A arte de Morrer Longe Mário de Carvalho



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Mas a fechadura da porta estalou convictamente e Arnaldo teve um sobressalto: era o polícia. Julgava que ele estivesse de serviço àquela hora. Levantou-se tão depressa que derrubou um pequeno cinzeiro em forma de rosácea que ornamentava o braço do sofá de veludo e deu uma pancada na mesa que esteve, vai-não-vai, para causar uma inundação de laranjada.

- Credo, menino.

Arnaldo temia visitar a casa da mãe por ela viver com um polícia, bastante mais novo, que o tratava com um ar arrogante e andava sempre a contrariá-lo. Era daqueles tipos irritantes que julgam saber tudo e têm sempre alguma coisa a acrescentar e a corrigir. Por exemplo, no caso de alguém dizer, casualmente: «Um amigo meu fez escala no Butão, quando vinha de Taiwan, num voo da Aeroflot», ele logo atalharia: «A Aeroflot não faz escala no Butão, além disso, a rota mais apropriada é por Riad, a não ser, é claro, que o piloto esteja bêbedo, porque lá não se podem consumir bebidas alcoólicas, o que é uma opção deles. Em todos os regimes há coisas boas e coisas más. A Arábia Saudita, sabem?, é o único país que tem um nome derivado de uma família. Reina a paz social. Sabes o que fazem aos ladrões na Arábia Saudita? Ah, pois, mas é só com um cirurgião... A verdade é que lá, um ladrão dificilmente reincide... Então as segundas reincidências estão totalmente excluídas.»

Era um grande frequentador duma enciclopédia virtual que nos princípios do século XXI se designava por Wikipedia, muito apreciada por polícias ávidos de instrução e estudantes em apuros de véspera de exame. A mãe ficava encantada, cabeça pousada nas mãos sonhadoras, quando ele discorria sobre as «redes sociais», o Twitter, o Facebook e desvendava, alto e bom som, as múltiplas e desenvoltas projecções da sua personalidade.

Mas Arnaldo, agora, não tinha maneira de escapar. Já assomava à porta a figura enorme e quadrada do guarda de primeira classe Gervásio das Neves Escarrapacha, envergando fato Armani, imitação habilidosa, sobre camisa Springfield fabricada na Tailândia. Manifestou-se com arruído, satisfeito por encontrar o rapaz.

- 'Tás porreiríssimo, pá?

Arnaldo percebeu, pelo relance que passou nas feições da mãe, numa sucessão fulminante de regozijo e enjoo, a figura triste e desconsolada que fazia com a sua cara miúda, o queixo afilado, os ombros dobrados, os cabelos alourados, finos e escorridos, os olhos sempre espantados, de uma deslavada cor de malva, em contraste com aquele atleta jovial, impante de músculo, levantado de gestos. Geralmente, considera-se que os filhos não são avaliados pelas mães no mesmo tabuleiro dos amantes. Mas nós não conhecemos todos os filhos nem todas as mães. Era bom que esta mãe se reconduzisse, não já às condições celebradas de especiosa ou dolorosa, mas ao figurino ordinário da benevolência materna. Para a leitora, porque a reconheceria com mais facilidade e afinidade; para o autor porque lhe exigiria menos esforço de caracterização; e para Arnaldo que escaparia a estas humilhações.

Saiu com precipitação, engrolando uma desculpa atabalhoada sobre o parquímetro, falsíssima, porque tinha vindo de Metro, e cruzou-se no patamar com um aluno de piano da mãe que saía do elevador, cabisbaixo, a arrastar urna mochila tristonha. E desligou o telemóvel, porque não queria que a mãe lhe telefonasse a pedir explicações.

Já uma vez ela lhe tinha sussurrado, sorrindo, com uma palmadinha na mão:

- Vá lá, confessa que não gostas muito do Gervásio.

Timidamente, Arnaldo respondera:

- Não, mãe, muito ao contrário. Tem imensa saúde mental...

