A arte de Morrer Longe Mário de Carvalho



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Дата26.04.2016
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  • Tens aí as luvas - informou Bárbara, como que distraída e indiferente, atirando-as para cima da mesa.

    • - Esta noite não. Estou muito cansado - respondeu Arnaldo.

E, de facto, estava. Resolver a troca dos telemóveis implicara uma enorme carga de atribulações e toda uma tarde perdida.
Mas o dia seguinte também não correu bem, se admitirmos que havia alguma normalidade na já longa guerra de posições entre Arnaldo e Bárbara. Clarinda faltou, e telefonou do Fogueteiro a dizer que a mãe não se sentia bem. Tinha ido ao hospital mas mandaram-na para casa, e Clarinda, agora, estava a tomar conta dela, antes que os irmãos conseguissem que a velhota lhes desse o código do Multibanco e o número da conta bancária. E para ali ficou Bárbara, dominada pela presença tutelar do senhor Ferragial que impregnava a atmosfera de austeridade e de silêncio, como se exalasse uma fina limalha que tudo empardecesse.

Com a ausência de Clarinda, sobrevinha um certo amolecimento, uma distracção na militância. Bárbara começava, de novo, a considerar Arnaldo a uma luz mais positiva, lembrava-lhe o sorriso, o desajeito nos gestos, a timidez, e as boas recordações vinham à tona e pairavam como as exalações boas da floresta quando a névoa se recolhe e as liberta.

As mensagens do Facebook só lhe revelavam gente desinteressante e egocêntrica, ainda pior que na tagarelice do Twitter. O jogo de paciências Spider já dera o que tinha a dar e a correspondência da firma não era copiosa. O espírito de Bárbara vagueava sem que o senhor Ferragial - horas a olhar hipnoticamente para um catálogo - se apercebesse de nada. E almoçou com os colegas, sempre o mesmo cozido à portuguesa das quintas-feiras, procurando responder afavelmente à grande vontade que cada um deles tinha de monopolizar a conversação. Um sobre transtornos prostáticos, outro sobre pombos-correios e o outro sobre contratos colectivos de trabalho.

No regresso, lembrou-se da própria mãe, anos atrás, na cama do hospital, sorrindo-lhe, como se estivesse já a contemplá-la de muito longe, a doçura da face irradiando, a contrariar o pobre corpo emagrecido, ossudo e já lasso de desistência. E ela desamparada, ao outro dia, na igreja, com a chave de um caixão na mão. Arrependera-se então das contrariedades, dos pequenos desgostos que lhe tinha dado, tão imerecidos. Lembrava-a a dizer-lhe, com uma brandura resignada: «Homens onde estão, sobejam, onde não estão, faltam.» E Arnaldo, se lhe faltasse? Numa estrita consideração das realidades, ponderadas uma a uma, talvez nem sempre ela tivesse sido justa para com o marido. Via-se a percorrer a álea do cemitério, a dar com uma inscrição, numa campa triste, perto de uma estátua de anjo: «Arnaldo Vargas». Secou uma lágrima com o lenço e fungou:

- Sente-se mal, menina, há algum problema?

- Não, senhor Ferragial, está tudo bem ...

- Veja lá ...



Por essa hora, Arnaldo dava-se a uma acção retaliadora que se pode considerar temerária, tomando em conta o seu físico esguio e o feitio reservado.

Começou à entrada do elevador, quando o largo e folgazão Quintão Malpique meteu a patorra peluda entre as portas metálicas e fez disparar o sensor, evitando que fechassem. Foi Arnaldo o único de entre os dez utilizadores que não riu quando o fulano veio com a sua grande frase «Ai, ai, quanto mais fulgêncio me reputo tanto mais sulfúreo me alcandoro», suscitando comentários do género «Que castiço!», «Grande Malpique!». E olhou-o furibundo, quando ele lhe deu uma palmada no ombro e, depois, lhe apertou o braço com uma familiaridade que não estava lembrado de consentir.

