A arte de Morrer Longe Mário de Carvalho



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Acontece muito, nas naturezas dotadas naturalmente de compostura e modeladas por uma educação que preza a serenidade e o auto controlo, que as irrupções de fúria sejam devastadoras e nunca vistas e arrebatem com imparável energia as almas até então instaladas na placidez. Ninguém adivinharia que pela segunda vez em dois meses, aquela senhora tranquila e vagamente distraída irrompesse pela garagem e, com um par de berros, reivindicasse o Mercedes que arrancava, daí a instantes, numa roda de fumo. Do que foi o percurso, nem se fale, mas não havia lembrança em Lisboa de um trajecto tão movimentado desde que a Judiciária perseguiu pela Almirante Reis o gangue do Boris Berovich.

- A polícia não pode fazer mais nada, minha senhora. O arguido conformou-se e a decisão já transitou em julgado.

- Mas eu não queria que fizessem mal ao homem. Era só para lhe chamarem a atenção.

Imperturbável, o comissário ergueu o busto, por detrás da secretária de estilo holandês rico que os nossos vendedores de velharias designam, argutamente, por «torcidos e tremidos», e proferiu:

- Minha senhora, dura lex, sed lex.

E com esta a quis despedir, mas não conseguiu, à primeira.

- Exijo que me digam ao menos a morada do agente. Isto não fica assim. Então uma pessoa queixa-se e há logo consequências, é?

- Lamento, minha senhora, mas a polícia não transige com exigências, nem está autorizada a prestar essa informação.

Nos tempos, nem sempre saudosos, em que o comum dos cidadãos falava um português variado e rico que traduzia não só uma tradição ancestral, como uma multiplicidade de origens geográficas, dir-se-ia que se seguiram «uns dares e tomares». Hoje, quando se rasoura, ou melhor, se nivela a língua pela riqueza léxica e vocabular de um certo Tarzan, Rei dos Macacos e da Selva, que aliás se exprimia em inglês, convém dizer apenas que o comissário e a mãe de Arnaldo estiveram para ali uma data de tempo.

Iria a mãe de Arnaldo sair vencida deste transe? Como encontrar o agente da polícia tão severa e competentemente justiçado? Como dizer ao homem que ela não pretendia tanta justiça? Como descarregar o sentimento de culpa que lhe esmagava o coração e toldava o entendimento? Eis as dúvidas cruéis e lacerantes que então a atormentavam.

Entristecida pelos desconcertos do mundo, muito amplificados por trabalhos de reparação na via, seguia ela cabisbaixa quando, ao dobrar uma esquina contornou uma pequena escavadora, enérgica e bulhenta, que abria uma vala nas imediações.

Pergunto eu agora: nunca vistes sair um deus duma máquina? Às vezes acontece. Por que é que Pedro Bezhukov se converteu à maçonaria? Porque pernoitou na mesma estalagem que o velho Ossip Alexeievich Bazdeiev e foi convencido por ele. Por que é que Helena Bezhukova morreu? Morreu, pronto, em duas linhas, no penúltimo volume e ficou despachada. Na ficção não é como na vida, e na vida não é como num plano de batalha, «der erste Kolonne marchiert ... »: lembremo-nos sempre do príncipe Tolstoi, venerando mestre.

A expressão deus ex machina não tem que prefigurar um deus propriamente dito a tentar manter-se direito, com alguma dignidade, apesar de pendurado num guincho, como no celebrado teatro grego. Pode ser apenas um mero enviado de deus, um jovem risonho que sai dum helicóptero, como em Poderosa Afrodite, ou um tipo desdentado, de colete de ganga, que desce duma máquina escavadora amarela, de lagartas, caterpillar, que o nosso povo designa por «catrapila».

- Minha Senhora, ó v' zinha!

A voz ergueu-se, clara e irritante, com uma tonalidade lisboeta afadistada, tornada ainda mais nítida pelo alívio e clarificação dos ares, como efeito de a escavadora ter destroado de repente, ao ser desligada.

- Fui eu quem viu tudo! Eu contei no inquérito.

O gajo já me tinha andado p'ràli a azucrinar a mona, derivado à motorizada, de maneira que eu quando o vi passar a multa pensei logo: «Deixa estar que já te fo ... quer dizer ... tramo!» E na esquadra contei que o gajo, no meio da rua, tinha dito à senhora «arreda p'ra lá, puta velha, qu'inda te parto o chavelhame à marretada». E ele, «É mentira» e eu: «É a sua palavra contra a minha ó'o caraças», e o chefe tomou nota da ocorrência e mandou-me embora.

- Mas como é que você foi capaz duma coisa dessas? - perguntou a mãe de Arnaldo, aterrada.

- Temos que ser uns p'ros outros, n'é? O gajo é que ficou a ganhar, está de férias, todo repimpado ali a pescar na marginal do Cais do Sodré, ainda hoje o vi. Ele é pardelhas, é trutas, é tainhas, é o camandro e eu aqui a dar ó catrapila que até me doem os ouvidos, pá!

O homem ali estava, pespegado no meio da rua, junto a dois ucranianos que o olhavam com o ar aprovador e a mãe de Arnaldo ia jurar que ele tinha estendido a mão.

- Desapareça-me da frente!

E quase o empurrou com a fúria. Não lhe bateu, mas surpreendeu-o muito. Antes da máquina recomeçar a batucada infernal, ainda o ouviu dizer:

- Isto hoje não se ganha nenhum, pá!

O polícia estava, de facto, a pescar no rio e não reconheceu logo a mãe de Arnaldo quando ela o abordou, depois de ter parado junto de vários pescadores para se certificar de que não era o seu homem.

- Eu não dou p'ra peditórios nem p' ra causas - rosnou, sem sequer olhar para a senhora.

E ela:

- Peço-lhe sinceramente que não me leve a mal.

Foi o início de uma relação tão facilmente reconstituível pela experiência do leitor que isenta o autor de contá-la em todos os seus pormenores, embora não o dispense da seguinte interrogação: como é que uma pessoa assim anelante do sentido de justiça podia ser tão indiferente aos destinos de uma pobre tartaruga e mostrar-se tão severa com o rebaixamento de estatuto do seu próprio filho, ademais casado com aquela nora, que nem era má rapariga?

São os paradoxos da vida, que o facto de sermos habitualmente mais exigentes no julgamento dos nossos que dos outros não explica inteiramente. O discernimento e a larga vivência do leitor também conhecerão abundantes casos em que toda a gente se pergunta: «Como é possível, se gosta tanto de cães?», ou «Como é possível, se traz sempre cinquenta cêntimos para os pedintes do metro?», «Como é possível, se está sempre pronto a mudar um pneu de um estranho?» É possível, sim, e quase necessário. Para sermos diferentes e desparadoxados era preciso passarmos a uma nova fase de desenvolvimento da humanidade e já não vamos a tempo.

- O polícia, não quererá mesmo a tartaruga? Lá na esquadra, não incomoda nada ... Até pode fazer jeito. Sempre é uma distracção.

Arnaldo estava ao computador, informando-se de tê-zeros para arrendar. Tudo uma fortuna. Passou aos anúncios dos quartos. Mas Bárbara, que tinha posto a questão apenas porque achara o ar da sala muito mortiço e vazio, insistia, aproveitando o intervalo da telenovela: «Hã?». Isso deu a Arnaldo o pretexto para abandonar a pesquisa, antes de tomar decisões irreversíveis, que, no fundo, não queria mesmo que ocorressem. Bárbara estava farta de saber que ele nunca poria a questão da tartaruga ao polícia, por várias razões: primeiro, porque não gostava dele; segundo, porque lhe tinha medo; e terceiro, porque acontecera aquilo da cadeira de balouço e evitava, quanto pudesse, estar ao alcance da criatura.

Será oportunamente contada a cena da cadeira de balouço que já tinha pertencido ao avô materno de Arnaldo. Agora, basta que Arnaldo se voltou para trás, com um ar enfadado, tirou e tornou a pôr os óculos, e observou:

- Estás-me a ver a falar com o polícia? Por que é que não falas tu?

- A mãe é tua ...

- Era capaz de me prender. Tens a certeza de que esta tartaruga não é uma espécie protegida? Que não consta dumas listas lá da esquadra? Eu não quero ser preso por causa duma tartaruga.

- Ninguém prende ninguém por causa de tartarugas.

- Mas notificam, chateiam e multam ... E o tipo é sádico. Adora multar ...

Tinham jantado ambos em casa, comida pré-fabricada, comprada no supermercado, que era mais barato. Cada qual pensara que o outro ia jantar fora e tiveram a mesma ideia. Mas Arnaldo acabou por comer na mesa, depois de uma troca de galhardetes muito urbana e cortesã em que ambos protestaram oferecer a mesa ao outro, tendo Arnaldo cedido, como de costume, por ser o primeiro a perder a paciência. Bárbara tinha tornado banho e estava com uma toalha enrolada na cabeça, muito cinematográfica, o que lhe dava uma certa graça. Ela afastou o invólucro de papel prateado do bacalhau à lagareiro, pôs-lhe uma lata vazia de Pepsi-Cola dentro, bem amolgada, e perguntou:

-Então?