Jantar sozinho uma febra panada com alface, batatas de palito e palha de cenoura crestada, num banco de bar, junto a um rebordo alto de fórmica bordeaux, encostado a um espelho que reflecte o balcão, e o movimento triste doutros tipos solitários, com ar de paquetes, taxistas e pequenos lojistas, e também duma esparsa escória de Lisboa, que devora um ovo cozido ou um rissol de leitão, falando sobre bola, ordinarices ou irrelevâncias, nem sempre é má coisa. Não raro, o olhar deambula, o espírito vagueia e espreguiça-se, num limbo em que fluem as impressões, as recordações, as imagens, levadas por uma Corrente de consciência indolor que pode ser tão atraente que certos romancistas, e não dos menores, chegam a fazer matéria disso.

Mas a solidão aquietada que compraz a certas almas, das que têm algo para dar a si próprias, nem sempre agrada a outras, que precisam de ser estimuladas de fora, por não fabricarem energia no seu núcleo.

Seria o caso de Arnaldo Vargas que, ao pagar a conta, se sentiu tão triste e desconsolado que comprou um bilhete para o cinema num balcão de pipo- cas e bebidas gaseificadas.

Na sala azulada pairava um cheiro oleoso, a fritos,

e, nos raros silêncios, em que abrandava a gritaria dos sons dolby, muito acima do que o ouvido humano pode suportar, sobrepunha-se o rilhar do milho em baldes de papel e o ranger abrutado de mandíbulas. Houve minutos alucinados de anúncios, com revoadas de decibéis em catadupa a cada mudança de plano, batucadas, pancadas em ferro e trovões de lata.

Para quem vinha duma cervejaria tranquila de centro comercial de bairro, e tinha aquela maneira de estar, branda e paciente, a sofreguidão comercial com que lhe queriam inculcar computadores, telemóveis e máquinas de café, poderia funcionar como se lhe estivessem a dar empuxões, cotoveladas, rasteiras e caneladas, a sacudi-lo, a empurrá-lo, gritando-lhe aos ouvidos, moendo-lhe a atenção.

Mas Arnaldo, como os outros frequentadores que tasquinhavam milho frito e deixavam nódoas de gordura nas camisas e nos braços das cadeiras, não era excessivamente abalizado de juízo crítico e julgava que o cinema, hoje, tinha que ser mesmo aquilo.

A fita metia Brooklin e um polícia e uns tiros e uma pistola e sangue, a água jorra em torrente de uma boca de incêndio, um homem corre, e o amigo do polícia a morrer, e uma perseguição de carro e uma bibliotecária antipática, que afinal o polícia descobre que era stripper num clube nocturno, que pertencia ao irmão dum mafioso que andava pela estrada no Texas e havia rolos secos de plantas aos revolejos no ar, e um homem vem do deserto, paisagens marcianas cheias de calhaus, e passa um jipe e dois tiros, e sangue e um motel e um homem tira uma caçadeira dum estojo, e a janela rebenta com um tiro e ...

Vem Arnaldo tristonho a pensar que já tinha visto aquele filme e que talvez não valessem a pena os oitos euros do bilhete. Afinal, na televisão havia mais variedade, e sempre podia mudar de canal quando abusavam dos reclames. Trazia ainda a zoada nos ouvidos, ratatatatá, bum, vzzooooing, pum! E misturavam-se-lhe na memória as imagens dos anúncios, as dos trailers de vários thrillers (todos americanos) e as da fita que tinha acabado de ver, um monturo amalgamado de lixos revolvidos, às cores, fermentados, exalando um cheiro gordo a óleo de frigir.

Mas então, Arnaldo sozinho a jantar, sozinho no cinema, sozinho a regressar a casa, sozinho sem mais nem menos? Mas não tinha ele sugerido a Bárbara que havia outra mulher e que se encontravam numa fase da vida em que três pessoas seriam demais, quanto mais quatro? Sem dúvida, soltara a grande frase e exibira para com Bárbara uma frieza europeia e mundana, procurando desfazer suspeitas sobre existência de ciúme.

O homem é um animal táctico, traz no sangue a capacidade de dissimulação, ainda que seja pacato de maneiras e pouco imaginoso de ânimo.