Mas a questão não tinha ficado por aí. Foi um daqueles dias de atabalhoamento dos deuses, lá em cima, quando tropeçam ou se distraem e começam a cruzar linhas e a encaroçar as tintas. A distância de segurança a que Arnaldo mantinha Quintão Malpique, devido a uma antipatia fininha proveniente da incompatibilidade de feitios, costumava ser preservada, não apenas pelos vidros dos gabinetes, mas pelos seus passos cautelosos que evitavam aproximar-se quando o outro se repimpava na cafeteria, a dizer graçolas.

Descortina o leitor um tipo de português largo e inflado, ovante e intrusivo, propenso à calvície, com sobrancelhas de escovilhão, riso beiçudo, pelame encaracolado em todo o corpo, amador da piadola e da pirraça, grosseiro para os mais fracos, airoso para os superiores, em absoluto impenetrável a noções básicas de decência e decoro? Uma figura digna das Metamorfoses, em que se hibridam o entranhado lanzudo e o atávico malandrim? Não descortina? Então é porque este Quintão Malpique era uma raridade e convém, na passagem, examiná-lo mais de perto como espécime singular.

Se lhe perguntassem por que é que ele se tinha queixado à polícia, por carta anónima, duma velha que dependurava os cobertores nas traseiras do prédio, sem que isso afectasse ninguém, e muito menos os empregados duma empresa que não moravam ali, ele responderia, rindo: «É só pira chatear.» Do mesmo modo, quando telefonava para a Câmara, disfarçando a voz, a denunciar um vizinho que fazia obras clandestinas numa casa de banho, era «só p'ra chatear». Também era «só pira chatear» o gesto de deixar o elevador encravado no nono andar para que um casal de idosos, com o seu velho cão, tivesse de se arrastar pelas escadas.

Comprazia-se, naturalmente, com a incomodidade dos outros. Uma acção que tivesse como motivação «chatear» parecia-lhe absolutamente justificada, desde que não fosse ele o chateado. Uma representação popular - aliás falsa e caluniosa - que atribui o incêndio de Roma a Tibério Nero Enobarbo, para depois celebrar a catástrofe, a toque de cítara, poderá não andar longe do feitio de Quintão Malpique, descontando o pendor artístico.

Desde que descobrira a Internet, aliás tardiamente, tinha sido um alvoroço. Aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem. Apreciava especialmente os jornais e as suas colunas de posts.

Eis uma amostra de uma contribuição de Quintão Malpique para o debate nacional, que pode ser encontrada facilmente na imprensa electrónica, a propósito da questão, hoje esquecida, dos apoios ao cinema português:

Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!! Banquetes de lagosta, em Nice e em Cannes, aproveitando os favores do Estado e o dinheiro dos contribuintes. Isto é tudo sempre no poleiro, a chuchar no orçamento, à custa do Zé Povinho, e a gastar os nossos ricos carcanhóis com filmalhadas que ninguém percebe nem ninguém vê. Topam? Deviam era mandá-los todos cavar batatas e elas coser meias, a ver se ganhavam calos nas mãos e eram úteis ao povo que é quem mais ordena. Tá? Ao menos o doutor Salazar tinha critério e dava ao povo aquilo que o povo queria.

Os leitores mais advertidos hão-de lembrar-se de um jornal chamado Corneta do Diabo, escrito por um tal Palma Cavalão, criação do grande Eça de Queirós: «Ora viva, Sô Maia!». Pois bem, os bons espíritos encontram-se, como reza o ditado, e não só se encontram no espaço, mas também no tempo. Quase cento e cinquenta anos depois, os ecos estrídulos da Corneta do Diabo ressoam diariamente na Internet, em piruetas de comentários soezes, chalaças, calúnias, mistificações e ordinarices, sob o mesmo anonimato, e pela verve de Quintão Malpique e seus milhentos confrades.

A verdade é que não era exactamente por estas razões que Arnaldo execrava Malpique, nem sequer pelo excesso de exuberância, que lhe calhava mal ao feitio. Era, sobretudo, por estar desconfiado de que ele congeminara e conduzira aquela tramóia do almoço com a Dr. a Cintialina.

