Objeto do desejo e fetiche da mercadoria: a ética da psicanálise e a demanda perversa do capitalismo




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Anais do X Simpósio do Programa de Pós-graduação em Psicanálise da UERJ

Psicanálise e saúde: entre o Estado e o sujeito

ISBN: 978-85-88769-54-0


SUMÁRIO


Objeto do desejo e fetiche da mercadoria: a ética da psicanálise e a demanda perversa do capitalismo...............................................................................................................................................5

Ligia Gama e Silva Furtado de Mendonça
Intervenção psicanalítica em UTI neonatal: uma intervenção precoce?.........................................13

Alcione da Penha Vargiu Vasconcellos de Andrade
O sem sentido do sintoma e o furo no saber médico..........................................................................20

Roseane Freitas Nicolau e Aline da Costa Jerônimo
Os efeitos da ciência e do capitalismo nos sintomas da contemporaneidade..................................26

Angélica Cantarella Tironi
A concepção do sujeito fundada na categoria da identidade e suas implicações para a clínica....35

Augusta Rodrigues de Oliveira Zana
Farão tudo o que seu mestre mandar?................................................................................................44

Cintia Ribelato Longhini, Taia Franco de Albuquerque e Wael de Oliveira
Pensando as possibilidades para a psicanálise nas clínicas escolas: a transferência em questão..51

Emilie Fonteles Boesmans, Antônio Dário Lopes Júnior e Karla Patrícia Holanda Martins
Uma invenção para construir um corpo.............................................................................................58

Fabio Malcher
Psicanálise no batalhão da polícia militar: uma aposta ética no sujeito..........................................66

Fernanda Cabral Samico
A direção do tratamento na clínica com anoréxicas: a ética da psicanálise frente ao ‘risco de vida’........................................................................................................................................................73

Francisco Anderson Carvalho de Lima, Erika Silva Rocha e Emilie Fonteles Boesmans
A tragédia, o trágico e a ética da psicanálise: Édipo em colono e o desamparo.............................80

Isabela Vieira de Almeida
A psicanálise aplicada ao tratamento do autismo: a oficina de teatro como dispositivo clínico...86

Katia Alvares de Carvalho Monteiro, Martina Schneider Rodrigues e Marianna Miranda Bauerfeldt
As funções do diagnóstico na psicanálise e na psiquiatria................................................................94

Leonardo de Miranda Ferreira
A presença do analista numa enfermaria de crise psiquiátrica: uma aposta no sujeito..............100

Lorenna Figueiredo de Souza e Sonia Leite
O discurso psicanalítico e a modernidade: Foucault, leitor de Freud...........................................108

Luiz Paulo Leitão Martins
O acompanhamento terapêutico no serviço de internação psiquiátrico: a afirmação de uma prática clínica......................................................................................................................................117

Luiza Medina Tavares
A avaliação como efeito do discurso capitalista no hospital universitário....................................126

Marcus Vinícius Rezende Fagundes Neto
Inovações da interpretação psicanalítica face aos desafios de novos sintomas.............................135

Mariana Mollica da Costa Ribeiro
Incidências do discurso da ciência e do capitalista na educação: notas de uma pesquisa...........144

Marina Sodré Mendes Barros
Incidências do diagnóstico psiquiátrico no processo de análise: da foraclusão à inclusão do sujeito...................................................................................................................................................152

Raquel Coelho Briggs de Albuquerque
Políticas púbilcas na educação e o sujeito.........................................................................................161

Renata Mendes Guimarães Geoffrov
O gozo desmedido da paixão feminina: uma experiência do excesso na clínica...........................169

Isis Fraga Segal e Rita Maria Manso de Barros
O sintoma nas instituições de saúde: entre o discurso da medicina e o discurso da psicanálise.176

Roseane Freitas Nicolau, Ana Elizabeth Araújo Luna, Adalberto Jorge Ribeiro da Costa, Ingrid de Figueiredo Ventura e Oziléa Souza Costa.
Um lugar para a criança: entre a família, a lei e a ssistência........................................................183

Sônia Elisabete Altoé, Fernanda Hermínia Oliveira Souza e Tatiana Borsoi
Políticas de saúde e clínica do sujeito: um diálogo possível?..........................................................191