«Mau», pensou Arnaldo, entre o desconfiado e o esperançoso. Detestava as reviravoltas a que chamava, metaforicamente, «mudanças de agulha». Preparou-se para tudo, mas o que aí vinha era nada. Bárbara estava apenas muito perguntadeira:

- Qual era a tua ideia para a tartaruga?

- Um camaroeiro!

- E como é que tu metes um camaroeiro dentro do aquário?

- Um camaroeiro pequeno, claro!

- E como é que tu consegues manobrar um camaroeiro sem deixar cair o animal, tu que não tens jeito para nada?

- E quem é que te arranjou o fecho do colar com o corta-unhas?

- E quem é que partiu o corta-unhas que não era dos chineses e que eu comprei na Sephora?

- E quem é que te mandou ir à Sephora para comprar um corta-unhas?

- Eu não fui lá especialmente para comprar o corta-unhas.

- Olha não foste ...

Era deste jaez (feliz palavra árabe, cada vez menos usada e cujo significado vem em todos os dicionários e bela expressão tão rafada em tempos de letras mais bojudas, que qualquer escritor, com uma única excepção, hesitaria em usá-la), era deste jaez, dizia (fórmula de repetição também recuperada do arsenal literário e que se destina a evitar que a atenção do leitor se distraia e comece a pensar noutras coisas, nanja no essencial), dizia (embora antes seja meu dever chamar a atenção para este magnífico «nanja», que não é de origem japonesa, mas sim de etimologia facilmente descortinável) e tendo-me eu esquecido da continuação da frase vou retomá-la, desde o início com vossa licença.

Era, pois, deste jaez (notem que interpus um «pois», querendo assinalar que o autor usou deliberadamente a repetição e julga saber o que está afazer), era pois, deste jaez, dizia, a desavença que tinha infernado a vida ao jovem casal e que, devemos reconhecer, soava ainda muito a infantil. Às tantas, já nem se lembravam da origem da discussão, exactamente como os autores prolixos não se lembram do início dos parágrafos. Era deixada cair uma frase por mera vontade de embirrar, vinham, em desforço, a réplica, tréplica, quadrúplica, choros, amuos e más vontades e, depois, tornava-se difícil encontrar uma saída. É certo que vai acontecendo a todos os casais, mas como eles eram muito novos e inexperientes, a tramitação fazia-se ainda mais intrincada e deficiente de racionalidade.

Não vale a pena acompanhar o resto da discussão entre Bárbara e Arnaldo, apenas acentuar que o dilema entre o camaroeiro e as luvas cirúrgicas não ficou resolvido nessa noite. Voltando ao que interessa: era verdade que Bárbara tinha outro? Se eu contar rapidamente o que se passou, o leitor ajuizará.
Num escuro compartimento de vidro martelado, ao fundo duma loja de ferragens, situada nuns arruamentos acinzentados de São Paulo, havia dias em que Bárbara se aborrecia deveras, frente ao monitor antiquado do seu computador Olivetti. As lojas de ferragens têm habitualmente uma clientela especificadora e miudinha, ávida de explicações circunspectas, muito apreciadora de pormenores de dimensão, composição, robustez, cor e tacto. Esses pormenores fazem o desespero do freguês ocasional, que vem comprar um parafuso ou uma dobradiça para o armário. Ao longo de um balcão corrido, num ambiente tristonho e escuro, acumulam-se os profissionais, vestidos de fato-macaco manchado de óleo, ou velhas batas repassadas de tintas secas e têm longos conciliábulos em voz baixa, soturna, com enumeração meticulosa de números, marcas e medidas: «Não, vá-me mas é buscar uma Volgen, não, uma Crüdber de 14 com 3 polegadas»; «Ná, assim você não resolve isso»; «Então, pronto, uma de 11 e meio, para fazer cama com o entalhe de trezentos»; «Ah, está bem, assim já não digo nada. Mas parece-me que só tenho de quinze. Vou ver ... » E o pobre do burguês à espera, abatido por tanta ciência, no desconforto de apenas querer a porcaria da dobradiça ou do parafuso para a trela do cão e a olhar aterrorizado e cheio de respeito para um balcão coberto de peçazinhas, negruras retorcidas, latões, bornes, fios eléctricos, anilhas, trapalhadas, cada qual com o seu nome, marca, dimensão, cor e propósito, prontas a desfilar em frente de cada freguês concentrado e sabedor.

E o que é que fazia Bárbara, tão delicada e de gestos tão menineiros, nestas catacumbas escuras, densas de idade, de saberes, de espessuras de alma, de sobrecenhos carregados, como nas profundas melancólicas de uma cave de alquimista? A resposta é simples: a contabilidade e o expediente.

Atrás do vidro fosco, armado sobre umas ferragens ramalhudas que ninguém tinha reparado que eram arte nova, porque naquele ambiente não se liga a essas coisas e os ângulos de apreciação são outros, Bárbara dava ao teclado, preenchendo cautelosamente a folha de cálculo. Nos intervalos em que não escorriam números, ora se especializava no Spider ora somava pontos no My Farm. Mas, sobretudo, convivia com Clarinda que se encarregava do outro computador, aplicado a cartas, emails, pesquisa e facturação, mas também Youtube, Spaceroom, Facebook, Twitter e Myspace.

Importante era que de nada suspeitasse o compacto senhor Ferragial, arguto e anacrónico patrão que ainda conservava, como muitos magistrados e padres, aquela pronúncia ciciada das Beiras, enganosamente repousante, mas que pode tornar-se demoníaca em se levantando a voz. Ele instalava-se a uma secretária de pau-preto que dominava todo o compartimento, alinhando o nariz com um ferro bicudo em que espetava facturas, metáfora feroz do seu poder. Nas ocasiões em que estava presente, costumava meditar, olhando molemente para o tecto. Mas, às vezes, sem qualquer razão notória, começava a fitar as raparigas com um olhar que exprimia alguma sinistrude.

Nessas alturas os dedos corriam sobre os teclados e as faces exprimiam uma tal concentração, iluminadas pela luz dos monitores, que dir-se-iam tocadas duma aura de santidade, como naqueles enlevos dos quadros barrocos em que serenas personagens contemplam, desvanecidamente, o Alto.

Mas o patrão não tinha paciência para estar muito tempo à secretária. Aborrecia-se, começava a cabecear, acabava por ir atender ao balcão, ou conversar com o Ferraz da farmácia, ou ia espantar-se com o Correio da Manhã («Ichto xó vichto, é uma chúchia do carachas ... ») para as mesas de fórmica do café em frente, chefiado por uma viúva tristonha que passava a vida a resmungar, porque ele não fazia despesa nenhuma e até levava a lancheira para a loja.

Nem sempre a relação de Bárbara com Clarinda era pacífica e cooperante. As conversações ora aqueciam ora esfriavam. Às vezes nem almoçavam juntas, naquelas múltiplas e invejáveis tascas do bairro. Em tempos mais azedos, marcavam mesmo as distâncias acompanhando os outros empregados da casa: o senhor Mendes, que só falava de pombos-correios, o senhor Lopes, que era especialista em doenças com incidência abaixo da cintura, e o senhor Sá, que não era especialista em nada e que andava há anos a consultar os jornais a ver se mudava de emprego.

Em tempos, aparecia de vez em quando o relativamente jovem Coriolano, o filho do patrão, que dava um beijo rápido ao pai, ouvia uma rosnadela sardónica, carregada de ironia («Já te levantaste?» - ainda que fosse às cinco da tarde) e depois ia fazer um bocado de conversa para o balcão até que o velho corresse com ele. Tinha grandes planos para quando herdasse a loja e confessava-os aos empregados, baixando a voz, para que o pai o ouvisse mas tivesse a sensação de que ele estava, por respeito, a usar de filial reserva e, portanto, pudesse fingir que o não ouvia, o que permitia marcar pontos poupando discussões.

Ele artilhava aquela espelunca de novo, tudo de raiz, ele mandava fazer um balcão cheio de disaine, pá, assim arredondado, que desse conforto, ele punha ali uns cadeirões de estopa branca, a condizer, para a malta não estar de pé com uma senha nas unhas, pá, ele enchia tudo de expositores de acrílico, em que os materiais brilhassem, valorizando a mercadoria, fazia ali ao fundo um gabinete tipo aquário, à moderna, e mandava para a sucata aqueles ferros forjados parvos, cheios de uvinhas e parreirinhas, pá, fazia correr neóns pelos tectos, com volteados imaginativos e puxavantes ...

Os empregados ouviam, ouviam, examinavam discretamente a cara do senhor Ferragial, à passagem, para adivinhar se ia bem de saúde, e, à noite, conferiam se as quotas do sindicato estavam em dia, não fosse o diabo tecê-las.

O rapaz chamava-se Coriolano porque o pai se desvanecia em grande admiração por um coronel de Infantaria homónimo, da aldeia dele, que em alferes comandara um pelotão na terra-de-ninguém durante a Primeira Grande Guerra. Depois de uma carga, dissipados os fumos, verificando encontrar-se entre os alemães, bradara: «A eles, fueirada nesses boches!» Mas não restava ninguém vivo no pelotão e foi feito prisioneiro.

