Anexo 3 Entrevista concedida em 27 de outubro de 2001 por Ana Cristina Coutinho Viegas




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ANEXO 3
Entrevista concedida em 27 de outubro de 2001 por

Ana Cristina Coutinho Viegas,

Prof.ª de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do Colégio Pedro II,

Doutora em Teoria Literária pela UFRJ.



  1. A adoção de clássicos literários na escola contribui para a formação de leitores?

Certamente. Não só para a formação do leitor em sentido restrito, mas também para sua formação como ser humano e cidadão. O problema não está nos livros, mas na falta de condições para que os professores possam orientar essa leitura.

  1. Os nossos adolescentes estão preparados ou interessados em livros sofisticados e escritos para adultos que viveram no século XIX?

Os poucos adolescentes que demonstram interesse pelos clássicos são justamente aqueles que já desenvolveram o gosto pela leitura de modo geral.

  1. Os alunos consideram os textos originais “difíceis”, “complicados” ou longos demais?

Sentem dificuldade no vocabulário e muitos acham os livros longos demais.

  1. Os nossos professores de Português ou Literatura têm tempo hábil para realmente trabalhar os clássicos em sala de aula, baseando-se nas edições “com texto integral”?

Não. No Colégio Pedro II, onde trabalho, o mesmo professor fica encarregado das duas disciplinas (Português e Literatura), o que torna a situação ainda mais complicada. Além do tempo, enfrentamos o problema do grande número de alunos por turma.

  1. A adoção de clássicos nacionais adaptados pode ser uma alternativa legítima?

Não aposto nessa alternativa. Temos que tentar melhorar as condições de trabalho para que realmente a escola ajude a formar leitores. Existem coleções para o Ensino Fundamental em que os escritores criam novas narrativas a partir de personagens de clássicos nacionais como aquela da Ática, que tem o nome de “Descobrindo os clássicos”. Neste caso, temos um recurso legítimo para atrair a atenção do aluno para o texto clássico. Alguns ficam curiosos para ler a história que originou aquela que foi adotada pelo professor.

  1. Por que se aceita tão bem a adaptação de clássicos estrangeiros (Moby Dick, Frankenstein, O corcunda de Notre-Dame etc.) e, ao mesmo tempo, há tanta resistência contra as adaptações de obras nacionais?

Talvez porque não são originalmente escritos em português. Além disso, o compromisso de nossa escola é, particularmente, com a literatura brasileira, entendida como patrimônio nacional.

  1. Que vantagens ou desvantagens o professor percebe na adoção de adaptações de clássicos?

A desvantagem é que o aluno, ao ler uma adaptação, não está tendo contato com o texto; portanto, não está ocorrendo um trabalho efetivo para a formação de um leitor de clássicos. A vantagem é que ele adquire noções do que representam aqueles heróis que são freqüentemente retomados em outras obras. Isto ajuda a compreensão dessas outras obras.

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ANEXO 4
Entrevista concedida em 5 de novembro de 2001 por

Maria Lília Simões de Oliveira,

Mestre em Língua Portuguesa (UERJ),



Professora da PUC-Rio e do Colégio Pedro II.



  1. A adoção de clássicos literários na escola contribui para a formação de leitores?

Sim. Os leitores devem estar expostos a todo tipo de texto. É na Escola que a maioria dos leitores em formação terá sua única chance de entrar em contato com a literatura clássica – parte da memória do “bom” leitor. O professor deve, portanto, intercalar nas atividades de leitura textos variados, desde o puramente informativo até o mais poético.


  1. Os nossos adolescentes estão preparados ou interessados em livros sofisticados e escritos para adultos que viveram no século XIX?

Nossos adolescentes estão, como qualquer outro, interessados em fatos e acontecimentos que lhes despertem a atenção, que lhes motivem. Se o professor souber “apresentar” as obras clássicas, não haverá problemas. Devemos estimular os novos leitores para as descobertas que podem ser feitas nos “livros sofisticados, escritos por adultos que viveram no século XIX”. Dirigir o olhar para o passado é necessário para que se possa compreender o presente. Isto deve ser negociado com nossos alunos. Nós somos o hoje e o ontem. Talvez esse conteúdo histórico-memorialista seja muito atraente para que se possa traçar a trajetória da humanidade. A literatura muito colabora para isto, com certeza.