Ora fosse porque o lavabo comum estava com uma avaria, fosse porque Quintão Malpique tinha ido entregar um relatório numa secretária próxima, fosse porque deflagrou um dos tais acasos fabricados pelo destino, de consequências sempre trágicas ou burlescas, ambos se encontraram, nariz contra nariz, à porta da casa de banho das chefias.

- Então, nosso amigo! - flauteou a criatura, numa grande festa. - Haja alegria, pá. Olhe que «a mulher e o vidro estão sempre em perigo». Mas o meu bisavô também dizia: «Mulher e mula, o pau as cura.» - E noutro tom - «Então aquilo com a Cintialina, hã, hã?»

- Como se atreve? Quem é que lhe deu confiança?

Quintão Malpique ficou esparvalhado, a boca em forma de crescente invertido, um gesto indeciso suspenso no ar. Arnaldo tinha metade do tamanho dele, e o cabelo escorrido, a gravata fora de moda, o fato inofensivo de pronto-a-vestir (grande superfície) e as feições pálidas e delgadas não deixavam antecipar a fogosidade com que ele reagiu. Falta de experiência da vida: as criaturas que vivem muito para fora interiorizam pouco, e menos guardam, de maneira que este Quintão Malpique agiu como se nunca tivesse ouvido falar das fúrias devastadoras dos tímidos. Não leu o Rumo à Lua, do Tintim, não sabia quem era o professor GirassoL .. Enfim, Arnaldo empurrou-o com força contra a porta da casa de banho e o outro deixou que o corpanzil se desequilibrasse às arrecuas, num fandango batido que só parou quando foi amparado por outro colega.

- Ó Arnaldo, ó Vargas, tenha lá calma, pá.

Foi preciso um terceiro colega segurar Arnaldo pelos braços para evitar que este avançasse, de punhos enristados, num arreganho sanguinário. Gerou-se ali um torvelinho logo abafado, não fosse haver repercussões ao nível das chefias. Mesmo os que não participaram directamente na acção repararam que, estranhamente, nessa tarde, Quintão Malpique se mostrava muito embrenhado no trabalho e se abstinha dos seus costumeiros anexins, com o que muito perdeu a vida espiritual daquele pequeno círculo.

Ao fim do dia a mãe de Arnaldo telefonava.

- Que disparate - respondeu a mãe do outro lado -, era só o que faltava.

- Mas, mamã, não dava muito jeito, tenho imenso trabalho para casa.

- Imenso trabalho, o quê? Eu falo com o teu chefe. Queres que eu fale com o teu chefe?

- Não, mãe, de forma nenhuma.

- Olha, já arranjaste o assento da cadeira?

- Acho que está pronto, mas tenho saído tão tarde que já não encontro a oficina aberta.

- Vê lá ...

A mãe de Arnaldo não estava para controvérsias. O telefonema era imperativo. Tinha comprado um computador portátil, o polícia iniciara-a nas vastidões da Internet e fixara-se num «sítio» de cozinha portuguesa de que ia aplicando as receitas uma a uma, com grande aparato de artefactos e modernices. Calhava-lhe no próximo sábado uma canja de galinha a doentes, suculenta iguaria da Figueira da Foz, com que tencionava surpreender o filho, que vivera sempre convencido de que a mãe só sabia fazer ovos mexidos com presunto e sopa knorr. O polícia não era um grande entusiasta dos pratos da companheira e, sendo possível, preferia os almoços na cantina, ou as sandes do costume. Mas ela tinha agora aquela tineta e dava muito trabalho contrariá-la.