Ora este Coriolano, que não havia meio de se casar e de largar a casa dos pais, e que, vagamente, «dava assistência» e «organizava uns projectos» num gabinete publicitário duma empresa de transportes (Fulmitâmega), resolveu engraçar com Clarinda. Foi num dia em que a casa estava cheia de clientes, o pai no café, e as duas empregadas seguiam cada qual para o seu destino, por estarem um bocadinho zangadas após uma troca de mensagens cuja interpretação benigna demoraria vários dias a deslindar.

Pois caminhavam as raparigas, cada uma para sua rua, e Coriolano estacionava no passeio em frente, em observação. Punha-se-lhe o dilema do famoso burro do filósofo parisiense Buridan. A magrita, lourinha, saltitante, ou a mais cheia, de óculos, com ar sabedor? Por um lado ... Por outro lado ... O burro de Buridan, como é sabido, morreu de indecisão, mas Coriolano era menos pensativo.

Que faz o caçador quando lhe rompem duas perdizes da mesma ramada? Prime duas vezes o gatilho e falha ambas. Que faz o polícia quando dois gatunos em fuga saem a correr pela mesma porta? Vai atrás de um, derruba-o, imobiliza-o, tenta levá-lo por uma mão, depois às costas, continuando a correr atrás do outro, é mal interpretado pelos transeuntes, acabam por fugir os dois ladrões, e lá se vai o louvor e a condecoração. Coriolano considerava-se mais arguto do que de facto era, mas sabia que não podia apanhar as duas mulheres no mesmo lance. E se a juventude de Bárbara, muito graciosa e direita, era mais atraente, o facto de ser casada e dar, em princípio, mais trabalho, levou-o a seguir atrás de Clarinda. Uma vez interceptada, perguntou-lhe: «Há aí algum sítio onde se coma qualquer coisa de jeito?»

Foram, para Clarinda, umas semanas de arroubo e desvelo, se bem que o aumento de rispidez no trato e o sobrolho rancoroso mostrassem que o senhor Ferragial não estava a apreciar muito a brincadeira. Não se percebia bem como ele tinha suspeitado: provavelmente foi aquele sexto sentido que, como se sabe, é peculiar aos proprietários de lojas de ferragens, que o levou a captar um certo não sei quê, evolado da limalha de ferro e dos brilhos dos latões, produzindo-lhe algum desconforto e ressentimento.

Mas não precisou de apurar ao certo o que se passava entre o filho e a empregada nem teve tempo para ir acastelando mais nuvens de borrasca.

Uma ocasião, Clarinda chegou à loja, escorrida de lágrimas, revogou a frieza e formalismo com que havia tratado Bárbara por esses dias, e, aproveitando uma saída do patrão, atirou-se-Ihe ao pescoço, aos soluços, deplorando: «Eu que pensava que ainda podia ser dona disto tudo ... » E foram só confidências: o Coriolano, afinal, era uma bruteza de homem, acriançado e mandão, «vai buscar isto, vai buscar aquilo, telefona p'ràqui, telefona p'ràli, despacha-te, mas é ... » e ressonava no cinema, entornando o balde de pipocas, que embaraço.

Não faltaram pormenores e segredos, que Bárbara ouvia com uma curiosidade ávida, espantada por haver relacionamentos mais infelizes que o dela própria. A conversa continuava por e-mail, na presença avantajada do senhor Ferragial que, não acreditando em transferências bancárias, ia preenchendo cheques lá na sua secretária, com muita atenção para não se enganar. Todas as mensagens electrónicas começavam e terminavam com as iniciais NTEADL (Não te esqueças de apagar depois de ler) e ensinaram a Bárbara alguns factos da vida que, até então, lhe estavam obnubilados.

Clarinda, de quem Coriolano fora o segundo namorado, menos platónico que o anterior, julgando-se uma perita em homens, espraiava-se em prolixidades e jurava para nunca mais. Via ali, na sua frente, a delicada e frágil Bárbara que podia servir-lhe de discípula, capaz de regenerar-lhe um amor-próprio ferido.

Mas ai... (e aqui se recupera este lamento romântico, tão português, que em tempos provisórios de primado anglófono alguns querem substituir por oops, sendo certo que não dá grande jeito exclamar «mas oops») a alma humana, mesmo das jovens recém-casadas, tem alçapões medonhos que comunicam directamente com os pântanos miasmáticos da perdição.

Bárbara deu em interessar-se secretamente por Coriolano que, aliás, espaçava mais as visitas à loja paterna. Começou a imaginar coisas. Admirava-lhe o ar desprendido, vagamente desdenhoso, os blazers feitos por medida, as mãos de dedos compridos «de pianista», de requebros ondulados. E às vezes surpreendia-se a imaginá-lo muito próximo, falando-lhe baixinho, ao ouvido. Chegou a pensar telefonar-lhe, combinar um encontro, copiou secretamente o telefone dele e anotou-o no telemóvel. A intenção com que se justificava, convencida não só da sua rectidão de propósitos como da capacidade persuasiva, era a de convencê-lo a voltar para Clarinda. Se não, ao menos dirigir-lhe uma palavra de conforto que lhe mitigasse o desgosto, ou, vá que não vá, oferecer-lhe flores, selando uma separação civilizada.

Das duas ou três vezes que o tinha visto estacionar na loja, preguiçando, encostado ao balcão, depois de beijocar o pai que lhe estendia uma bochecha retorcida de enfado, vinha-lhe a tentação de o abordar, às escondidas, arrastá-lo para fora, falar-lhe em segredo: «Coitada da rapariga, por que é que a fez sofrer tanto?» Os outros empregados nem reparariam. Aliás, não haviam dado por nada. Tinham-se-Ihes pegado, em contacto com os metais duros, rigidezes e frialdades que faziam com que os pequenos dramas que ali pudessem ocorrer, revelados por olhares subtis e pequenos gestos, às vezes incompletos, lhes fossem completamente indiferentes. Mesmo as alusões de Coriolano, que lhes entravam por um ouvido e saíam pelo outro, os deixavam amorfos e desinteressados.

Bárbara sentia pelos colegas mais velhos um certo desprezo e estava certa de que nunca tinham lido um poema na vida, nem sequer na instrução primária. Aqueles pobres entes não viviam, penavam ressequidos, acabados, dessorados de fantasia. Era muito nova e ainda não aprendera a invejá-los, pela imperturbável tranquilidade de espírito.

Quanto ao senhor Sá, sempre desejoso de mudar de emprego, limitava as suas aspirações e vontade de transformação social a esse único propósito. Há mais coisas na vida, há amores e desamores, há encontros e desencontros, há sentimentos, há inquietação, há insegurança, dores íntimas, estados de alma? «Está bem, Abelha, pois haverá. Eu fui à Crisferraço, Lda, mas eles lá estão a despedir pessoal e precisavam era dum guarda-livros, em part-time, com conhecimentos informáticos, na óptica do utilizador, de balcão. Nicles: diz que vão montar um sistema em que o cliente carrega nuns botões e sai-lhe o material já todo escolhido e embalado». «Não há contacto humano, não é?», perguntou-lhe Bárbara, mas ele resmoneou: «Não há mas é consideração pelo pessoal que também precisa de ganhar o dele ... »

De maneira que Bárbara tinha que guardar para si as suas inquietações sem admitir aquilo que para todos nós já há muitas linhas é tão óbvio e irrefutável. Durante uns dias, esteve insanamente apaixonada por Coriolano e essa paixão crescia tanto mais quanto menos ele aparecesse, e em vez duma imagem presente e concreta, deixava nas suas recordações um vulto idealizado, de corpo alto e flexível, modos repousados, maneiras distintas, ar distraído e fantasista e o mais que uma alma enlevada pudesse atribuir-lhe.

É um mistério que não consigo aprofundar o de saber a que ponto Clarinda estava ao corrente dos devaneios de Bárbara. Não dava sinal, nem tinha ali a quem no dar, embora seja de admitir que, no fundo, uma certeira intuição a repelasse e remoesse. Mas sobre Coriolano, nada, sobre Arnaldo, tudo.

Clarinda, depois do desaire com Coriolano, e somando a essa vivência reminiscências já antigas dum certo Delmar, um tipo de grandes olhos esbugalhados revirados para fora, trémulos de desconfiança, que dava um passo atrás sempre que alguém se aproximava, considerava-se razoavelmente experiente em homens. Uma vez que Bárbara admitia que ela era uma perita, explorava a fundo o seu magistério.

- É preciso entendê-los, amiga, percepcionar-lhes o subtexto (tinha frequentado o workshop de escrita criativa da Junta de Freguesia). Só a ingenuidade de certas mulheres permite que levem a sua avante e engendrem as coisas à maneira deles.

E descia a pormenores, e lia os comportamentos, por mais ínfimos, usando muita subtileza, interpretando-os em consonância com um mundo a que ela chamava «o universo dos homens», naquele grau tão elevado de minúcia, precisão e rigor, próprio dos feiticeiros, especialmente os brasileiros e os africanos (os xamãs siberianos são mais vagos) quando lidam com

as decifráveis áreas do astral.