  1. Os alunos consideram os textos originais “difíceis”, “complicados” ou longos demais?

Sim. O mundo está muito “acelerado”, as pessoas têm pressa, não querem perder tempo. A explosão da imagem também contribui para esta leitura “descartável”. Volto a centrar no professor – já tão sobrecarregado, eu sei – a responsabilidade de tentar reverter essa situação. É preciso que nós também desarmemos nossos aceleradores, pisemos no freio e tenhamos paciência para ajudar o aluno a desenvolver uma competência de leitura mais “paciente, aristocrática”. Se não o fizermos, quem o fará? É preciso ensinar o menino a ter atenção para poder enxergar a beleza do mundo, que tanto pode estar na história em quadrinho quanto nas páginas dos romances escritos por nossos antepassados.



  1. Os nossos professores de Português ou Literatura têm tempo hábil para realmente trabalhar os clássicos em sala de aula, baseando-se nas edições “com texto integral”?

Esta é uma dificuldade real. O professor é enredado pela aceleração mundial, pelos modismos e acaba por reforçar o discurso recorrente “não tenho tempo...”. Porém, se houver realmente o desejo e a convicção de se trabalhar com esse tipo de texto, o tempo aparece. Em vez de trabalhar com dois, três ou mais títulos, ele pode se debruçar com mais vagar sobre o texto clássico integral — lendo com o aluno, seduzindo esse leitor iniciante, desvelando, junto com a turma, as belezas da obra. Como disse, é preciso diversificar. Se em um bimestre o trabalho priorizou os textos mais “fáceis”, podemos persuadir nosso aluno da necessidade de em outro momento conhecer também um outro tipo de literatura.



  1. A adoção de clássicos nacionais adaptados pode ser uma alternativa legítima?

Qualquer alternativa de leitura é legítima. O ideal seria, no entanto, que seduzíssemos os leitores para os textos clássicos nacionais, na íntegra, uma vez que as narrativas estão cifradas em língua materna onde está engendrada a cultura de nosso povo. “Facilitar” demais, reduzindo e simplificando a obra pode ser desastroso na medida em que muito se perde nas adaptações. Entendo que a leitura de adaptações dos textos estrangeiros é menos perniciosa do que a de textos nacionais, posto que aqueles já passam por uma “transformação” no processo de tradução. Por outro lado, pode ser também a única oportunidade de o indivíduo entrar em contato com algumas personagens, com certas tramas. Portanto, é preferível ler as adaptações dos clássicos a não lê-los jamais.



  1. Por que se aceita tão bem a adaptação de clássicos estrangeiros (Moby Dick, Frankenstein, O corcunda de Notre-Dame etc.) e, ao mesmo tempo, há tanta resistência contra as adaptações de obras nacionais?

Acho que me antecipei e respondi no item 5. A questão é de linguagem. Se a tradução já é outro texto... isto autoriza a versão, a adaptação... Ler Romeu e Julieta, por exemplo, no original é façanha para poucos brasileiros; todavia, com as diferentes reescrituras e com auxílio das múltiplas linguagens (filmes, quadrinho, desenhos...) o texto inglês é bastante conhecido e já faz parte do imaginário de muitos leitores brasileiros, embora estes não tenham se apossado plenamente do universo do original. Os textos nacionais podem ser fruídos na íntegra por nosso aluno (falante da língua portuguesa), pois é capaz de entender as metáforas, as expressões idiomáticas; enfim, as “armadilhas” para “forasteiros”. O segredo é intuir o momento oportuno de apresentar nosso leitor em formação ao texto clássico, que tanto o atemoriza.



  1. Que vantagens ou desvantagens o professor percebe na adoção de adaptações de clássicos?

Vantagens: todas trazidas pela leitura de forma geral, ou seja, maior interlocução com diferentes culturas e épocas, aumento da competência interpretativa / discursiva do leitor... quem sabe provocar um desejo de ler o texto integral / original.

Desvantagens: dificuldades de encontrar boas adaptações. Ao desvelar o “mistério” de alguns textos, corremos o risco de ver nosso leitor satisfeito com a pequena “amostra” que lhe oferecemos e, por isso, jamais ter o desejo de procurar o integral /original.

Para finalizar, penso ser melhor pecar por excesso do que por omissão. Então, vamos aos clássicos! Se pudermos ir aos textos originais, integrais, ótimo. Caso contrário, é melhor apresentar versões, adaptações... porque de qualquer modo sempre será melhor este contato “superficial” com textos canônicos do que passar o resto da vida lendo apenas a literatura facilitadora, redutora, tão divulgada por editores nas feiras de livros e nos catálogos.