Nessa noite, Arnaldo e Bárbara olhavam para a televisão, cada qual a seu canto da sala, ainda com os restos de uma sandes de mortadela, um, e de atum, a outra, pousados adiante. Assistiam a uma daquelas intermináveis peças narrativas que as televisões exibem por volta da hora do jantar e que dão pelo nome de telenovelas, folhetins televisivos que parecem destinados de propósito e muito sabiamente às pessoas que deixam divagar o espírito para longe do clarão em que os olhos estão postos, como acontece aos casais desavindos e já pouco firmados na desavença. As situações e as próprias falas são habilidosamente repetidas, de maneira que, por mais distraído que se esteja, há grande improbabilidade de se perder o fio da história. Diferente seria se as televisões, num rasgo inovador, se dedicassem aos cronovelemas, invenção de certo escritor que amanhã nomearei.

- Então, vais ou não? - disse Bárbara, designando a tartaruga, que fazia nesse momento uns sonolentos exercícios natatórios. Estava esperançada em que Arnaldo reclamasse, propusesse tréguas, ou, pelo menos, fosse adiando a decisão.

- Conheces a minha mãe, não admite negativas. Se recusarmos até é capaz de mandar o polícia buscar-nos.

- Eu estava a referir-me à tartaruga - respondeu Bárbara, percebendo logo que Arnaldo queria fazer-se desentendido. E estendeu a caixa das luvas ao marido.

- Não me dá jeito. Nunca pus umas luvas cirúrgicas na vida.

- Eu tiro o bicho e tu levas, está bem?

- Por que é que não fazemos ao contrário?

- Francamente. Estás a ver-me por essas ruas, sozinha, com uma tartaruga na mão?

- Então vamos os dois.

Bárbara esperava uma resistência maior e preferia que a manutenção do destino da tartaruga ficasse em suspenso. Mas era tarde demais. Negócio fechado. Foi já de casaco vestido que Bárbara, arregaçando as mangas, enfiou as luvas cirúrgicas e com um vago ar de repugnância depôs o bicho, recolhido à carapaça e cooperante, no saco de plástico do minipreço.

No carro iam os dois com cara de caso.

- Coitado do animal - disse Bárbara. - O que é que se faz ao aquário?

-Vende-se.

-A quem?

E não houve mais conversa até ao Campo Grande. Ambos tinham consciência de que, uma vez desaparecida a tartaruga, deixavam de ter aquele problema a uni-los.
Nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia, e no século XXI, Cesário amigo, pouca é a melhoria. As municipalidades poupam nos gastos de iluminação, porque interiorizaram que os habitantes já chegam à noite muito fartos da célebre luz de Lisboa e precisam de descansar os olhos e os sentidos.

E se assim é nas praças históricas, como o Rossio, com grande profusão de sombras, e nos antigos bairros que tomam trevas de floresta negra, então mais se enegrece o ambiente quando se trata de alumiar plantas, relvados, bichos, espaços vazios, águas largas, que não fazem requerimentos nem escrevem para os jornais. Nunca tive oportunidade de circular no magnífico Jardim Zoológico à noite, mas aquelas imensidades devem ser uma reprodução das trevas da savana, rasgadas por faíscas fugazes de olhares de fera.

Ora «o escuro tem vida própria», pois tem. Numa célebre cena de The Bad and the Beautiful, um Kirk Douglas videiro convence um realizador renitente, Barry Sullivan, a insinuar, em vez de mostrar, tirando partido dos baixos custos de produção, porque a alusão ressoa nas profundas mais espessas do sentido. Parece que conservamos este medo ancestral que tolhia os nossos antepassados, encolhidos e silenciosos, num ressalto de terra, ou numa espessura de folhagens, transidos pelo estalidar dos ramos, o tombar secreto das folhas, o respiro de presenças furtivas. Ou alertados pelas sombras tremelilhando nas águas despertadas duma piscina enquanto uma brisa maligna, entre muros, vibra na escuridão e arrepela os ramos submissos num preto e branco de tinta.

Por tudo isto, não é fácil abandonar uma tartaruga no lago do Campo Grande, quando as luzes da cidade se distanciam e flutuam, distraídas, lá muito no alto, enquanto um cidadão progride, pesadamente, atolando os pés em torrões de terra, fazendo rechinar a relva, criando em torno de si um halo de crepitações capazes de despertar qualquer tigre dente-de-sabre à solta.