Taísa de Araújo Serpa
Impactos e efeitos do trabalho constante com a dor e com a morte nos profissionais de saúde em oncologia pediátrica............................................................................................................................200

Marcelia Marino Schneider Côgo
O normal e o patológico sob o olhar da psicanálise.........................................................................207

Alinne Nogueira Silva Coppus
A mulher e a demanda desmedida de beleza....................................................................................215

Maria Cristina Bion Cardoso
A Nomeação do Sexo: um sintoma entre Estado e sujeito?............................................................223

Heloisa Shimabukuro e Nelly Brito
Estado, Saúde e Psicanálise: a incorporação da psicanálise no Brasil pela via higienista...........231

Luciana Cavalcante Torquato
Amanda: traficante ou embaraçada com a feminilidade?..............................................................240

Thaís Lima Silva
O burnout do profissional de saúde na relação de trabalho contemporânea................................248

Lúcia Helena Carvalho Dos Santos Cunha
Psicanálise e capitalismo: quando o não-todo denuncia o panis et circenses.................................256

Taina Cavalcanti Rocha
O desejo e a angústia do cuidador de adolescente atendido em um ambulatório especializado: de qual ato e limite falamos?...................................................................................................................265

Wagner Hideki Laguna
Discursos da psiquiatria, do direito e da psicanálise sobre o estigma de periculosidade e o ideal securitário do louco infrator..............................................................................................................271

Ana Elizabeth Araujo Luna e Roseane Freitas Nicolau
Inspirações possíveis para uma direção de tratamento psicanalítico da psicose: uma “Prática entre Vários Generalizada”...............................................................................................................280

Fernanda Mara da Silva Lima
O excesso nos primeiros escritos freudianos....................................................................................286

Mariana Barreiros Meliande, Ricardo Defranco Lobato da Fonseca, Vladimir Porfirio Bezerra e Marcia Defelippe Durso
A clínica das toxicomanias e a construção dotratamento..............................................................293

Leticia Amadeu Gonçalves e Silva
Adolescência e ética: articulações sobre a pertinência do psicanalista na instituição..................301

Aline Lima Tavares e Sonia Alberti
Psicanálise e clínica ampliada: o discurso psicanalítico na instituição hospitalar........................309

Gardênia Holanda Marques e Karla Patricia Holanda Martins
Psicanálise e saúde: sobre a invenção...............................................................................................316

Ana Claudia Marinho Soares
Algumas considerações sobre o diagnóstico na psicanálise e na psiquiatria.................................324

Deborah Lima Klajnman
O trabalho da psicose: o sujeito entre a clínica e a política ...........................................................331

Claudia Maria Tavares Saldanha e Andréa Hortélio Fernandes
A rede de saúde mental: articulações possíveis a partir da clínica da recepção...........................339

Renata de Oliveira Fidelis
As insígnias do universo feminino: construindo laços.....................................................................347

Jacqueline de Andrade Loeser dos Santos
A clínica da compulsão e dos excessos:uma discussão das perspectivas médica e psicanalítica.354

Érika Teles Dauer e Karla Patrícia Holanda Martins
Algumas questões sobre o transexualismo........................................................................................363

Barbara Zenicola
O diagnóstico do abuso sexual de crianças e adolescentes: do âmbito jurídico à psicanálise.....370

Roseane Freitas Nicolau e Oziléa Souza Costa
Acerca das evidências e da eficácia na psicanálise com idosos.......................................................377

Glória Castilho e Giselle Falbo
O Real insiste onde o estado fracassa................................................................................................385

Mignon Pereira Lins
O que se faz na rua?...........................................................................................................................393

Milton Nuevo de Campos Neto e Raonna Caroline Ronchi Martins
A clínica e a pesquisa psicanalítica e o campo da saúde do trabalhador.......................................402

Elaine Cristina Schmitt Ragnini e Vinicius Anciães Darriba
O prognóstico do espectro do autismo em seu início.......................................................................409

Evacyra Viana Peixoto e Rita Maria Manso de Barros
A ex-sistência do sobrenome paterno: o mistério de maria............................................................418

Antônio Carlos Félix das Neves

OBJETO DO DESEJO E FETICHE DA MERCADORIA: a ética da psicanálise e a demanda perversa do capitalismo


Ligia Gama e Silva Furtado de Mendonça

Psicanalista. Doutoranda e mestre em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ. Professora substituta da UERJ.