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ANEXO 5
Aventuras de Hans Staden ― o homem que naufragou nas costas do Brasil em 1553 e esteve oito meses prisioneiro dos índios tupinambás; narradas por dona Benta aos seus netos Narizinho e Pedrinho:
I - Quem era Hans Staden
Dona Benta sentou-se na sua velha cadeirinha de pernas serradas e principiou:

― Hans Staden era um moço natural de Homberg, pequena cidade do Estado de Hesse, na Alemanha.

― De S ?! ― exclamou Pedrinho, dando uma risada. ― Que engraçado!

― Não atrapalhe ― disse Narizinho. ― Assim como em S. Paulo há a Freguesia de Nossa Senhora do Ó, bem pode haver o Estado de S na Alemanha. Em que o O é melhor que o S?

― Não digam tolices ― interrompeu dona Benta. Esse estado da Alemanha escreve-se em português H E S S E, diz-se Hessen em alemão. Nada tem a ver com a letra S.

Depois desta lição, dona Benta continuou:

― O moço Staden tinha o temperamento aventureiro; não se contentava com o sossego da cidade natal. Queria ver o mundo, viajar, cortar os mares, e insistia nisso por mais que seu pai lhe dissesse que boa romaria faz quem em casa fica em paz. Um dia resolveu sair de Homberg.

― “Adeus, meu pai! Não nasci para árvore. Quero voar, conhecer o mundo. Adeus!”

― “Pois vai, meu filho. Todos nós temos um destino na vida; se o teu é viajar, que se cumpra.”

Hans partiu para a cidade de Brenen e de lá para a Holanda, onde, no porto de Campon, encontrou várias naus que se aprestavam com destino ao reino de Portugal. O moço embarcou em uma delas e chegou a Setúbal depois de quatro semanas de travessia.

― Quatro semanas! ― exclamou Pedrinho. ― Que carroça!...

― Naquele tempo de navegação a vela as viagens dependiam dos ventos, sendo por isso incertas e demoradas. Fazia-se em meses o que hoje se faz em dias.

Hans esteve algum tempo em Setúbal, com certeza provando o gostoso vinho moscatel que lá fabricam. Depois tomou o caminho de Lisboa. Sua tenção era seguir para as Índias numa das frotas que dali costumavam zarpar.

― Zarpar? ― interrompeu Pedrinho. ― Por que fala assim tão difícil hoje, vovó?

― Não estou falando difícil, Pedrinho. Há certas expressões que se chamam “técnicas” e que vocês precisam ir aprendendo. Zarpar se diz quando um navio ou uma esquadra sai dum porto. É uma expressão técnica, isto é, de sentido exato.

― Muito bem. Continue. Achou ele navio que o levasse para as Índias?

― Não teve sorte. Hans não encontrou nenhum navio com destino às Índias. Em vista disso engajou-se como artilheiro num barco do capitão Penteado, que se destinava ao Brasil. Essa nau era mercante, mas ia armada de canhões, como se fosse navio de guerra, e levava ordem do rei para atacar os barcos franceses encontrados pelo caminho.

― Por que isso, vovó?

― Portugal e França estavam em luta por causa das terras novas descobertas em 1500, e era no mar que justavam contas. A França julgava-se com tanto direito de explorar essas terras como Portugal, mas tais terras pertenciam a Portugal e Espanha que haviam tomado posse delas antes dos outros. Terra naquele tempo era de quem primeiro a pegava. Mas a França não concordava com isso e o seu rei nessa época, Francisco I, havia dito em certa ocasião:

― “Eu quero que me mostrem o testamento de Adão que repartiu o Novo Mundo entre o rei de Espanha e o rei de Portugal, pondo-me fora da partilha.”

Era por esse motivo que os franceses e portugueses se atracavam no mar, embora não existisse guerra declarada entre as duas nações.

Mas a nau em que ia o nosso Staden partiu de Lisboa, seguida de outra menor, e foi ter à Ilha da Madeira, onde já se produzia muito vinho e açúcar. (...)

Sobreveio fortíssima tempestade, que arrojou a nau [de Hans Staden] a quatrocentas milhas dali, para os lados do Brasil.

― Quantos metros tem a milha, vovó? ― indagou Pedrinho.

― A milha varia muito, de país para país. É medida do tempo dos romanos, entre os quais valia mil passos. Mas como isso de passo cada povo o tem maior ou menor, conforme o comprimento das pernas, há milhas de 1.609 metros, como a inglesa, e milhas de mais de 8.000 metros, como a húngara. Mas hoje está generalizada a milha marítima de 1.853 metros.