Depois de fazer a barba, reparara se «ele» passara a deixar a gilete pendente da borda interna do lavatório? E, às vezes, punha um ar abstracto e obrigava-a a repetir as perguntas? Respondia por monossílabos? Emagrecia? Engordava? Não tinha balança? Mas havia umas muito baratas na Rua da Vitória, 46/48. Deitava-se de lado? Ressonava? Falava em férias «de sonho»? Demorava a chegar a casa? Chegava a casa mais cedo? Comprava ferramentas à doida?

- Querida Bárbara, não seria bem tua amiga se não te pusesse ao corrente. Ele tem outra ...

- O meu Arnaldo? Achas?

- Fatal como o destino.

De facto, vendo bem, Arnaldo mostrava ultimamente um comportamento estranho. Até dava menos vontade de falar com ele. Quebrara-se uma aura, um halo, um elo, ou lá como é que isso se chamava. Talvez Clarinda não tivesse razão em tudo, mas detectara o essencial. Arnaldo, de certeza, andava por aí a flautear, apesar do seu ar de sonso, e isso deixava a Bárbara o espírito mais livre e a consciência mais desembaraçada para idealizar as suas fantasias sobre Coriolano. Que eram, a bem dizer, muito difusas, uns contornos, umas sombras, uns harpejos, uma sensação de bem-estar, como quem voga no éter, de mão dada, sobre um tapete voador, ou uma vaga de ar quente.

- Sabes, provavelmente há outra pessoa, mas ainda não decidi nada ...

- Provavelmente?

- Não quero falar mais nisso.

- Mas foste tu quem começou ...

- Ora, tu bem sabes o que andas para aí a fazer ...

Arnaldo estava a ficar abismado e Bárbara logo se arrependeu. Mas era tarde. Ele deixara-se irritar:

- Explica-me!

Não explicou, mas recriminou, recriminou, recriminou, e Arnaldo, ao fim dessa noite viu-se tão carregado de culpas como o Zé do Telhado e não encontrou palavras para responder, até porque, de tão surpreendido, não sabia discriminar quais as grandes e quais as pequenas, quanto mais organizar uma defesa bem pensada.

Bárbara precisou de muita força de vontade para manter posições até ao dia seguinte. Na loja, lacrimejou, com um beicinho reprimido e foi animada por Clarinda, sob o conspecto severo e suspeitoso do patrão que nem sonhava que o filho, muito competente para lhe arranjar complicações, tivesse engendrado mais esta, ainda por cima sem querer.

- Há e não há - respondera quando Arnaldo, a medo, lhe perguntara se havia mesmo outra pessoa. - E estás muito enganado se pensas que não percebo as tuas manobras e as tuas escapadelas ...

Arnaldo demorou muito tempo a reagir. Tudo aquilo lhe fazia uma grande confusão. Não tinha qualquer respaldo, ao contrário de Bárbara. De uma forma geral, os homens são pouco conversadores quando se trata de assuntos privados e ele não era suficientemente chegado a nenhum dos colegas da empresa para se meter em confidências domésticas.

É da tradição das histórias, a assistência dum barman, receptor de desabafos, mas isso é para frequentadores de bares. No cinema, os barmen têm a função de adjuvantes contrabandeando informação e notas didascálicas sobre estados de alma, sem que o espectador se aperceba, porque a figura encaixa, naturalmente, nas convenções.

Mas quando um homem não bebe, não tem amigos íntimos solteiros, não dá nem recebe muita confiança dos companheiros de trabalho, tem o pai na Suécia, a mãe nas nuvens, e está reduzido a um banco de jardim para meditar à vontade, há-de contar somente com as suas próprias e diminutas forças. Que fazer? Contra-atacar, sem dúvida, curar o cão com o pêlo do mesmo cão.

E assim deixou subentender, em termos inábeis, mas que a Bárbara bastavam, que existia de facto uma relação com uma mulher misteriosa que ele, sem excessos de concretização, designava apenas por «a outra pessoa». Acrescentou um rol mental de agravos que expôs a Bárbara, item por item, e que havia sido trabalhado numa folha A4 durante as horas de serviço. Mas a lista não a interessou. Respondeu molemente. A suspeita da «outra» deixara-a aterrada.

- Não lhe dês tréguas, carrega-lhe nos ciúmes, que é para ele aprender - acirrava Clarinda, em voz baixa, no fundo de ruídos confusos da loja, ávida de conduzir aquela relação, por interposta amiga. Se Bárbara fosse mais prevista e mais atenta aos pormenores da vida concreta que aos desânimos da sua relação com Arnaldo, havia de ter reparado no aspeito convulsionado de Clarinda, na boca retorcida e no fácies duro, nas sobrancelhas oblíquas, no dardejar dos olhos, no repelar da testa. Eram estas máscaras que Belzebu apunha outrora às suas feiticeiras, mestras do malfazer e demolidoras de felicidades. «Chega-lhe, dá-lhe!», açulava Clarinda, e o que quer que Arnaldo fizesse, dissesse, insinuasse ou pensasse (porque Clarinda também tinha a perícia de adivinhar pensamentos), não ia sem resposta. Se o sono de Bárbara era assombrado por um negrume que pesava cada vez mais, o de Clarinda não era melhor: sobressaltava-se com o que Bárbara lhe contava sobre Arnaldo, memorizava frases, revia os detalhes fornecidos pela colega e todas as noites preparava, numa convulsão mental, as réplicas ferinas com que ela encostaria o marido às cordas.

E assim, de lance em lance, aí tínhamos um jovem casal, cada vez mais desavindo, sem saber bem porquê, fazendo razões de equívocos e equívocos de conjecturas. A tartaruga era agora o único compromisso que os ligava. E mal abriam a boca era para guerrear.

- Trouxeste as luvas? - perguntara Bárbara, uma vez mais.

- Não tive tempo. Eu trabalho, sabes? Além disso o chinês não tinha camaroeiros e no armeiro pediram-me cinquenta euros por um.

- Mas quem é que falou em camaroeiro?

Ao outro dia, Clarinda mostrou contentamento por Bárbara se ter defendido tão bem. Mas não houve tempo para grandes comentários, porque ela teve de ir ao hospital dar o almoço a uma velha tia, internada depois duma queda e que se recusava a comer sem muita conversa.

E então ocorreu um encontro da maior importância para Bárbara, que lhe fez estrondear o coração como nunca antes. Regressava ela do restaurante chinês, onde tinha partilhado o arroz chau-chau com as empregadas da farmácia, e contemplava a montra da perfumaria, mudada há pouco, repleta de tentações, quando uma voz conhecida ressoou e deu mais vida à imagem difusa, mas reconhecível, que se recortava no vidro. Coriolano estava muito perto, confundiam-se-lhes as sombras, cumprimentava-a, quase lhe sentia o hálito mentolado:

- Boa tarde, Bárbara ...

Foi como se o chão vibrasse, e um bafo cheio e morno revolvesse e elevasse o mundo em volta. Bárbara sentiu que os braços levitavam, que não era capaz de controlar as feições, nem o olhar, e que estava a um triz do desmaio. Não conseguiu responder logo e deu por si a balbuciar uma atabalhoação qualquer.

- Posso oferecer-lhe um café, Bárbara?

- Já tomei.

- Toma outro ...

A espessura dos ares foi-se diluindo, Bárbara respirou fundo, a figura de Coriolano clarificou-se e apareceu-lhe, de súbito, recortada sobre a parede do fundo, o fato claro muito apuradinho, um penteadinho à futebolista, um sorrizito confiante, descaído e impudente. Era o sorriso dele que agora insistia, não a voz.

Mas na comissura do lábio, como um fio abandonado que emergisse das entranhas, estremecia e palpitava um cuspo branco, quase seco, instalado e luzidio. Bárbara fixou-se por um instante no rebrilho da excrescência e revirou-se, a três quartos, para escapar àquela imagem. Mas logo o olhar reincidiu no veio lustroso que teve, de repente, um estremeção e se viu ali bem confirmado, a unir aqueles lábios lassos que se destacavam e agigantavam, perdendo qualquer relação com o resto da face.

- Não - disse Bárbara, e recuou um passo.

- Ainda bem que apareceste, ó rapaz, são quase três horas e tu nada. O galego que se amole, que espere ... que é pai de filho rico ...

De mãos nas ilhargas, o senhor Ferragial, assomando à porta do café, interpelava o filho, que logo desfez o sorriso. Bárbara não reparou se o cuspo permanecia lá ou não, porque tinha deixado de olhar.

- Vá andando, vá andando, menina Bárbara - disse o patrão, protector. E quase empurrou Coriolano para a escuridão da baiuca.

Havia um desentendimento qualquer entre pai e filho, que não era da sua conta, e Bárbara seguiu. Mas antes de o senhor Ferragial surgir à porta do café, ainda Coriolano sorria e já se tinha desfeito o encanto. Foi um baque, um balão colorido que estoira, deixando um resíduo de pedaços frouxos de borracha. TOdo aquele enlevo, a turbulência atmosférica, a sensação de vogar num limbo tépido e aconchegado, sumiram-se de repente como se os ares ficassem limpos e secos e os perfis das coisas recuperassem a suas agudezas e se impusesse severamente, de novo, a áspera lei da gravidade.