Email: ligia.mendonca@gmail.com

RESUMO
Esse trabalho propõe-se a investigara ética da psicanálise e sua relação com a perversão, além de abordar as semelhanças entre perversão e o discurso capitalista. Essa questão nos implica uma vez que constatamos na cultura e na clínica práticas que sobrepõem à ética e cerceiam a atuação psicanalítica. A ética se aproxima da perversão uma vez em que ambas se distanciam de uma moral universal, no entanto, a busca incessante por gozos une o perverso ao capitalista. Basearemo-nos, sobretudo, em Lacan, no seu seminário sobre ética (1959-1960/2008) e nos seu escrito sobre Kant e Sade (1966/1998).
Palavras-chave: perversão, ética, capitalismo.

RÉSUMÉ
Cet article se propose d'enquêter sur l'éthique de la psychanalyse et sa relation avec la perversion, en plus d'aborder les similitudes entre la perversion et le discours capitaliste. Cette question nous implique une fois que nous remarquons des pratiques dansla culture et dans la clinique qui se chevauchent à l'éthique et limite la pratique psychanalytique. L’éthiques’approche de la perversion car tous les deux se distancient d’une morale universelle, cependant, la jouissancejoint le pervers au capitaliste. Notre recherche est surtout dans la théorie de Lacan, specialément dans son séminaire sur l'éthique (1959-1960/2008) et dans son écrit sur Kant et Sade (1966/1998).
Mots-clés: perversion, éthique, capitalisme.

Esse trabalho propõe-se a investigar, visto a pertinência do tema deste Simpósio que convida-nos a interrogar e evidenciar o papel da psicanálise entre o sujeito e o Estado, a ética da psicanálise e sua relação com a perversão. Essa questão nos implica uma vez que constatamos na cultura e na clínica práticas que sobrepõem à ética e cerceiam a atuação psicanalítica, como podemos exemplificar através da recente campanha ocorrida na França para proibir as equipes de saúde em utilizar a psicanálise como abordagem para casos de autismo. É pela perversão que discutiremos a dimensão ética e seu distanciamento da moral, além de abordarmos sua afinidade com o discurso capitalista.

Devemos, no entanto, atentar para não confundirmos perversão com perversidade, nem moral com ética. A perversidade é facilmente percebida através da violência alastrada em nossos dias, nas condutas desviantes e antissociais que vão contra as leis morais, impossibilitando a construção de laços sociais. A História nos fornece diversos exemplos, como a criação nazista das câmaras de gás, as bombas de nitrogênio, os muros de Berlim, na atual Israel e na fronteira entre EUA e México; não é outro o cenário que temos visto e ouvido. Com Freud percebemos que esses atos classificados como perversos não predizem a estrutura do sujeito. A ressalva é importante uma vez que a estrutura perversa diz respeito à subjetivação resultante da negação (Verleugnung) da castração na dialética edipiana.

O diagnóstico diferencial estrutural é feito por meio de três modos de negação do Édipo - negação da castração do Outro - correspondentes às três estruturas clínicas. No caso do neurótico, nega-se o material, mas conserva-o no inconsciente, onde ele se manifesta através do recalque (Verdrängung). Na psicose, seu modo de negação - a foraclusão, rejeição (Verwerfung) - não deixa traço ou vestígio; a resolução é mais definitiva, pois o sujeito se livra do material, descartando-o. Já o perverso nega (Verleugnung) o material conservando-o no fetiche. É como se o sujeito soubesse da existência daquilo que ele recusa, porém persiste em negar a sua presença. Com isso, percebe-se que a Verleugnung é uma contradição: é um movimento no qual saber e negar este saber coexistem juntamente. Isso é bem salientado no texto de Freud Fetichismo (1927/2007), onde fica explícito que o fetichista tem um saber sobre a castração, o que não o impede de gozar como se não soubesse. O fetiche, paradoxalmente, atua como um triunfo sobre a ameaça de castração e também é um símbolo que relembra a todo instante, justamente, a castração.Há um compromisso intermediário entre desmenti-la e reconhecê-la.