― É uma danada, esta vovó! Parece um livro aberto ― disse o menino, entusiasmado com a ciência da velha.

― Continue, vovó ― pediu Narizinho, mais interessada na navegação de Hans do que na elasticidade da milha.

Dona Benta continuou:

― As naus, em vista do avanço que o temporal lhes imprimira no rumo do Brasil, deixaram em paz as costas da Berberia e seguiram viagem para as terras de Cabral.

Pelo caminho toparam grande quantidade de peixes-voadores. Erguiam-se do mar em cardumes, para fugir à perseguição dos peixes maiores; voavam um bom pedaço e iam cair n´água, muito longe dos seus inimigos. Às vezes voavam à noite e vinham dar de encontro às velas e cordas dos navios; de manhã os marinheiros não necessitavam de pescar para o almoço; era só colhê-los no tombadilho. E assim foram os navios singrando até alcançarem a linha do equinócio.

― O que é isso, vovó?

― É o equador, meu filho. Já esqueceu a sua lição de cosmografia?

Chegados ao equador, houve um período de calma, isto é, sem brisas, de modo que os navios ficaram parados sobre as ondas, com grande padecimento dos marinheiros em vista do calor sufocante.

Às vezes trovejava e caíam chuvas violentas; mas a calmaria sobrevinha de novo, enchendo de pavor a pobre marujada, porque o prolongamento daquela situação poderia trazer a todos o mais triste dos fins.

Certa noite de chuva, apareceram no costado dos navios muitas luzes mortas, coisa que Staden não tinha visto ainda. Onde batiam as vagas ficava a brilhar uma luz azul. Os marinheiros alegravam-se com o fenômeno, a que chamavam santelmo e diziam ser sinal de bom tempo. Assim foi. Quando raiou o dia principiou a soprar um vento favorável, que permitiu às naus prosseguirem na viagem.

A 28 de janeiro (isso no ano de 1554) avistaram uma ponta de terra, que Hans soube ser o Cabo de Santo Agostinho. Mais oito milhas de marcha e finalmente atingiram o porto de Olinda, depois de oitenta e oito dias de mar.

― Mas a tal luz morta, vovó, que era? ― quis saber Pedrinho, e dona Benta explicou:

― Tratava-se da fosforescência de certos bichinhos que bóiam sobre as águas do mar aos bilhões e bilhões, numa verdadeira via-láctea de massa viva. É a mesma fosforescência dos vaga-lumes, mas em animálculos extremamente pequenininhos...

― Pare um pouco, vovó ― pediu a menina. ― Quero dar um pulo lá dentro para trazer a Emília. A coitadinha gosta tanto de ouvir histórias...
Obras Completas de Monteiro Lobato, vol. 3, págs. 121 a 130.

Comentário rápido: por falta de um editor de texto (um tipo de profissional que não existia nos tempos da antiga Companhia Editora Nacional), nosso querido Lobato cometeu um pequeno equívoco no subtítulo do seu livro, pois a viagem de Staden começou em 1553, mas seu naufrágio ocorreu somente em 1554.


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ANEXO 6
Peter Pan ― a história do menino que não queria crescer, contada por dona Benta:

Capítulo I



Peter Pan
Quem já leu as Reinações de Narizinho deve estar lembrado daquela noite de circo, no Picapau Amarelo, em que o palhaço havia desaparecido misteriosamente. Com certeza fora raptado. Mas raptado por quem? Todos ficaram na dúvida, sem saber o que pensar do estranho acontecimento. Todos menos o gato Félix. Esse figurão afirmava que o autor do rapto só poderia ter sido uma criatura ― Peter Pan.

― Foi ele! ― dizia o gato Félix. Juro como foi Peter Pan.

Mas quem era Peter Pan? Ninguém sabia, nem a própria dona Benta, a velha mais sabida de quantas há. Quando Emília a ouviu declarar que não sabia, botou as mãos na cinturinha e:

― Pois se não sabe trate de saber. Não podemos ficar assim na ignorância. Onde já se viu uma velha de óculos de ouro ignorar o que um gato sabe?

Dona Benta calou-se, achando que era mesmo uma vergonha que o gato Félix soubesse quem era Peter Pan e ela não ― e escreveu a uma livraria de S. Paulo pedindo que lhe mandasse a história do tal Peter Pan. Dias depois recebeu um lindo livro em inglês, cheio de gravuras coloridas, do grande escritor inglês J. M. Barrie. O título dessa obra era Peter Pan and Wendy.