Recordam-se da velha banda desenhada americana, de Lee Falk e Phil Davis, Mandrake, o mágico vestido de fraque, de bigodinho, com o cabelo a luzir de brilhantina? Nos momentos cruciais, que ocorriam de prancha a prancha, a didascália era «Mandrake faz um gesto hipnótico» e o mundo mudava instantaneamente, com aparecimentos, desaparecimentos, reenquadramentos e uma variedade espantosa de efeitos adlib. «Mandrake faz um gesto hipnótico.» Genial invenção. Os autores nem precisavam de preparar e instalar o tal deus ex machina. Tinham-no sempre ao alcance, no estalo sonoro dos dedos. Mas nunca consideraram que um resíduo de cuspo branco, meio seco, ao canto duma boca, podia fazer maiores milagres.

Ia Bárbara sentar-se à secretária e dizia para consigo, indignada com o seu próprio comportamento: «Como foi possível eu ficar quase apaixonada por aquele idiota? É certo que a Clarinda também. Mas a Clarinda é a Clarinda e eu ... sempre tenho uma figura melhor.»

E naqueles instantes, antes de Clarinda chegar, rememorou os gestos delicados e contidos de Arnaldo, o sorriso tímido, os rompantes acriançados de fúria, a meticulosidade subtil com que ele descascava uma maçã.

Teve saudades do marido, esteve vai-não-vai para telefonar-lhe. Clarinda sentiu alguma resistência e distracção por parte dela na doutrinação dessa tarde sobre «os homens».
Mas, nesta altura, o processo de separação já ia muito adiantado, por acumulação de dias, e Bárbara, cansada de adiamentos e de desculpas, arrependida do seu arrependimento, cominava Arnaldo a adquirir um par de luvas numa estação de serviço ou numa loja de conveniência.

- Tenho de tirar o carro do estacionamento.

Andar de automóvel é fácil. O problema é arrumá-lo depois.

- Prometeste? Fazes o favor, cumpres.

- Onde é que eu arranjo o diabo dumas luvas a estas horas? Fica para amanhã.

- Hoje!

Bárbara deixava-se levar pela dinâmica que a situação impunha. Mereceria uma ampla e profunda reflexão isto de os homens (entendidos aqui em termos hábeis, na acepção que o sagaz visconde de Seabra, autor do saudoso Código Civil, empregou no seu artigo primeiro: «Só o homem é susceptível de direitos e obrigações» [estando longe de supor que alguém lhe poderia fazer a pirraça de observar, mãozinha na anca e voz aflautada: «E as mulheres?» D, isto de os homens, dizia eu, servos da dialéctica, criarem muito contraditoriamente as circunstâncias que passam a tiranizá-los. As contendas matrimoniais têm uma enorme vocação para agir por sua conta e entrar nos emaranhados caminhos da autogestão. E ainda que cada um dos cônjuges não queira, lá no imo da alma, chegar a consequências irreversíveis, pode ser impelido pelas frases, gestos e atitudes que se foram acumulando, acrescentadas pela memória, ampliadas pelo ressentimento, a ponto de engenharem numa máquina infernal que ninguém consegue travar. E tudo o que digam alimenta o monstro. E todos os gestos, mesmo inocentes, fora do contexto, desatam uma alavanca ou pressionam uma cavilha.

Assim, naquele casal passou a não haver maneira de proferir uma palavra, por mais inofensiva, que não desencadeasse logo uma leva de rancores e recriminações. Se um dizia «está frio», o outro via-se obrigado a responder «e tu que não compraste o cobertor eléctrico». Se um apontava, pelo vidro da janela, uma cena lá em baixo, na rua, dizia o outro: «Era bom que em vez de te distraíres com essas parvoíces tivesses chamado o canalizador.» E ela: «E quem é que pagava os vinte euros da deslocação? Eras tu?». E ele, fingindo puxar duma caneta: «Ah, é para irmos a contas? Ah, tu queres contas?»

- Luvas?

O homem olhou para ele com um ar de profundo desprezo, como se lhe perguntassem: «Conhece o meu primo? Um rapaz assim e assim que trabalha nas obras do senhor Lodemiro?»

Arnaldo reconheceu, de si para si, que aquela estação de serviço, à saída de Lisboa, talvez não fosse o local mais indicado para encontrar umas luvas de látex. Mas não lhe parecia haver qualquer outro estabelecimento aberto e impunha-se-Ihe o brio de cumprir o que tinha sido acertado com Bárbara.

Agora ali estava, perante um sujeito que o olhava com viso enfadado, por cima duns óculos de ver ao perto, contrariado por ser interrompido a meio da leitura da revista Man's Health que tinha desdobrada sobre o balcão. E, sobre isso, acercava-se e ia-se encostando um segurança, de ar rufia, que parecia muito interessado em examinar os nós dos dedos dos dois punhos unidos que erguia a um palmo do nariz, como se nunca os tivesse visto antes.

- Isso é mais no hospital - rosnou o segurança. Havia qualquer coisa de requintadamente alusivo, na frase bafejada por entre dedos peludos, que punha Arnaldo de sobreaviso e o convidava a uma retirada honrosa. É certo que o balconista e o segurança, com a experiência nocturna que lhes competia, não podiam deixar de ter desde logo percebido que Arnaldo era a candura em pessoa. Mas, por uma questão de rigor, continuavam a agir profissionalmente. Aquela antipatia não implicava nada de pessoal. Foi o mal deles. Se estivessem mais relaxados e soltos, talvez tivessem percebido o que aí vinha e tido oportunidade de tocar o sinal de alarme.

- Isto é um assalto. Tudo para o chão!

E eis que o mundo começa a girar furiosamente, num turbilhão cheio de cores, como se os lustrosos pacotes de batatas fritas e as glamorosas revistas de coração zunissem na giravolta álacre de um carrocel doido. Uma espécie de King Kong cinzento saltava sobre o balcão e uma forma fantasmática berrava num bramido:

- Tu também, ó lingrinhas, p'ro charco, avistes?

Arnaldo encolheu-se todo, chegando-se ao segurança, estendido no chão de ladrilho, que lhe segredava, desta vez em tom amigável.

-Calma, pá.

E estourou aquela revoada metálica de máquinas arrombadas, estardalhaço de metais e objectos a cair no chão, num pandemónio de fim do mundo. Ainda estava o fim do mundo a acontecer, quando dois rebentamentos estremeceram os vidros, e atordoaram os tímpanos de Arnaldo. Massas confusas revolviam-se e caíam numa convulsão de trouxa de roupas. Um cheiro activo a pólvora impregnou todas as moléculas em volta, desde a maior à mais pequena.

Arnaldo nunca viria a perceber se tinha desmaiado, se se ausentara temporariamente do mundo para lhe não sofrer a brutal injustiça, ou se o que veio a seguir decorreu sem soluções de continuidade. Lá iremos.
Nessa noite, Bárbara, a quem cabia a cama de casal, tinha ficado à espera das luvas e, uma vez terminada a telenovela, ia folheando uma revista chamada Glamour que contribuiu para um grande e merecido bocejo. Mas a chave nunca mais estalava na porta e o elevador era como se o tivessem pregado nos andares de baixo. Começou por ficar preocupada, mas sobreveio uma tristeza ondulada, feita de ressonâncias doridas, com acordes longínquos de violino, e uma languidez escura de sombras de ciprestes. Arnaldo tinha aproveitado aquela saída para se encontrar com a namorada. Quem seria ela? Mas que topete e desvergonha. E vieram-lhe aos olhos umas injustas lágrimas embebendo as saudades que já sentia dos bons, embora encurtados, tempos que haviam passado juntos, como se eles fossem verdade.

Estas contendas entre casais são por natureza equivocadas, abyssus abyssum invocat. Ver-se-iam reduzidas a quase nada se carreassem dados objectivos, factos, números, expostos em colunas claras, rigorosas e isentas. Aconteceria assim entre as formigas e as abelhas, decerto, se elas tivessem matrimónios e soubessem lançar informações no papel. Mas, pensando bem, ninguém quereria essa vida e certas coisas são como são, precisamente porque confirmam a verdade contida numa das últimas linhas de diálogo deste cronovelema e que será, se não estou em erro, uma pequena frase proferida por Bárbara: «Somos humanos, não?»

O grande engano de Bárbara é que não havia verdadeiramente «outra», com a carga de mistério e de perigosidade que, no contexto, é costume atribuir ao vocábulo, irradiante de sentidos funestos. Não foi preciso Arnaldo ser muito hábil para que ela se convencesse de que lhe haviam roubado o marido, da mesma forma que ele estava convencido de que um outro arrematara a mulher. A Bárbara não bastava a intuição feminina, precisava de mais experiência da vida, e as maquinações de Clarinda ajudavam pouco.

A verdade é que, a menos que nestas matérias as intenções e mesmo as débeis tentativas contem, coisa sobre que tenho dilaceradas dúvidas, Arnaldo estava o seu tanto inocente.