A perversão-polimorfa pertence a outro terreno, distinto da perversão estrutural e da perversidade, mas também interligado a elas. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/2006), Freud entende a perversão como um desvio de uma função normal, especialmente no tocante à esfera sexual, para assim introduz o conceito de pulsão. Ele demarca outros contornos para as questões que cercam a diferenciação entre normal e patológico, pois a noção de pulsão, ao contrário do instinto, desconstrói a possibilidade de uma versão ‘natural’ do desejo. Deste modo, perversão, desvio, transgressão e aberração são facetas da sexualidade humana.

Precisamos distinguir também moral de ética. A moral trata das coisas práticas e a ética debruça-se sobre o comportamento moral, fazendo dele seu objeto de estudo. A moral está vinculada às normas de conduta que os homens desenvolvem para viver em sociedade, enquanto a “ética é teoria, investigação ou explicação de um tipo de experiência humana ou forma de comportamento dos homens, o da moral, considerado porém na sua totalidade, diversidade e variedade” (VÁSQUEZ, 1999, p. 21). A moral sustenta a prática, a ética constrói uma teoria sobre a prática.

Aqui interessa-nos pensar a perversão através da ética, pois assim atrelamos o saber clínico ao social. Ao abordar o campo da ética, Lacan assimila tópicos tradicionalmente relacionados a este assunto, tais como o Bem, o Belo, a morte, o prazer, a felicidade. Inspira-se na filosofia grega clássica em que a ética refere-se a uma boa maneira de ser ou de se conduzir na vida. No entanto, como bem diz o título do seu sétimo seminário, a reflexão lacaniana sobre a noção ética é fundamentada com rigor no pensamento psicanalítico, o que implica precisamente na dimensão do desejo. Pode-se afirmar que a ética da psicanálise está centrada no desejo e, por conseguinte, se afasta dos imperativos do supereu e dos ideais sociais, sem os desprezar. Ela, ao contrário da moral, não está articulada ao Bem supremo: a ética psicanalítica tem como horizonte o real, enquanto a moral tenta recobrir a impossibilidade do real através de regras e proibições, e é por isso que “a dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo” (LACAN, 1959-1960/2008, p. 274). Afinal, o que é fazer o bem para o outro ou para si mesmo?

Por menos que Freud tenha se aprofundado na questão ética em si, seus comentários feitos a respeito da alegoria schopenhaueriana dos “porcos-espinhos no frio” e da afirmação de Plauto (retomada por Hobbes) de que “o homem é o lobo do homem” (1930/1976) demonstram que o tema sempre esteve presente em seu pensamento. Mais especificamente, Freud abre uma via (“lá onde isso estava, o eu [sujeito] deve advir”1) que enfatiza a função fecunda do desejo no direcionamento da ação humana que, por sua vez, está no centro da discussão ética. Desta maneira, entende-se a posição lacaniana (1959-1960/2008) em defender que a psicanálise não é um idealismo, muito menos uma ética do Bem Supremo.

Ao destacar o posicionamento ético de Freud quanto ao alcance e limites da psicanálise e à posição do analista, Lacan(1966/1998) discutirá questões referentes à ética da psicanálise como sendo do alcance da própria teoria que embasa o trabalho dos psicanalistas. A ética é da psicanálise e não de cada um dos que a exercem.

Circunscreveremos a discussão lacaniana sobre ética através da relação do perverso com a lei a partir dos textos contemporâneos de Kant(1788) e Sade (1795). Com os ensinamentos de Lacan acerca da diferenciação entre ética e moral (1959-1960), pensamos, à primeira vista, que Kant e Sade se posicionam de maneira oposta no que concerne à lei moral. No entanto, suas obras são compatíveis e até mesmo se completam. Lacan (1966/1998) chega a afirmar que A filosofia na alcova (1795/2008)fornece a verdade da Crítica da razão prática (1788). O denominador comum destes dois textos é a ética, mas Kant defende o bem enquanto lei da natureza e Sade, o mal. Através de sua obra, Kant aspira a uma lei moral universalizante, pois se não fosse assim, a lei seria fornecida pela natureza e o homem seria nada mais que o resultado de suas circunstâncias; uma vontade livre sem sentido. Como aponta Martinho (2011), para Kant não há liberdade quando somos guiados pelo bem-estar, quando a lei está submetida à vontade, mas quando o sujeito pode determinar de forma autônoma um objeto à vontade através da universalidade da razão. A lei moral regula a conduta racional do homem, agindo nele como uma ‘voz interior’. Há aqui a conformação da vontade à lei, que proporcionaria um gozo para além do prazer, sendo puramente moral.