- Mas onde é que está o lago? Havia aqui um lago! - desesperava-se Arnaldo, de mãos crispadas sobre o volante. Há muito tempo que não ia para aqueles lados.

Bárbara tentava ajudar, mas a escuridão, já de si considerada normal para um parque de Lisboa, estava ainda mais cerrada por causa de umas lâmpadas fundidas e Arnaldo enervava-se com os carros que lhe faziam sinais de luzes. Conseguiu estacionar, muito à trouxe-mouxe, e não evitou uma buzinadela transgressora de um automobilista nocturno que queria a estrada só para ele.

- Vai lá ver - disse Bárbara.

- Mas eu estou a conduzir ... Larga-se já o bicho aqui e ele que encontre o caminho.

- Eu não sei se o lago ainda cá está. Desde miúda que aqui não venho. Não deixo o bicho assim. O animal não está acostumado a andar ao ar livre. Pode ser atropelado.

- Então vai tu ver!

- Eu, com esta escuridão? Nem penses!

Arnaldo abriu a porta do carro, saiu, tropeçou numa vedação rasteira de arame, equilibrou-se e encaminhou-se relvado adentro, ainda a tempo de ouvir Bárbara, lá de dentro do carro a queixar-se:

- Deixas-me assim, sozinha?

O que está prestes a acontecer requer outra breve digressão para pleno alcance dos eventos. Um recluso de certa cadeia modelar foi convencido por três companheiros de prisão, com argumentos convincentes, a fazer uma recolha de determinado material bem embalado e acondicionado em largas tiras de adesivo e protegido das humidades por plásticos especialmente testados. Aproveitava-se uma licença precária do homem que cumpria uma pena ridícula de seis anos. Como evidenciava bom comportamento prisional foram-lhe concedidos dois dias para ver a família.

Acontece que, desta vez, com a má vontade duma desconfiança impenitente, a polícia se interessou pela movimentação dele, à noite, para as bandas do Campo Grande. A curiosidade tornou-se avassaladora quando o viram aproximar-se de um daqueles abrigos verdes com uma rampazinha, em que os patos do lago costumam pernoitar. Foi discretamente montado em volta um engenhoso aparato, que poderia ser equiparado por algumas imaginações a uma emboscada na selva. É certo que o titular da licença precária usava intermitentemente uma daquelas minúsculas lâmpadas chinesas de um LED que atiram um fiozinho de luz, à pressão, como o borrifo das antigas bisnagas de Carnaval, o que dava muito jeito a quem estava a segui-lo. Mas isso não tira mérito ao rigor da operação.

- Atenção ao Renault Twingo que acaba de parar. Saiu de lá um gajo. Escuto.

O comissário falava baixo, dobrando-se para a frente, através do fantasmático intercomunicador da polícia.

- Alvo localizado. Escuto.

E a acção precipitou-se. Os patos desataram numa grasnada tremenda que, supostamente, ninguém ouviria, naquelas lonjuras, e de que o explorador não estava à espera. O homem, depois de circunvagar o ponto de luz, entrou na casota, a praguejar, porque estava todo molhado e enlameado até aos joelhos. Vinha ele às escuras, triunfal, muito sujo de lama e de penas, com dois pacotes em cada mão e outros quatro debaixo dos braços, quando encarou com Arnaldo que, surpreendido por aquele vulto ofegante, também estacou e ficou a olhar.

- Avancem - ordenou o comissário baixinho, mas com muita firmeza.

Massas musculares compactas e duras caíram em cima de Arnaldo e do outro, com o impacto rijo de sacos de batatas de cinquenta quilos, atirados de quatro metros, por catapultas especiais. Isto no meio duma berraria do fim do mundo, a que responderam os patos, ainda não refeitos da ofensa pela profanação do lar.

- Tu aqui, outra vez?

E o polícia Gervásio Escarrapacha, nariz contra nariz, berrava para a cara de Arnaldo, numa profusão de perdigotos que só não o incomodaram mais porque ele tinha desmaiado.
Tchap, fez a tartaruga ao cair no aquário, já muito tarde, nessa madrugada.

