As serpentes que roubaram a noite




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As serpentes que roubaram a noite
Fazia pouco tempo que o mundo era mundo e que as garras da onça ainda não haviam crescido e já reinava a insatisfação. E isso porque a noite nunca chegava – ela, que iria permitir que pessoas e animais repousassem um pouco.

O sol brilhava sem parar nos céus e nenhum daqueles infelizes conseguia sequer tirar uma pequena soneca! Os raios ardentes do sol queimavam tanto e durante tanto tempo que todos preferiam levantar. Apenas o papagaio continuava a protestar, mas tão alto, que toda a floresta o ouvia, porém o sol pouco se importava com toda aquela gritaria e seguia brilhando tão alegremente como antes.

Após um certo tempo, o papagaio ficou rouco, e os outros seres arrastavam-se como sombras. No leito dos rios quase não se via uma gota d’água a correr. Felizmente, um belo dia, os índios descobriram quem havia escondido a noite: as serpentes!

Então, os líderes da aldeia organizaram uma reunião para indicar aquele que deveria ir falar com as serpentes para que elas libertassem a noite. A escolha caiu sobre o jovem Karu Bempô, por ser guerreiro valente e excelente corredor. Karu Bempô foi falar com Surucucu, a grande chefe das serpentes.

A morada de Surucucu ficava escondida no fundo da floresta virgem, embaixo das folhas espalhadas pelo chão, e nem os macacos gostavam de se aproximar daquele lugar misterioso.

— Quem se atreve a me incomodar? — gritou a serpente, erguendo a cabeça.

— Sou eu, Karu Bempô, o grande guerreiro – respondeu. Dizem que as serpentes esconderam a noite. Se me devolverem a noite, darei arco e flechas como presente do meu povo.

— De que me serviriam o arco e as flechas? — riu Surucucu. — Não tenho mãos para manejá-los. Meu rapaz, tens de me trazer outra coisa.

Após dizer essas palavras, ela deslizou por entre as folhas e desapareceu, e Karu Bempô se viu sozinho.

Voltou à aldeia de mãos vazias, e todos ficavam quebrando a cabeça para descobrir o que dar à serpente.

Finalmente, depois de muito pensarem, imaginaram que uma matraca contentaria a serpente, pois é um objeto que agrada a todos, e nenhum animal possui um objeto desses.

Fizeram então uma matraca, cujo som era ouvido para além das planícies e das montanhas. E Karu Bempô pôs-se novamente a caminho.

Dessa vez, Surucucu estava esperando-o.

— Sei que me trazes uma matraca — disse ela. — Evidentemente, não é coisa que se despreze, mas como vou usá-la? Não tenho nem mãos nem pés...

— Vou prendê-la em tua cauda — disse Karu Bempô, e imediatamente pôs mão à obra.

Mas que aconteceu? Ou a matraca tinha perdido a voz ou a cauda da serpente não era suficientemente forte para balançá-la. Quando ela tentou chacoalhar sozinha, ouviu-se apenas um ch-ch-ch-ch parecido com o ruído que as folhas secas fazem quando se espalham pelo chão.

— Não, isso eu não quero. Mas, para que não digam que sou insensível, te darei uma breve noite — declarou afinal a serpente. Deslizou para dentro do ninho e retornou trazendo um saquinho de couro, que entregou a Karu Bempô.

— Deves saber que uma noite longa custa muito caro: nem por dez matracas eu poderia te dar uma — disse a serpente.

— Nesse caso, o que queres em troca? — Conversei com as outras serpentes a esse respeito e decidimos que trocaremos uma noite longa por uma jarra cheia daquele veneno que teu povo coloca nas flechas.

— Mas que ireis fazer com esse veneno? — recomeçou Karu Bempô.

Sua pergunta não recebeu resposta. Surucucu deslizou sob as folhas. A matraca presa à cauda fez-se ouvir por um momento, e depois a serpente desapareceu.