Era tudo mentira. Não havia outra mulher. Só um hábil exercício de fantasia poderia imaginar qualquer interesse erótico pelas colegas de trabalho ou pelas caixeiras das Amoreiras com quem se cruzava no dia-a-dia. Mas quem seria o fulano com quem Bárbara jantava e provavelmente iria ao cinema e ... ?

Na loja de armas, agora escurecida, atrás da rede de aço forte, negrejava uma besta sofisticada, sobre um alinhamento sinistro de facas de mato, uma delas do tamanho de um cutelo de magarefe, a proteger uma pacífica colecção de carretos de pesca. Pendurado mais acima, sobrelevava um camaroeiro, que parecia prestes a varrer e levar consigo os artefactos letais.

«Aí está. Um camaroeiro», pensou Arnaldo, «é o ideal para transportar a tartaruga. Mas no armeiro custa os olhos da cara ... Amanhã passo pela loja do chinês. Pode ser que tenham ... »

O apartamento estava silencioso quando chegou, numa paz espessa de palácio de Bela Adormecida, ala dos criados. Havia uns restos de comida na cozinha que Arnaldo, pacientemente, deitou para aquele recipiente com pedal a que nós, por inércia semântica, continuamos a chamar «caixote». A tampa fechou-se com um claque de lata e ele receou acordar Bárbara que nessa noite dormia no quarto, cabendo-lhe, portanto, a sala.

A tartaruga parecia dormir, encolhida dentro da carapaça, impondo a sua presença escura e nodosa ao rebrilho das águas do aquário. Arnaldo considerou a hipótese de esvaziar a água, levar o aquário para a rua e deixá-lo ao pé do ecoponto, mas teve pena do animal, receio do ruído, medo de ser surpreendido por um vizinho e, sobretudo, preguiça. Além disso, não se sentia disposto a grandes cargas nem se via a encalhar com uma estrutura de acrílico pelas paredes, com barulhaça, estilhaços ... Que figura!

- Compraste as luvas? - perguntou Bárbara, numa voz surpreendentemente clara para aquelas horas da noite, que o sobressaltou, como se uma intimação do Além fosse emitida pelas paredes.

- Tive uma ideia melhor! Depois digo. Até amanhã.

Era evidente que não devia insistir na história da tartaruga em frente do agente Gervásio, nem podia contar com a cooperação dele para se livrar do bicho. Sabia lá se existia uma lista de tartarugas proibidas e se aquele exemplar não tinha sido importado clandestinamente dum planalto remoto da América Central, isolado do mundo por cascatas e desfiladeiros, estuante de espécies únicas.

Demorou a adormecer. A filmalhada ruidosa, o polícia em casa da mãe, o desgosto da situação modorrenta, um ciumezinho latente que lacerava a alma com um talho subtil e que doía mesmo quando não era apercebido, repeliram-lhe o sono durante mais tempo que o costume.

Abaixo os expedientes para introduzir uma narração à conta dum adormecimento. Ponto de exclamação. O leitor é mais experimentado que eu nestes artifícios e bem sabe como o momento de adormecer é perigoso para as personagens, porque os autores costumam atormentá-las com analepses. Às vezes, basta apanharem-nas distraídas, a olhar para qualquer objecto. Um daqueles bolos a que chamam madalena, por exemplo ...

Com abuso ou não, entendo que alguma coisa deve ser contada sobre a mãe de Arnaldo, mais interessante que o remoto progenitor do rapaz, que se limitava a um telefonema anual, sonolento, ou a um postal ilustrado de Lubliana ou Pasadena, conforme as viagens, mostrando imagens dos museus locais. Tinha-se ficado por segundo-secretário na Embaixada de Estocolmo e casado por lá, com uma sueca rica. Um Natal, mandou uma fotografia: um tipo tristonho, de óculos, de anorak, junto de uma casa de madeira, numa espécie de pinhal. Arnaldo mostrou-a a Bárbara que comentou «pensava que a Suécia fosse mais bonita» e o rapaz devolveu-a à carteira junto aos cartões-de-visita e a outros papéis sem destino.