Dona Benta leu o livro inteirinho e depois disse:

― Pronto! Já sei quem é o Senhor Peter Pan, e sei melhor do que o gato Félix, pois duvido que ele haja lido este livro.

― Está claro que não leu ― observou Emília. ― Ele só lê ratos, com os dentes...

― Se leu, conte, vovó! ― gritou Narizinho. ― Andamos ansiosos por ouvir a história desse famoso menino.

― Muito bem ― disse dona Benta. ― Como hoje já é muito tarde, começarei a história amanhã às sete horas. Fiquem todos avisados.

No dia seguinte, de tardinha, a curiosidade dos meninos começou a crescer. Às seis e meia, já estavam todos na sala, em redor da mesa, à espera da contadeira. Emília olhava para o relógio pensativamente. Quem entrasse em sua cabeça havia de encontrar lá esta asneirinha: “Que pena os relógios não andarem de galope, como os cavalos! Nada me enjoa tanto como esta maçada de esperar que chegue a hora das coisas ― a hora de brincar, a hora de dormir, a hora de ouvir histórias...”

Pedrinho matava o tempo arrepiando xises no veludo de uma velha almofada ― com o dedo. E Narizinho, no seu vestido novo de rosinhas cor-de-rosa, fazia exercício de parar de pensar ― uma coisa que parece fácil mas não é. A gente, por mais que faça, pensa sem querer.

Faltava o Visconde. O velho sábio, depois que se meteu a estudar matemática, fazia tudo com “precisão matemática”, que é como se diz das pessoas que não fazem as coisas mais ou menos, e sim certinho. Quando bateu sete horas ele entrou, em sete passadas, cada uma correspondendo a uma pancada do relógio. Logo depois surgiu dona Benta.

― Viva vovó! ― gritavam os meninos.

― Viva a história que ela vai contar! ― berrou Emília.

Dona Benta sentou-se na sua cadeira de pernas serradas, subiu para a testa os óculos de aro de ouro e começou:

― Era uma vez uma família inglesa...

― Espera, sinhá! Não comece ainda ― gritou lá da copa tia Nastácia. Eu também faço questão de conhecer a história desse pestinha. Estou acabando de lavar as panelas e já vou.

Dona Benta esperou que a negra chegasse, apesar do protesto da Emília, que disse:

― Bobagem! Para que uma cozinheira precisa saber a história de Peter Pan?

Tia Nastácia veio e escarrapachou-se no assoalho, entre o Visconde e a menina. Só então dona Benta começou de verdade.

― Havia na Inglaterra uma família inglesa composta de pai, mãe e três filhos; uma menina de nome Wendy (pronuncia-se Uêndi), que era a mais velha; um menino de nome João Napoleão, que era o do meio; e outro, de nome Miguel, que era o caçulinha. Os três tinham o sobrenome de Darling, porque o pai se chamava não sei quê Darling. Esses meninos ocupavam a mesma nursery numa linda casa de Londres.

Nursery? ― repetiu Pedrinho. ― Que vem a ser isso?

Nursery (pronuncia-se nârseri) quer dizer, em inglês, quarto de crianças.

(...)

O quarto ficou mergulhado em silêncio profundo. Todos dormiam, e até a chama da lamparina parecia cochilar, de tão quietinha. Mas, de repente, essa luz tremeu três vezes e apagou-se.



― Por quê? ― indagou Narizinho.

― Algum besouro ― sugeriu Emília.

― Não ― disse dona Benta. ― É que havia entrado pela janela uma pequena bola de fogo.

― Como havia entrado pela janela, se a janela estava fechada? ― berrou Emília.

― Isso eu não sei ― disse dona Benta. ― O livro nada conta. Mas como fosse uma bola de fogo mágica, o caso se torna possível. Para as bolas de fogo mágicas, tanto faz uma janela estar aberta como fechada. Ela acha sempre um jeito de entrar. Do contrário, não valia a pena ser bola mágica. Entrou e começou a esvoaçar em todas as direções, muito aflitazinha, como que anda atrás dalguma coisa.

― Já sei ― interrompeu Narizinho. ― Estava procurando a cabeça da sombra.

― Talvez fosse isso ― concordou dona Benta ―, porque depois de várias voltas pelo ar a bola parou defronte do armário de Wendy e entrou na gaveta pelo buraco da fechadura.

― E houve um incêndio, já sei! ― gritou Emília. ― Bola de fogo em gaveta de armário é incêndio certo. A cidade de Londres vai ser destruída...


Obras Completas de Monteiro Lobato, vol. 5, págs. 150 a 159.
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