Alan barbosa buchard




старонка1/7
Дата канвертавання27.04.2016
Памер457.5 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7
ALAN BARBOSA BUCHARD

A MORTE EM HOMERO: ENTRE A ESCOLHA DE AQUILES E A RESISTÊNCIA DE ULISSES

Monografia apresentada ao Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Bacharel em Filosofia, sob a orientação do Prof. Dr. Marcus Reis Pinheiro.

Aprovada em _________________________ de 2014.

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________________________

Prof. Dr. Marcus Reis Pinheiro

______________________________________________________

Prof. Dr. Alexandre Costa

_______________________________________________________

Prof. Dra. Greice Drumond

Niterói

2014


Aos meus pais, com carinho e devoção

A Caio Buchard, com irmandade e confiança



AGRADECIMENTOS

Aos meus pais pela dedicação em tornar possível a conclusão deste curso, assim como por serem minha antítese filosófica, através da qual me construí tal como sou. Ao meu irmão Caio por compartilhar dos pensamentos e decisões existenciais.

Ao professor Marcus Reis pela oportunidade de estudar o tema aqui trabalhado, assim como pela liberdade filosófica que concede aos seus alunos em suas pesquisas, respeitando e incentivando seus esforços.

Ao professor Luis Antônio, especialmente, por ensinar que não há distância entre aluno e professor, e que tanto dentro quanto fora da sala de aula os afetos fraternos são possíveis.

Aos professores Alexandre Costa e Greice Drumond por terem aceitado com leveza e boa disposição o convite para compor a banca examinadora.

Aos demais professores do departamento de Filosofia da UFF pela preciosa formação acadêmica.

Aos meus amados amigos, confortos em minhas dores, portos seguros de meu coração: Willian Lizardo, Rafaga Mello, Antônio Ricardo, Ana Nicolino, Fernanda Lima, Érica Lima, Marcelo Lima, Luiz Eduardo Freitas, Laura Vaz, Drica Novo, Jéssica Duarte, Matheus Murillo.

Hipólito: Oh hálito de feliz fragrância! Mesmo na miséria

Eu te percebo e sinto-me restaurado!

Está aqui presente a deusa Ártemis?

Ártemis: Sim, infeliz! É ela, a que entre os deuses

mais te ama!



Hipólito: Vês, senhora o que a mim, desgraçado, me

sucede?


Ártemis: Sim, vejo. As lágrimas, porém, são-me

interditas.

(...)

Ártemis: Adeus! Não posso ver aqueles que empalidecem

Não posso embaçar meus olhos com o hálito do

moribundo.

E é este o fim funesto de que te vejo próximo.



Hipólito: Já te vais! Adeus também te digo, ó venturosa!

Levemente te desligas de uma longa amizade.



Hipólito. Eurípedes.

RESUMO

A morte enquanto evento que encerra a existência é possuidora de absoluta gravidade para o ser humano. Por este motivo, os gregos antigos produziram uma extensa literatura que fosse capaz de responder ao mistério que a morte carrega consigo. No interior dessa diversa produção, destacamos em nossa pesquisa sobre a relação do homem com a morte as epopeias Ilíada e Odisseia, de Homero. Este trabalho, portanto, pretende analisar pormenorizadamente trechos dos poemas homéricos que permitam estabelecer uma ontologia da morte, e, consequentemente, o tipo de conduta que os heróis da mitologia tinham frente a este evento. A hipótese que sustenta nossas análises parte do pressuposto de que a cultura grega homérica não conheceu um cânon dogmático sobre a realidade da morte, de modo que as crenças tanatológicas tendem à multiplicidade. Observar-se-á na postura de Aquiles e de Ulisses uma dupla forma de encarar a morte, e, por conseguinte, uma dupla forma de estar na vida. Buscamos defender que a diversidade na representação da morte tem por origem um mundo ainda em construção, em que a poesia ocupava o lugar de criação das crenças e costumes gregos.