A mãe tinha-se divorciado por procuração e ficado com o apartamento da Avenida de Roma e a casa da Lagoa Moura. O pai não queria nada. Apenas que o deixassem em paz. Em paz ficou. Não sem que a mãe o responsabilizasse, junto das amigas, pelas prestações escolares modestas de Arnaldo.

Era professora de música, dava aulas de piano, tinha alguma fortuna pessoal e ia vivendo, com muito à-vontade. Não gostava de Bárbara, mais para cumprir um papel social e o estereótipo adequado do que por real antipatia, porque dificilmente tinha sentimentos tão firmes que se sustentassem além de um dia ou dois. Tratava Arnaldo carinhosamente, passava-lhe a mão pelo rosto, chamava-lhe ternamente «meu filho», «meu querido filho», mas, verdadeiramente, não queria saber dele para nada. E era com ele que exemplificava, a quem a quisesse ouvir, este fenómeno recente de os jovens burgueses das novas gerações serem menos qualificados que os seus pais. De resto, Arnaldo servia de paradigma vivo (sempre deprimente) para muitos outros efeitos.

Um dia, aconteceu o caso do polícia que calhou na sequência de um daqueles factos tão banais em Portugal que fazem com que alguns de nós, tomados de irritação pelo país, desejem, desesperadamente, passar a habitar nas profundas do Missouri, nas lonjuras de Aberdeen, nas encruzilhadas de Chisinau.

Houve uma tempestade, desvairou uma fúria de ventos para os lados de Grodemil, arrepiou e levantou as águas da Lagoa Moura, zurziu a floresta e obrigou um pinheiro a largar uma rija pernada sobre o telhado da velha-vivenda-de-passar-férias-e-trocar-de-aborrecimentos.

Nessa ocasião, ainda não se encontrava em vigor a norma legal que obriga os proprietários a eliminar a vegetação cinquenta metros em redor das casas e que vai necessariamente provocar uma absoluta desertificação do país a norte do Guadiana.

Na verdade, o nosso legislador é abstracto e geral, tão abstracto e geral que se desinteressa do que sejam dez metros, dezassete metros, quanto mais cinquenta metros. Deve ter considerado desprimoroso dar-se ao trabalho de comprar uma fita métrica dessas extensíveis que há no mercado e medir a distância no terreno. Depois desta operação simples, não seria demais sugerir que meramente circunvagasse o olhar e considerasse os resultados duma desflorestação.

Esta repugnância comichosa do legislador pelos números não é novidade. Em 1974 considerou que o direito de manifestação podia ser impedido a menos de cem metros de determinados edifícios o que tornaria praticamente impossíveis os protestos colectivos em qualquer município, a começar por Lisboa. Compreende-se que, para homens públicos cansados, depois de noites insones, em que um propunha quatro metros, outro, nenhum metro e outro, quinhentos metros, se tenha obtido uma solução que fazia a média das propostas apresentadas à mesa. Tratava-se de mostrar força, de ganhar ou perder, sem importar exactamente o quê. Se fosse uma questão de rebanhos de gabirus, ou reservas de índios, ou ilhas de coral, também se discutiriam os números até altas horas da noite, até se votar uma solução satisfatória.

Mas eram tempos em que a décima milionésima parte do quarto do meridiano terrestre não tinha qualquer importância, porque o simbólico sobrelevava as dimensões reais das existências e reduzia-as a nada. A direita tinha um pavor alucinado das manifestações de rua, antevia guilhotinas, tachankas e comboios blindados, mas o seu propósito, que não era propriamente a proibição completa do direito de manifestação nas cidades, excedeu de longe as expectativas. Imagino um governante a chegar a casa, a dizer ao mordomo (publicamente apresentado como «um primo da província, coitado, que vive cá em casa»): «Andrade, passe-me aí um uísque velho com soda que tenho de comemorar uma coisa.» E para a mulher, que acorria em roupão: «Imagine, Maria de Santa Clara, que conseguimos regulamentar o direito de manifestação, à semelhança do mundo civilizado. Não me felicita?» E, depois, «Olhe, o que é exactamente um metro?»