Dois ou três colegas viam-no entristecer-se ao computador, a deixar-se hipnotizar pela luminosidade da pantalha, sem fazer correr os números do Excel, nem tocar no teclado, e sugestionaram-no a convidar a Dr," Cintialina, dos Serviços Jurídicos, para jantar. Alguém aventou que eles «tinham muito em comum» e em todos aqueles contabilistas nasceu uma vocação súbita de alcoviteiros. O querer de Arnaldo era frágil e eles levaram a sua avante, assistindo ao florescer daquela relação com o enlevo terno de quem acalenta uma planta carnívora própria de outros climas.

- Jantar não direi, porque tenho de ir ao workshop de ikebana, às oito e meia, mas não vejo nenhuma boa razão para não almoçarmos por aí.

- Nas Delícias Turcas ou no Ratufufafabá do Leblon, ou no Okusai Akamoto?

- O Paraíso do Minhoto serve melhor e é mais barato.

E quase sem saber como, via Arnaldo a composta Cintialina na sua frente, a usar angulosamente os talheres e a explicar-lhe:

- A ordem de serviço que manda aplicar a interpretação mais favorável da portaria 38/64 é manifestamente mais desvantajosa que a implementação da dedução do modelo n.? 6 A, pelo menos como ela é entendida pelo nosso serviço, nos casos específicos, devidamente tipificados, em que não for onerada pela excepção inadimplementar. Salvo melhor opinião, é evidente.

Bebeu um golinho de vinho e olhou-o numa interrogação muda, pronta a discordar respeitosamente. E ele, a responder de imediato, com um rojão suplicante a aguardar na ponta do garfo:

-Claro!

Mas, para lá da parede de vidro do restaurante iam passando sombras e sombras, um miúdo esguedelhou-se numa careta de beiços arrepanhados e olhos fora de órbita, um casal idoso leu circunspectamente o menu e retirou-se, desconfiado. Arnaldo interrogava-se sobre a razão de cirandar tanta gente àquela hora no centro comercial. Grassava o desemprego, decerto; haveria também quem tivesse as folgas naquele dia; e os empregados das lojas, bancos, empresas e instituições das redondezas aproveitavam a hora de almoço. Mas aquela massa flutuante que deslizava para cima e para baixo, nas escadas rolantes, como dentes devastados de uma engrenagem, e se derramava pelas galerias em grumos escuros, ruidosos, com o seu quê de inquietante, donde vinha ela? Por que estava ali? «Já não há patrões», concluía de si para si, hesitando entre uma batata frita, uma rodela de chouriço, e um resto de esparregado. Era visceralmente reaccionário, não por maldade, mas por atavismo.

-Não acha?

Cintialina, muito composta, de cabelos escorridos, de espessura negra, tão cerrada que se diria uma peruca, ou um feltro preto, rebrilhante de saúde, interrogava-o com os talheres em suspenso, pousados no esparregado. E Arnaldo sentiu uma angústia funesta, cheia de lassidão e remorso, por não saber nada de inadimplementos e por ter desencaminhado aquela rapariga cujos modos não se comparavam com a graça menineira de Bárbara.

Todos sabemos, especialmente os de nós que em hora arriscada cometem a coisa artística, que a improvisação tem um preço muito alto e que os melhores repentismos são os que resultam de um longo esforço de concentração, de tentativas, de análises e de sínteses, e de um pecúlio muito razoável de experiência. Ora Arnaldo não possuía nada disto e, ainda por cima, fora apanhado desprevenido, à imagem daquelas criaturas que saltam um talude e depois não vêm maneira de o voltar a subir. Não podendo regressar à estrada, e porque vai anoitecendo, olham, por instantes a espessura de silvas, o declive escorregadio e enlameado e decidem, num ápice de que provavelmente se irão penitenciar, embrenhar-se na floresta mais próxima, sem saber se nela encontrarão aquela luzinha salvadora dos contos populares.

Foi nesta aflição que Arnaldo proferiu as palavras fatais:

- Tenho uma grande estima por si, sabe?

Ainda ia a nasalar a sílaba «gran» da palavra «grande» e já estava arrependido. Pensava, aceleradamente, numa forma qualquer de resistir à sua própria nconsistência quando reparou que, embora a sua voz tivesse sido clara e a declaração inequívoca, não correspondera exactamente ao que Cintialina esperava e, portanto, não fora processada por aquela máquina de raciocinar.

- Sim, sim - respondeu Cintialina -, mas o que é que vocês fazem, lá no vosso serviço ao verificar em conferência de contas que o lançamento das mais-valias tem incidências, porventura espiraladas, nos custos relativos aos procedimentos meramente instrumentais, ainda que declarados à taxa de 5%? - e acrescentou - Hã?

No decurso daquela conversa, Arnaldo verificou que Cintialina dizia que sim a tudo, numa afirmação seca, breve e gelada, daquelas que Ponson du Terrail diria «não admitirem réplica», e que significava «pois, passemos mas é adiante ... ». Cintialina apenas se ouvia a si própria, e o pântano da burocracia era para ela um resplandecente mar de rosas e um espelho de filáucia. Não era preciso um suplemento de subtileza para que Arnaldo chegasse ao pudim flan inteirado da razão por que Cintialina estava tão disponível, nem um acesso de paranóia conspirativa para verificar que os colegas cuvilheiros lhe tinham pregado uma partida.

Bem se poderia tranquilizar Bárbara, que não tinha rival à altura. Por enquanto, pelo menos.
Deixámos, em desajeitada sugestão de cliffhanging, o nosso jovem estirado no chão, numa remota estação de serviço, a ouvir o mundo a desabar, em vagas mais e mais altas de estrondo, num estado de tal perturbação que parecia que tinha o coração recolhido ao buraco do estômago, o estômago atravessado na garganta e a garganta a regougar-Ihe nos calcanhares.

Depois dos tiros, romperam os berros dados com tanta gana e fúria que lembravam uma exibição adolescente de vozes grossas recém-adquiridas, em trupe pelas ruas, a escandalizar a vizinhança trabalhadora, ou as súcias de «adeptos» dos clubes de bola, a projectar no éter os recalcamentos de vidas enviesadas. Ulularam os vários vozeirões, em estereofonia:

- Polícia! Tudo no chão. Larga a arma, cabrão! Mãos atrás da cabeça! Já, já, já!

Era demais para o entendimento e para as emoções de Arnaldo que suspendia o seu juízo e se proporcionava uma breve hibernação, embora estivéssemos em Maio. Com a consciência desligada, devia ter dado umas explicações que era improvável parecerem muito claras.

Encontrava-se, às tantas, sentado na sua frente, a uma mesa de metal, um fulano de cabeça rapada, fardado, que perguntava, cheio de curiosidade:

- Mas para que diabo é que queria você umas luvas cirúrgicas? Explique lá ...

E uma voz, escarninha, vinda da sombra, ao seu lado direito:

- Dava jeito para apontar a fusca, não? P'ra esconder as digitais? P'ra fintar a polícia?

- A tartaruga ...

- Quem é a tartaruga? Onde é que mora? Onde é que pára? O carro da gaja?

- Um animal.

- Este mangas já me está cá a azucrinar o juízo e daqui a nada vejo tudo encarnado, pá! Diz, mas diz!

E o homem deu uma tal punhada na mesa que fez saltar os papéis e oscilar o monitor, a ponto de o outro observar:

- É pá, ó Tavares, tem calma, pá!

Era o jogo do polícia mau e do polícia bom, num inútil cruzar de subtilezas, porque Arnaldo estava por tudo. O bilhete de identidade, o número de contribuinte, o cartão do sindicato, e os cartões de crédito, e todos aqueles pequenos lixos que todos trazemos nos bolsos, como talões de Multibanco, ou o endereço do dentista, circulavam em cima do tampo, andavam de mão em mão, e os agentes tardavam a verificar que aquilo batia tudo certo. Arnaldo procurava recordar-se de como todas as ocorrências se tinham desenrolado. Fora a uma loja de conveniência ao Saldanha: fechada, falida. Passara por uma farmácia de serviço: as luvas tinham-se acabado, mas já estavam encomendadas; finalmente, perguntara por perguntar, no gasolineiro, admitindo que, num golpe de sorte, pudesse encontrar umas luvas, mas a sorte que teve foi aquela barafunda.

Em casa, Bárbara, perdida em suposições, tardava a adormecer. Pensou em vestir-se e sair, para retaliar, para lhe dar cuidados, para não ser encontrada por ele no regresso. Chegou a soerguer-se e dobrar-se para alcançar o vestido, rojado aos pés da cama, mas a perspectiva de caminhar à toa pela rua, encontrar tunantes que a importunassem, aturar bêbedos, sofrer olhares curiosos, fugir de abordagens de alarves, iludir carros desportivos de mafiosos, desanimaram-na e fizeram-na desistir. Ao menos se tivesse um cão: um rottweiler, ou um pastor alemão, meigo para os donos, devastador para os agressores. Mas toda a companhia ao dispor não passava daquela inútil tartaruga a dar trombadas no acrílico. Era tarde para falar a Clarinda, ou a alguma das amigas e conhecidas. Ligou e desligou o televisor do quarto, tornou a ligar, saltitou de imagem em imagem, numa sucessão desconcentrada de cores e ruídos, tornou a desligar. E antes de adormecer foi despejar dois dedos de plâncton seco no aquário da tartaruga, que estava essa noite muito activa.
- Olha o meu enteado!