Assim como Kant, Sade tem aspirações universais que visam à purificação da vontade, liberando-a de todo conteúdo empírico e patológico, como o direito de gozar do corpo do outro. E ele fundamenta seu princípio justamente nos Direitos dos Homens, como afirma Lacan (1966/1998, p. 782): “É pelo fato de que nenhum homem pode ser de outro homem propriedade, nem de algum modo seu apanágio, que não se pode disso fazer um pretexto para suspender o direito de todos de usufruírem dele, cada qual a seu gosto”. Portanto, é o Outro como livre que o discurso do direito ao gozo instaura como sujeito de sua enunciação. Nesse plano, coloca-se o desejo como vontade de gozo.

Podemos perceber que Kant e Sade acordam quanto ir além do bem-estar. Lacan vai adiante ao afirmar que o segundo completa o primeiro, pois Sade revela o objeto a – voz (enquanto mandato do supereu) – que está oculto em Kant, sendo assim mais honesto que o filósofo alemão. A ‘voz interior’ que guiaria as ações humanas demonstra bem a ideia de Kant quanto ao desejo e a lei: há desejo, e por isso há a lei para limitá-lo,uma ‘voz interior’que impediriaceder a seus desejos. Lacan, por outro lado, recusa inteiramente esta posição, pois se a aceitamos, estamos comungando com uma teoria do desejo naturalista: “a lei e o desejo recalcado são uma única e mesma coisa” (LACAN, 1966/1998, p. 794). Sendo assim, compreende-se que o desejo não é naturalista como aponta a concepção kantiana, mas um efeito da palavra no campo da linguagem, do Outro, o que nos permite entender que a dimensão moral se enraíza no próprio desejo. No caso de Sade, ele só transgride a lei porque, de alguma forma, está atrelado à ela.



Marquês de Sade, fonte de inspiração para o termo sadismo, trouxe à luz a violência do erotismo que a cultura sempre tentou ocultar. Para ele, se a natureza era o verdadeiro fundamento, não cabia aos homens reprimirem seu próprio lado destrutivo natural; seria a civilização e suas leis morais que desumanizariam o homem. Com que direito deve-se reprimir aquele que só sente prazer infligindo dor aos outros, se tal prazer é ditado pela própria natureza, a qual, em verdade, está acima dos homens?

Poderia-se dizer que, para Sade, dar vazão às pulsões seria a sua ética e o gozo seria a sua finalidade. Ética esta que estaria acima das meras convenções humanas de bem e mal, certo e errado. Ele justifica ponto por ponto a demolição dos imperativos fundamentais da lei moral, e preconiza o incesto, o adultério, o roubo, e assim por diante. Se em Kant, a lei impera, mas não é sem gozo, para Sade é o gozo que o rege, mas não sem lei; é um tratado da moral às avessas. O perverso está no campo da Lei (castração do Outro), este responsável por fundar o desejo. No entanto, o desejo, tanto quanto a Lei, forma uma barreira em relação ao gozo, e este último, por sua vez, é essencial ao perverso para tapar o furo do Outro, a castração, que ele insiste em desmentir.

Por essa e outras que Lacan considera A filosofia na alcova (1795/2008) um tratado da moral, e não do desejo, assim como a Crítica da razão prática (1788) de Kant. No entanto, Kant acredita que somente uma lei moral absoluta poderia impedir o homem de ir aos extremos, enquanto Sade demonstra que não é uma lei moralizante que barra o sujeito.