Mas essas épocas alucinadas passaram e não custaria a um ministro arranjar um rolo de fio (para isso é que há contínuos) e desenrolá-lo no jardim da mansão de São Bento, a partir dos degraus, até parar no primeiro muro. Aplicando-lhe depois uma fita métrica, e medindo o fio, segmento a segmento, descobriria, após um olhar cauteloso em volta: «É pá, isto ia tudo raso e nem chegámos ao muro.»

Eis uma das consequências da péssima educação que se ministra na Europa de hoje. Um metro, um palmo, quatro centímetros, é tudo a mesma coisa, como julgava aquele célebre criado do Eça, o Vitorino, a quem tanto dava um livro de Química, como uma peça de Teatro, «porque eram tudo coisas em letra redonda».

Voltando à mãe de Arnaldo e ao pinheiro derrubado: tínhamos obra em perspectiva, dinheiro mal gasto e complicações. Habituada a uma vida de confortável previsibilidade a senhora procedeu como qualquer cidadã de classe média, já de idade, dotada de racionalidade, com hábitos urbanos, e escassa frequentação da Internet: consultou a lista telefónica, nas páginas amarelas, procurou em construção civil e ligou para várias empresas. As respostas foram: «Não está cá o encarregado», «Apresente mas é o problema por escrito», «O Sr. Mendes agora não pode atender», «É tanto pela deslocação, 'tá a ver? E outro tanto pelo orçamento». Em dois casos puseram-na a ouvir música, uma vez do senhor Toy, outra do senhor Vivaldi (era uma empresa mais importante), depois dum atendimento eufórico, numa edulcorosa linha melódica: «Boa tarde, o meu nome é Sandra.»

Acabou por se conformar ao expediente portuguesíssimo de recorrer a uma amiga que pudesse conhecer alguma construtora capaz de se encarregar de obra tão bizarra e tão estranha ao seu objecto social como reparar um telhado devastado por um galho. Foi-lhe indicada a solução através de um número de telemóvel escrito num guardanapinho de papel dobrado em quatro. Era uma empresa «de confiança» que tinha até uma filial perto de Grodemil, a quinze minutos da Lagoa Moura, e que já havia feito trabalhos para familiares de amigos de conhecidos, numa complexa malha de referências e recomendações de que era difícil destrinçar as pontas.

Um fulano bem-falante deslocou-se à Lagoa Moura, observou a árvore, deu-lhe pancadinhas sábias com a esferográfica, mediu para aqui e para ali, falou abundantemente, com copiosa menção de materiais, marcas e dimensões, considerou que era tudo difícil e complicado, rascunhou notas habilidosas num grande bloco. Ficou de aparecer na casa da Avenida de Roma segunda-feira seguinte às nove («preferia às dez», «muito bem», «às dez») da manhã. Depois, nunca mais deu notícias, nem ele, nem alguém da empresa, e todos os telefonemas da mãe de Arnaldo acabavam por se eternizar até ao exaspero nos com-

passos do Bolero de Ravel.

Se a senhora não fosse uma tranquila professora de piano, possuidora de uma razoável conta bancária e recebedora duma reforma com substância, habituada a uma rotina burguesa sempre pelos melhores sítios da Avenida de Roma e Guerra Junqueiro (artérias que o autor sempre refere com enlevo e amenidade) em companhia de amigas bem instaladas que se dirigiam aos empregados antepondo «ouça uma coisa», ou tratando-os por um «você» áspero, já estaria prevenida das sofredoras contingências que moem e desesperam quem queira tratar de certos assuntos práticos em Portugal. Não ficaria admirada nem ofendida com a bizarra noção de brio profissional e prontidão por parte de tanta gente que oferece serviços e diz dedicar-se à construção. Pouco conhecia do universo dos mestres-de-obras e a revelação dalgumas subtilezas, até então insuspeitadas, da língua portuguesa, tê-Ia-iam deixado muito insegura. «Dez da manhã» a querer dizer «meio-dia», «amanhã» a querer dizer «para a semana» e «para a semana», «nunca mais», «com certeza» a querer dizer «não», «garanto» a querer dizer «nunca», «compromisso» a querer dizer «rábula» e «palavra de honra» a querer dizer «'tá bem abelha, eu bem te lixo».