Mais do que a porta a abrir-se com estrondo foi o qualificativo, fendendo o espaço, como um raio tétrico, embora clarificador, que sobressaltou Arnaldo. Detestava que o namorado da mãe lhe chamasse «enteado» e não o detestou menos por ver-se despachado de uma situação que, de outro modo, mostrava consideráveis contornos de incomodidade e perda de tempo.

A aversão vinha desde há muito, e era irremovível. A mãe, sob um pretexto qualquer, tinha dado uma pequena festa lá em casa para apresentar o homem da sua vida, quinze anos mais novo, atleta, defensor da ordem pública e, em calhando, dos fracos e oprimidos, sempre que os fortes e opressores não estivessem interessados. Aproveitava para mostrar aos convidados um caramanchão com parreiras de uvas falsas, de vidro, que o namorado tinha instalado no terraço.

Estavam uma senhora que escrevia livros de etiqueta e grande especialista em talheres de peixe de todo o mundo, com o seu marido que era pura e simplesmente proprietário (diziam que muito endividado) e usava um foulard enfeitando um blazer com botões de lata; uma criatura que era produtora de televisão e vivia convencida de que a régie e os pequenos negócios atinentes eram o mundo e que todos tinham obrigação de a conhecer, acompanhada dum sujeito enfezado, muito carrancudo, que olhava para toda a gente com uns olhos exorbitados, à Buster Keaton, e não dizia nada. E estava ainda um literato nos seus cinquentas, muito penteado e enjoadinho, que era filho daquela pessoa que tinha vindo de Moçambique, lembras-te?, com um amigo que segurava as gambas fritas com dois dedos preciosos, de unhas manicuradas e era autor do blogue Think Pink Destiny. «Quanto a isso», dizia, «há que ler o meu blogue», e citava-se abundantemente: «No meu blogue isto, no meu blogue aquilo.» Ou mandava mesmo ler o blogue: «Veja o que eu escrevi no meu blogue», «Vou consultar o meu blogue e logo lhe digo.» Havia também quatro viúvas que tomavam habitualmente chá acando a respeito da mobília, já que não se atrevia a fazer menção ao polícia:

- Mãe, nunca mais mandou empalhar esta cadeira.

Referia-se a uma enorme cadeira de balouço, cheia de volutas, tão descomunal que, vista ao longe, poderia parecer uma cadeira de barbeiro ou aquela máquina do tempo que aparece no filme de George Pal. Tinha sido deixada pelo pai, como relíquia de família, e o assento estava desentrançado, há anos, num eriçamento caótico, sob uma almofada de retrós, com um bordado representando um camelo, que Arnaldo mostrou em volta, triunfal e cruel, como se estivesse a exibir um chinó de alguém.

- Boa ideia - disse a mãe, cortante. - Não te importas de a levar tu ao empalhador?

- Mas como é que eu levo a cadeira? Já viste o tamanho dela?

O diálogo teve um sucesso inesperado porque os circunstantes formaram um círculo em volta da cadeira de balouço e suspenderam todas as conversas. Arnaldo não esperava tanto. Era muito tímido e sentiu-se embaraçado. Devolveu o camelo bordado à origem e fez uma menção discreta de afastamento. Mas o polícia pousou vigorosamente o croquete e veio lá de trás, numa fúria solidária:

- Desmonta-se já!

E atirou-se à cadeira, revirando-a, descobrindo-lhe os pontos fracos, como um lutador de luta livre quando soergue o adversário pela cintura, com esforço, num aperto de ferro, e o lança depois ao chão para mergulhar sobre ele. Arnaldo não soube como apareceu ali uma chave de parafusos, mas desconfiou que o proprietário do blogue tinha nos bolsos um daqueles canivetes suíços que habitualmente damos aos familiares adolescentes pelo Natal, quando não nos lembramos de mais nada. E já eram dois, e mais outro, e uma velhota, de posse da cadeira, a mãe a rir, e ruídos de madeira a estalar, carpetes muito castigadas, a roçagar pelo chão, respirações ofegantes em cacho. Arnaldo não teve outro remédio senão fazer de conta que ajudava também. Nessa noite, humilhado, saiu de casa da mãe com um assento de palheta esburacada debaixo do braço, um saquinho de plástico com seis parafusos no bolso, e um ódio contumaz ao namorado materno.

Deitou o assento num caixote de lixo, próximo de casa, e, daí para diante, quando a mãe lhe perguntava por ele, ia respondendo:

- Sabe como é ... Estes profissionais, neste país ...

E agora ali tinha o energúmeno Gervásio Escarrapacha num vendaval de músculo e saúde, se não a salvar-lhe a vida, pelo menos a desencrencá-la com aquela lábia fanfarrona e segura de si, que levava tudo raso em frente:

- Olha o meu enteado!

Desapareceu por instantes e logo regressou, com cara de caso. Puxou de uma cadeira, sentou-se, e perguntou num sussurro confidencial e fraterno:

- Explica-me só uma coisa. Para que diabo querias as luvas cirúrgicas a estas horas da noite?

Arnaldo entaramelou uma explicação embrulhada sobre tartarugas, salmonelas, teimas familiares. A cara do outro passou do espanto a um tremelicar avermelhado de riso contido. Depois saiu, de repente, meio dobrado, batendo com a porta. E Arnaldo ouviu, do lado de lá, gargalhadas abafadas e um «pfff ... salmonelas ... » que o deixaram ainda mais deprimido.

Todos os papéis, interrogatórios, reconhecimentos e formulários foram ali cumpridos sob o olhar protector do polícia providencial, que apenas deixou a sala por um instante, para ajudar a levar um dos presos. Devolveram-lhe a carteira, os cartões, o telemóvel. E foi acabrunhado por uma noite infernal, com uma movimentação que não lhe ia com o feitio nem com o gosto, que Arnaldo sofreu a boleia do namorado da mãe de volta até à bomba de gasolina.

Gervásio Escarrapacha mostrava-se radiante por fazer um favor àquele «enteado» tão esquivo e nada complacente. Assegurou-se de que Arnaldo estava suficientemente calmo para conduzir, deu-lhe duas ou três irritantes palmadas nas costas, sugeriu levá-lo a um bar que ele conhecia para arrebitar melhor, e, no meio de tanta solicitude, demorou a despedir-se. Pelo retrovisor, Arnaldo apercebeu-se de que ele o seguiu até casa, num acompanhamento tutelar. Depois de estacionar, passou por ele com um aceno e uma businadela rápida, em jeito de saudação.

«Estou tramado», pensava Arnaldo, ao entrar em casa, «favores destes nem se pagam com uma vida inteira de juros a 4%.»

Atirou-se para o sofá, exausto. Irrequieta, a tartaruga teve um baque, sonoro, contra as paredes do aquário. Arnaldo deixou-se ficar longo tempo, vestido, imóvel, num contorcionismo dramático, a cabeça embutida no velho sofá, braços e pernas para qualquer lado. Mas Bárbara não estava adormecida.

- Arnaldo - disse ela, baixinho. (Pausa) - Não te esqueças de fechar bem a porta.
- Mas pena dele, o quê?

Clarinda estava amuada, falava com raiva e batia fortemente com os dedos no teclado. Enganava-se, parava, retomava a batida com mais força.

- Mas não dormiste com ele na mesma cama, pois não?

Bárbara tranquilizou-a. E ela, rancorosa:

- Era só o que faltava!

Via o desfazer daquela relação como uma das grandes vitórias da sua vida e não queria, nem por nada, que a frouxidão de Bárbara a comprometesse.

- Diga, senhor Ferragial! São coisas de serviço. A factura já vai que o «sistema» está emperrado.

Tinha aprendido a desculpa do «sistema» quando ia fazer depósitos ao banco. Um dia, o senhor Ferragial também regressara das Finanças desolado, porque o «sistema» não permitia aceder a determinado documento. Clarinda ficou com a explicação do «sistema» para todos os atrasos do serviço e o patrão, embora desconfiado, calava-se, porque não percebia nada daquilo.

Ela agora estava a suspeitar de que no ânimo de Bárbara se ia acumulando uma reserva de piedade para com Arnaldo e isso contrariava-a e fazia-a sentir-se vítima duma ingratidão. Tinha-lhe mostrado toda a boa vontade, tinha-lhe ouvido as confidências, tinha-lhe emprestado o lenço, tinha-lhe ocultado os falecimentos de humor perante o senhor Ferragial, tinha-a aconselhado, desmascarando a perfídia masculina, desmistificando, denunciando, esclarecendo, nunca lhe faltando com uma palavra justa e amiga, com uma benevolência solidária. E vai ela, quase deitava tudo a perder. Com pena do gajo, depois do que ele lhe havia feito, imagine-se. E Clarinda estava tão convencida do seu justo furor, que o exprimia naquele torvelinho de dedos saltitantes sobre as teclas, castigando-as de rijo, indignada, como o doutrinador religioso que vê os seus neófitos voltarem aos manipansos.