Caminhando lentamente, Karu Bempô retornou à aldeia com o saquinho de couro. Tinha esperança de que a noite curta seria suficiente para todos, mas em seu espírito permanecia o receio de um novo encontro com a serpente.

Assim que os índios abriram o saquinho, o mundo foi invadido pelas trevas e todos caíram num sono profundo, mas não por muito tempo. Passados alguns instantes, o sol voltou a brilhar, expulsou a escuridão para trás das montanhas e despertou sem piedade os adormecidos.

Todo dia acontecia a mesma coisa, e logo ocorreu aquilo que Karu Bempô temia: perceberam que uma noite tão curta não bastava para descansar e todos começaram a juntar veneno — às vezes uma gota — para encher a jarra.

O jovem retornou à floresta pela terceira vez. Dessa vez caminhava com cuidado, pois tinha receio de tropeçar e deixar cair a jarra.

Surucucu estava enfiada em seu ninho, e via-se apenas sua cabeça. Ao lado dela havia um enorme saco, bem cheio.

— Eu sabia que voltarias — disse ela ao recém-chegado.

— Vê, preparei um saco que contém uma noite longa.

Karu Bempô entregou-lhe a jarra e perguntou, curioso:

— Escuta, por que as serpentes precisam de veneno?

— Porque somos pequenas e fracas — respondeu Surucucu — e precisamos ter presas venenosas para nos defender... mas não tenhas medo: darei a cada serpente apenas uma pequena quantidade de veneno, a fim de que não possamos realmente fazer mal a ninguém...

— Mas é que... — estranhou o guerreiro, preocupado.

— Bem, já está com o saco. Deves levá-lo para a tua aldeia e só abri-lo quando chegares lá. Se soltares a noite cedo demais, a escuridão vai impedir-me de distribuir o veneno a cada serpente como pretendo, e as conseqüências recairiam sobre todo o mundo...

Com essas palavras, ela se despediu e, sem tardar, convocou todo o povo das serpentes e começou a distribuir o veneno.

Surucucu foi a primeira a se servir...

Karu Bempô voltou para a aldeia, carregando a bolsa com todo o cuidado. Pensava no que a serpente havia lhe dito e por isso não percebeu que o papagaio, excitadíssimo, voava acima dele, gritando:

Venham ver, ele está trazendo a noite, Karu Bempô está trazendo a noite longa!

Evidentemente, todos os que lá estavam podiam vê-lo com os próprios olhos. Os macacos, loucos de alegria, saltavam no topo das árvores; o jacaré fazia ondas com o pouco de água que ainda restava.

A onça, impaciente, arranhou-se.

Solta a noite agora mesmo, o que estás esperando? — gritou ela, atirando-se sobre Karu Bempô.

Antes que Karu entendesse o que estava acontecendo, a onça arrancou a bolsa de suas mãos e abriu-a.

Uma densa escuridão caiu sobre a selva, surpreendendo a todos. Animais

e pessoas procuravam caminhos para voltar a suas casas e esbarravam uns com os outros. Mas o pior foi o que aconteceu com as serpentes da chefe Surucucu: elas se atiraram sobre a jarra, empurrando-as umas às outras, e cada uma passou nas presas tanto veneno quanto podia. Em vão Surucucu tentava acalmá-las, dizendo que havia veneno suficiente para todas. Por fim, acabaram derrubando a jarra.

Mas quando, ao final de uma longa noite, voltou o dia, todos puderam perceber as conseqüências do que a onça havia feito: as serpentes tinham se tornado inimigas poderosas e audaciosas que, com suas presas envenenadas, matavam todos aqueles que se aproximavam. Apenas o povo das Jibóias não foi atingido, e sempre avisava os índios com sua matraca.

Depois desse episódio, as serpente nunca mais foram amigas — cada uma procura viver sua vida sem se preocupar com a dos outros.

Os Munduruku e os animais adoraram ter conseguido a noite de volta. Assim, podem descansar durante a noite para iniciar um novo dia mais dispostos e alegres.


Daniel Munduruku


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