- Felizmente é sábado - disse Bárbara, acomodando o saco de plástico ao peito e dobrando-o em quatro, para o entalar na despensa, entre pacotes de arroz e de farinha, como era seu costume. - Já está a nascer o dia.

- Preciso de dormir. Deixa-me dormir.

Atirou-se para cima da cama, resmungou, debateu-se, mas acabou por consentir que Bárbara lhe tirasse os sapatos e as calças enlameadas, com resíduos de ervas. E ficou-se, ao desamparo, de braços abertos. Bárbara também foi dormir para o sofá, sem querer saber se nessa madrugada lhe calhava o sofá ou a cama.

Tinha sido muito trabalhoso persuadir a polícia de que, para Arnaldo, se tratara apenas da libertação de uma descomprometida tartaruga. Aquelas almas, viciadas na desconfiança, só se convenceram, não sem alguma relutância, com o depoimento do operacional que o tratava por «meu enteado» e que lhe dava palmadas amigáveis na nuca.

- Bem, vá lá em paz, mas mantenha-se à disposi- ção - ordenaram-lhe.

Cumpridas inúmeras formalidades, ouvida Bárbara, e advertido de que não convinha continuar a cruzar-se nos caminhos da autoridade, Arnaldo foi, enfim, libertado. Vinha a conduzir, muito ensonado e, simultaneamente, com os nervos num feixe. Disse:

- Ainda bem que não perguntaram se era espécie protegida.
Eis a bela Avenida de Roma, nem grande nem pequena, nem larga nem estreita, epítome da mesura e da moderação, nos volumes, nas linhas, na dimensão, na cor.

Eis os vastos passeios reticulados de pedrinhas de lioz, a dar brilho às fachadas, com os golpes de sol, ou a reflecti-las, em fluorescências multicores, quando escorridas de chuva.

Eis a elegância das cores esbatidas, sossegados verdes e rosas-pastel, os prédios discretamente comedidos, num alinhamento de harmonias burguesas, distintas, reservadas, boas marcas, bons colégios, talvez mais reputados que bons, negócios turvos, recato de vida, golas altas, casacos de tweed, bombazinas caras, livros em francês.

Ressalta a impressão de clareza, a nitidez dos contornos, a contenção das formas, um meado de século que perdura na decadência entristecida dos velhos snacks, com asperezas de cobre gasto, engastes de vidros glaucos, madeirames escurecidos. As lojas dos anos cinquenta, ainda com gavetões de fórmica, convivem com a sofisticação, já a roçar pelo duvidoso, das vitrinas caras, negros brilhantes, fúcsias e lilases, a desviar para o modernaço. Os lugares de fruta e as mercearias de província, os últimos sapateiros remendões a espreitar de caves, como os pontos dos antigos teatros, alternam-se com as fachadas estereotipadas dos bancos, os seus painéis carregados, chamadouro e ameaça, deslustrando, ao rés dos solos, a beleza estendida das calçadas brancas e a sóbria serenidade das portadas.

Esta avenida não há pátina que a estrague porque não quis ser pesadona de ornamentos e volutas, com a ostentação cortesã da idosa fanada que já não tem nada para dar, senão enfeites. Toda ela é duma meia-idade simples, de bom gosto, gama média, cores discretas, sem o cinza-chumbo das cidades do Norte, repassadas de bolores, sem a alacridade faceira do sul, a sobrar de sol, sem a velhice tristonha das metrópoles ricas, sem a decadência abandonada das pobres.

Por cima de algumas portadas, figuras esculpidas, baixos-relevos, muito estilizados, vagamente alegóricos, sabendo o artista que não estávamos em tempos arcádicos. O mesmo no tope de algumas frontarias, onde pequenas figuras majestáticas contemplam o eterno, com displicência cansada, como numa paródia pálida, entristecida, do gesto de imperadores e cônsules de outros idos.
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