Mas se alguém, apontando-lhe na frente um dedo enristado, tivesse inquirido com voz firme: «Ouça lá, mas, no fim de contas, que mal é o que o rapaz fez?», ela mostraria alguma dificuldade em responder à pergunta, e refugiar-se-ia quando muito numa ignoratio elenchi, falácia muita em voga, resmungando qualquer coisa do tipo «o que eles querem todos é ... » e mudando de assunto.

Ora a colega não lhe tinha contado a verdade toda, mais por acanhamento que por sabedoria. Clarinda desmaiaria de raiva se soubesse que Bárbara, antes de recambiar Arnaldo de novo para o sofá, passara tristemente a mão pelo rosto e espalhara com um delicado gesto circular os restos duma lágrima que ainda lhe humedeciam as pálpebras.

Ocorreram as coisas destarte:

Depois de fechada a porta, como Bárbara pediu, Arnaldo remexeu-se no sofá e deu um suspiro muito fundo, conseguindo evitar por um triz, ao esvaziar o esófago, uma vaga de soluços que já vinham quase à tona. Eis que desata a tocar o telemóvel que ele tinha posto em cima da mesinha e a girar numa trepidação de mosca doida, ao som duma música tecno entre cruzada de guinchos.

Arnaldo atendeu e ouviu uma voz de macho brasileiro, muito arrastada, chamando-lhe «cara», exprimindo que o emitente já estava com o saco cheio e se não entregasse a grana até à meia hora «' tava com a folha feita, pô. Morou?» E logo a seguir, mal refeito, telefonava uma mulher: «Faz o que ele diz que a coisa está meio esturrada, pô.» E de novo o rufia: «Meia hora, tá?»

Entrou de rompante no quarto de casal, sobressaltando Bárbara e fazendo tombar com rumor a moldura da avó de cima da cómoda.

- O que é que eu faço, o que é que eu faço?

- Talvez destrocar o telemóvel - respondeu Bárbara, ainda convencida de que ali havia negócio de saias.

Só então Arnaldo reparou que, na esquadra, tinham trocado o telemóvel pelo dum assaltante e ficou muito grato a Bárbara por ter dado por isso. E ela congeminou um gesto terno, quase de aconchegar. Mas fê-lo voltar para o sofá, onde o rapaz dormiu uma noite de sonos agitados, com ecos de gritos, tumultos e socos numa mesa.

Ao pequeno-almoço, Bárbara voltou a apiedar-se. Espreitou-o pelo canto do olho e condoeu-se de o ver a mastigar uma tosta, estremunhado e ausente. Antes de sair deu-lhe um beijo rápido na testa e desarvorou porta fora.

Mas não contou a Clarinda nada disto. Limitou-se a mencionar o assalto e a referir, desprendidamente, que tinha tido pena do marido, como mero ente humano, bem entendido, não fosse pensar-se outra coisa.

- Telefonaste para a polícia? Confirmaste?

- Que ideia! Ele vinha tão assustado ...

- Nem imaginas do que eles são capazes.

E Clarinda perorou sobre a aleivosia masculina, alargou-se, contou casos, inventou, agregou uma colação de filmes e artigos de imprensa do coração, e foi castigadora, do alto da sua avantajada experiência, composta por um homem e tal.

- Com isto - disse Bárbara - ainda não foi desta que nos livrámos da tartaruga.

- Vê lá se foi truque ...

Mas Bárbara mostrava aquela obstinação das almas ingénuas que, apesar de contarem mais do que querem e ouvirem mais do que gostam, se fincam a uma ideia, uma imagem, uma impressão e não há quem as arrede, venham argumentos, venham discursos, venham raios e coriscos. Confessou que, apesar de tudo, não tinha grande pressa em se desfazer da tartaruga, que até estava a tomar afeição ao bicho, se bem que ele não fosse muito comunicativo. Pelo menos não era tanto como um hamster, ou mesmo um daqueles coelhinhos anões que gostam de roer os fios eléctricos, apanhar choques e estourar com os fusíveis.

- Vê bem - disse Clarinda -, que ele não se sirva do pobre animal como arma.

Bárbara, de si para si, considerava que ela estava a exagerar. Talvez Arnaldo se mostrasse intratável, difícil de entender, mesmo implicativo, mas daí a ser um monstro, capaz de manipular sentimentos através de interpostos animais, ia uma légua da Póvoa, seja qual for o tamanho dela.

Depois do almoço Clarinda pretextou que ia às compras e voltou com quatro caixas de luvas da farmácia, da drogaria, da Bagatela e da loja chinesa, que dispôs friamente sobre a mesa de Bárbara, perversamente alinhadas. Estava disposta a tudo.

- Quanto te devo? - perguntou Bárbara, o seu quê melindrada com o gesto tão expedito, lembrou-lhe a sua própria apatia.

- Quando estiveres livre desse traste logo me pagas - respondeu a outra.

Bárbara não quis perceber se ela se referia à tartaruga ou a Arnaldo. Mas já o senhor Ferragial a chamava para conferir um balancete e nunca mais pôde esclarecer essa dúvida.
Pobre tartaruga sem nome, fitando em frente, no seu aquário de acrílico embaciado, conformada por lhe terem propiciado ar respirável, um espaço para movimento, uma água limosa, uma comida lançada suficientemente do alto. Se eu estou bem informado sobre a visão dos quelónios, mais apetrechada para ver ao longe que ao perto, ela distinguiria, à transparência, umas sombras acinzentadas e uns movimentos de claro-escuro, a perpassar. Das vozes e remoques sardónicos em volta aperceberia tão-somente as vibrações negativas. Nada mais lhe chegaria. Haveria apenas, em qualquer lado, causando desconforto, um apelo obscuro e aprazível de vastidões pantanosas, rumorejo de insectos, golpes de sol, entre névoas, sobre confortáveis águas pardas, macias, espessas e sem cloro.

E aí está como as circunstâncias da tartaruga reclusa, no seu exíguo compartimento, desimpedida de movimentar os membros, a cabeça, e de embater contra as paredes do aquário, evocam a condição humana, livre de esbracejar dentro dos seus limites, mas apenas pressentindo, sem os compreender, e sem atingir as suas verdadeiras naturezas, as vozes, os rumores e os relampejos que há em volta.

Afastem-se da terra cinquenta quilómetros, passem a estratosfera, abandonem a gravidade, o que está em cima será igual ao que está em baixo, dando cumprimento à célebre máxima do Hermes Trimegistos, cuja comprovação exige, no entanto, o concurso de poderosíssimos motores. Recuem até à explosão primordial e o vocábulo «antes» deixará de fazer sentido, porque supõe a própria existência do tempo que só então («só então»?) foi criado e atentem na insuficiência da prosa para atingir estas complexas realidades, plantadas no âmago do inefável.

Ora acontece que a origem da quezília entre Arnaldo e Bárbara é tão misteriosa e inalcançável pelos sentidos como o Big Bang ou as fórmulas do esoterismo helenístico. O que existiu para além do começo? Ninguém sabe. A terra está por cima ou por baixo do Sol? É indiferente. Tanto Arnaldo como Bárbara passavam boa parte dos seus momentos mais íntimos a tentar reconstituir a forma como tudo tinha começado: a palavra mais áspera, o gesto de brusquidão, o sarcasmo, a desatenção, a indiferença, em suma, o atentado mais primeiro, a causa movens daquela espiral que já ia quase a romper-se. Mas não conseguiam: o que lhes ocorria eram sempre causas segundas, circunstâncias agravantes, remoques e atitudes que vinham acumular-se e crescendo, como pedras que se vão atirando para um poço e que, com a continuação, já fazem diferença e transvazam.

E se cada um deles era bem capaz de elaborar uma completa lista das culpas do outro, nenhum podia, em boa consciência, garantir que elas não eram a resposta a uma provocação que as antecedia, que por sua vez se justificava com uma palavra mal colocada, que, por seu lado ... O mais que conseguiam aquelas almas, que até não eram mal formadas, era uma espécie de cegarrega, como a da formiga que tem o pé preso na neve e pede ao Sol que derreta a neve, etc.

A cada dia que passava, as coisas tendiam a agravar-se e o próprio esforço de memória, revolvendo e trazendo ao de cima escórias e impurezas, algumas há muito soterradas e, até, anteriores ao casamento, era um factor de desconforto e afastamento. Como em tudo na vida, a recordação dos bons momentos era abafada pela dos maus, porque o escuro é mais forte que a claridade, e a treva é o estado natural de repouso que não exige nem esforço nem energia.

Sobretudo, naquele casal não existia maturidade que permitisse um exercício recíproco de apaziguamento. Sobrelevavam, por um lado, as exigências de um amor-próprio que não encontrava melhor nem mais fácil aplicação; por outro, o próprio receio do fracasso, não fosse o esforço de conciliação um passo mal dado, a causar mal-entendidos e mais consequências enviesadas.

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