Embora mais versada em sustenidos que em direito romano, um qualquer atavismo ancestral, difícil de explicar, convencia-a de que os acordos são para ser cumpridos e levava a mal - com estupefacção de boa parte dos seus concidadãos - que se faltasse à palavra dada.

Ei-Ia a caminho do Largo da Graça, no velho Mercedes que habitualmente dormitava na garagem, na disposição de obter uma explicação pessoal sobre o motivo por que uma criatura que garantira apresentar-se ali em casa, sem falta, pelas dez da manhã, não tinha, pura e simplesmente, dado novas nem mandados.

Fez uma fita de alto lá com ela e pôs todo o prédio em polvorosa, incluindo um agente transitário e uma notária, que não tinham nada a ver com o assunto. Ao sair, depois de palavras de honra de que no dia seguinte, às duas da tarde, uma carrinha da empresa pararia à sua porta para irem a Grodemil fazer o orçamento, teve uma surpresa irritante, que crispou o semblante fagueiro (equivocado, aliás) que trazia de dentro.

Do outro lado da rua, um agente da polícia compenetrava-se a passar-lhe uma multa, escrevinhando num bloco com requintes de prazer. Estava ainda a olhar para ele, estupefacta, quando o homem arrancou a folha pelo picotado e a aplicou no pára-brisas.

- Como se atreve? - perguntou - Você multou-me.

- Multei, não. Autuei!

- Com que direito?

O homem fez ressaltar o crachá, empurrando-o com o dedo indicador, foi sardónico e claro:

- República Portuguesa!

- E por que é que me multa só a mim quando há esta fila toda debaixo do sinal? Eu sou menos que os outros?

- Critérios policiais - respondeu o agente. E ia já andando.

Dá muito mau resultado provocar uma pessoa quando, depois de um tremendo aranzel que levantou ciclones e labaredas, se acabou de conformar com um apaziguamento polido e arduamente contestado. Todas as fúrias reprimidas voltam ao de cima, com renovada e redobrada intensidade, e deixou de haver pacificação possível. Para agravar, antes de se meter no carro-patrulha que o recolhia, numa retirada algo desairosa, o agente rosnou:

- Não és mais que os outros. Abusadora!

Caiu Tróia, mas não em cima do carro da polícia que se afastou a toda a velocidade.

O agente não se lembrou que tinha ao peito uma placa - que os funcionários de balcão costumam, aliás, esconder - em que vinha escarrapachado o seu nome, aliás de raro recorte alentejano, fácil de fixar e muito a propósito: G. Escarrapacha.

Dois meses depois, estava já a mãe de Arnaldo mal recordada do assunto, e da reclamação que havia apresentado na esquadra, quando recebeu um ofício do Comando Distrital de Lisboa da Polícia de Segurança Pública. Todo o cidadão, mesmo o mais frívolo, fica preocupado quando recebe um sobrescrito da Polícia, dos Tribunais ou das Finanças. Habitualmente anunciam o cabo dos trabalhos. Mas, desta vez, uma prosa tersa e despojada comunicava-lhe oficialmente que, na «sequência da reclamação de V. Ex. a» e tendo o competente procedimento seguido os seus termos, o guarda de primeira classe Gervásio Neves Escarrapacha havia sido disciplinarmente suspenso por um mês com privação de vencimento.

- Mas eu não quero nada disto! Coitado do homem.

E vá de telefonar para a polícia e ser remetida de atendimento em atendimento, que ora lhe recomendava «as vias competentes», ora lhe pedia que aguardasse um instante, com música de Chopin, ora lhe desviava a chamada para uma telefonista que escandia em voz primaveril, tão encantada como se fosse a primeira voz que ouvia nessa manhã: «Polícia de Segurança Pública, fala Vanessa Soares, tenha a bondade.»
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