Desta forma, ratificamos que não podemos colocar na conta da perversão estrutural as condutas desviantes, que desafiam a lei, e muito menos aquelas que sobrepõem à ética. Pelo contrário, a perversão, como nos demonstrou Lacan, pode elucidar os contornos éticos, afastando-os de uma moral normalizante. Todavia, as condutas sociais que percebemos hoje, atreladas ao capitalismo, podem ser aproximadas da perversão no que tange ao gozo.

Lacan respondeu aos acontecimentos que balançaram a cultura ocidental em 1968 com sua conhecida teoria dos quatro discursos de 1969. Segundo Braunstein (2010, p. 143), “essa concepção articulava a compreensão da subjetividade, tal como aparece na clínica psicanalítica e nos processos históricos”. O discurso assumea definição de ‘laço social’ e admite quatro, apenas quatro, formas (do mestre, do universitário, do analista e da histérica), sendo a primeira, o discurso do mestre, sua fórmula matriz.

Lacan (1969-1970/2007) em seu décimo sétimo seminário afirma que o discurso do mestre desenvolvido plenamente demonstra sua clave no discurso do capitalista. Lacan frisa que não se trata de um novo discurso, mas um pequeno giro do discurso do mestre. Braunstein (2010, p. 148) demarca a distinção do mestre antigo, “que promovia a formação de indivíduos juridicamente regulados em sua relação com o Soberano, súditos obedientes dotados de direitos e deveres”, e o mestre moderno “que incita a satisfação direta de aspirações e demandas, roçando e perfurando as linhas de fronteira (borderlines) da lei”. Se um mestre era o da repressão, o outro, o do discurso capitalista, comanda o gozo. Assim, todo discurso que se aparenta com o do capitalismo “deixa de lado isso que de maneira simples chamaremos coisas do amor” (LACAN, 1972 apud BRAUNSTEIN, 2010, p. 149).

Desta forma, próximo ao capitalista que busca desenfreadamente um gozo ‘roçando e perfurando a lei’ e que deixa de fora de seu discurso as ‘coisas de amor’, localizamos o perverso que, fixado no pólo pulsional da fantasia, do gozo, do objeto a, elide o pólo do amor, do inconsciente, do $. Coutinho Jorge (2006) fundamenta justamente a fantasia como a articulação entre o inconsciente ($) e a pulsão (objeto a), entre o simbólico e o real. Situa, ainda, no primeiro pólo, o amor, e do outro lado, o gozo. Para o perverso, o gozo fica como uma defesa em relação ao vínculo amoroso, pois este alude a certa castração do gozo.

Em busca por gozos sem fim, tanto a perversão quanto o capitalismo abolem a diferença, o desejo do Outro, indo justamente contra a psicanálise e o discurso do analista, que visam a singularidade irredutível do sujeito, S1,aquilo pelo qual ele é como é e, por isso, não é como ninguém. Esse objetivo só é possível sustentado por uma ética, ética da psicanálise, ética do desejo, demonstrado aqui através da relação do perverso com a lei. Não estamos indo contra a singularidade e o desejo, ou seja, não estamos indo na contramão da direção ética quando um governo proíbe uma forma de tratamento para um sujeito autista, mesmo esta sendo aquela que o familiar gostaria? No capitalismo, percebemos a fetichização da mercadoria, já apontada por Marx (1867),quando a matéria bruta da coisa (valor de uso) passa para o sistema de intercâmbio (valor de troca), e se envolve de características que não são delas (visíveis e inapreensíveis), servindo, assim, aos caprichos do capitalismo. A selvageria do capitalismo não revestiria então uma relação social entre homens com suas respectivas singularidades em uma relação entre coisas? O fetichismo aqui representa a ruptura entre a utilidade e o valor, fazendo com que as mercadorias, como os fetiches, pareçam possuir sua própria energia, elevando um objeto comum a um outro estatuto. Como se só gozaríamos com determinado objeto, seja ele um item de consumo ou um símbolo imaginarizado que tampone a castração; qualquer coisa que sirva para proteger-se contra a angústia. Abre-se, então, espaço para se pensar na forma fetichizante entre capital e dinheiro, através da ganância, dos mecanismos de interesse e da renda.

Desta forma, esperamos ter suscitado questões que ajudem na reflexão das práticas atuais e que consigamos, com ética, sustentar o lugar da psicanálise frente aos desafios que nos cercam.

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