de se manifestar.

Quando, mais tarde, lado a lado, caminhavam às escuras por uma vereda da floresta, amparando-se mutuamente, para vencer tojos atravessados e raízes secas, Bárbara ainda repontou:

- Não penses que o que aconteceu há bocado muda alguma coisa ... - e arrebitou o nariz. Mas ambos sabiam que tudo tinha mudado e que a perspectiva daquela separação era um grande disparate. Apenas o escuro não deixava que vissem a expressão de júbilo um do outro, nem o esforço de a disfarçar. Arnaldo começou a balançar o saco de plástico onde trazia a tartaruga e Bárbara repreendeu-o:

- Cuidado! Vê lá ...

E apertou-o com mais força.

Estavam agora em frente da lagoa que, à noite, era larga como um mar, exalando uma negrura inquietante de abismo, latejando de presenças vivas. Algumas eram conhecidas, numa pulverização doi dejante, a empoar um raio de luz vindo da esplanada de um certo Farhid, paquistanês que ali havia montado arraiais. Outras eram apenas pressentidas, e formadas de matérias miasmáticas que se confundiam com as neblinas e se anunciavam por demais ameaçadoras, na dolência daquele silêncio.

Dobrados junto à água, um tanto atemorizados pelo pesadume do ambiente e pela própria luz que tremeluzia, num toque de sinistrude, os dois atrapalharam-se a tirar a tartaruga do saco. Vinha um arquejo qualquer das espessuras da escuridão, soavam múltiplos pequenos estalidos, numa crepitação abafada, quase inaudível. Bárbara, que tinha posto as luvas de látex, comentou, hesitante, com a tartaruga escorregadia nas mãos incertas:

- Pensando bem, talvez já não precisemos de a atirar fora ...

- Também - respondeu Arnaldo -, falta não nos faz ...

Estavam nisto e, de súbito, os estalidos ecoaram, mais altos e mais nítidos, o vago arquejo transformou-se em soluço, ressoou o baque surdo de passadas próximas, irregulares, uma sombra surgiu no declive, destacando-se de entre os pinheiros e parou por um instante.

Arnaldo e Bárbara gritaram, abraçaram-se, numa atarantação, e ainda foram salpicados pelo grande splash de um corpo pesado que tombou na lagoa e abafou o plof subtil que a carapaça da tartaruga fez a sumir-se na água.

Depois soou uma gritaria infernal. O homem que se tinha atirado à água uivava de pavor e debatia-se, a espadanar águas e limos. Apareceram o paquistanês e uma jovem, com uma lanterna, e ajudaram o homem, de corpanzil enorme, com um pé engessado e perdido de bêbedo, a sair da Lagoa.

Arnaldo e Bárbara acabaram em casa de uma professora a aquecer à lareira o banhista nocturno. Parece que era um cineasta, irmão da professora, que costumava enfrascar-se e que nessa noite abusara. A professora apareceu mais tarde, lívida, desfez-se em desculpas, agradeceu a toda a gente, pediu encarecidamente que não chamassem os bombeiros, e deu mostras de um desespero tocante, de tão silencioso e educado.

Farhid e a rapariga já se tinham encarregado de despir o irmão e de o enrolar num cobertor. O homem, descontada a bebedeira, parecia estar menos mal. Foi deixado junto à lareira a balbuciar incoerências, o pé sobre um tamborete, o cobertor descaído a revelar-lhe a penugem loura e branca do peito avelhentado.

No caminho de volta, pela floresta, Bárbara abraçou Arnaldo pela cintura e disse:

- Enfim, somos humanos, não?



Na Lagoa Moura a tartaruga não tinha escapado à percepção aguçada duma coruja-das-torres, imóvel, num ramo alto de pinheiro, antes de soltar um arrepiante guincho trilado. Mas foi um milhafre, no dia seguinte, cheio de sol, que a arrebatou de um banco de areia.

A carapaça vazia lá está, cheia de terra e formigas, à sombra dum chaparro. O mestre-de-obras não apareceu, naquela manhã.


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