Palavras-chave: Homero, tanatologia, poesia grega, ontologia, ética

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.................................................................................................................7

1. ANÁLISES DAS ESTRUTURAS E ASSUNTOS DA ILÍADA E DA ODISSEIA......11

2. A BELA MORTE NA ILÍADA: A TRAGICIDADE DO HERÓI E A ESCOLHA DE AQUILES........................................................................................................................21

3. O RESISTIR À MORTE E A ASTÚCIA DE ULISSES............................................47

CONCLUSÃO.................................................................................................................69

BIBLIOGRAFIA.............................................................................................................71

INTRODUÇÃO

“Foi talvez diante da morte que o homem, pela primeira vez, teve a ideia do sobrenatural e quis abarcar mais do que seus olhos humanos podiam mostrar-lhe. A morte foi, pois, o seu primeiro mistério, colocando-o no caminho de outros mistérios. Elevou o seu pensamento do visível para o invisível, do transitório para o eterno, do humano para o divino.”1

Não é novidade que ao longo da história os homens e as muitas civilizações buscaram em suas próprias culturas elementos que os permitissem a superação da condição humana. Da criação de mitos, passando pelos rituais religiosos e fúnebres, chegando até à poesia e à música, diversos foram os meios empregados para salvaguardar o indivíduo de uma das realidades fundamentais de sua existência, isto é, a morte.

Como evento absoluto que encerra o ser humano e o lança no Hades, a morte foi retratada de diversas formas na cultura grega. A sociedade grega, porém, nunca teve “um corpo de doutrina estabelecido acerca do destino das almas e do modo de sua sobrevivência”2. Não há indícios arqueológicos de uma classe estabelecida de sacerdotes que zelavam pelo culto aos deuses ou dos dogmas da religião no período heróico: embora os sacerdotes estejam presentes nos relatos da Ilíada e da Odisseia, o culto aos deuses e aos heróis terá seu amadurecimento apenas no âmbito das póleis.3 Antes disso, a poesia épica era o terreno em que as concepções sobre a morte e os ritos tanatológicos se desenvolviam.4 O estudo sobre a relação do homem grego com a morte recairá, portanto, sobre a poesia de Homero.

Quando falamos do “homem grego” deve-se compreender o homem que é representado na poesia homérica, uma vez que não é nosso objetivo entrar em questões arqueológicas e históricas, na busca por definir a relação do grego empírico com a morte. A problematização dessa pesquisa reside na relação das personagens da Ilíada e da Odisseia com a morte, e na maneira como aquelas se encontram com esta.

Escolher Homero e seus poemas para tratar do tema da morte entre os gregos tem por primeiro motivo, e mais imediato, a carência de material textual na Grécia dos séculos XII a VIII a.C. À época da composição dos poemas homéricos, os gregos encontravam-se no germe da produção literária5, que amadurece com a poesia lírica e com as tragédias nos séculos seguintes. Do séc. VIII ao VI a.C. apenas a Ilíada e a Odisseia existiam como obras literárias, de modo que nessas duas epopeias encontram-se os mais antigos relatos da cultura e crenças gregas. Fora de Homero os relatos existentes sobre a sociedade grega são escassos.

O segundo motivo, que de algum modo deriva do primeiro, parte da afirmação platônica6 de que Homero foi o grande educador da Grécia – tese que Jaeger7 defende. Seja em sua época, seja posteriormente, o poeta grego foi a voz que transmitiu a sociedade os valores que a formaram. Desde a crenças nos deuses até conhecimentos sobre geografia, medicina e economia, nos poemas homéricos está representada a vida do homem grego, e o mundo que ele habita. A formação do homem grego inicia-se com Homero, e por muitos séculos o poeta permanecerá como o grande pedagogo da Grécia. Ora, se em Homero estão presentes os fundamentos da conduta social, e se nele estão retratados os modos como os gregos antigos percebiam o mundo e a existência, falar sobre a maneira que eles encaravam a Morte é ter diante de si as páginas dos poemas homéricos.

A tarefa, porém, é árdua. Analisar Homero em poucas palavras é um trabalho delicado e complexo. Nos mais de dois milênios da composição dos poemas homéricos, a Ilíada e a Odisseia tiveram inúmeros comentadores, de filólogos a teólogos, passando pela filosofia e literatura. Muito já se disse e escreveu sobre o primeiro poeta do Ocidente, o que torna difícil o recorte de um tema em sua obra, assim como a escolha por determinada linha de análise. Como condensar uma gama de tradicionais homeristas em tão poucas páginas, sem ser parcial? A situação é complexa e exigiu a eleição de determinadas interpretações a despeito de outras, como veremos nos próximo capítulos.

Tão delicado quanto o recorte de um tema em Homero é a exposição de todos os conceitos necessários a compreensão do texto homérico. Não se encerrará o tema da Morte numa pesquisa como esta. Entretanto, nos objetivos aqui propostos, as análises da Ilíada e da Odisseia, mesmo que sob o recorte, tem sua eficácia. Os discursos tanatológicos, isto é, os discursos sobre a morte, presentes nos poemas homéricos serão postos em diálogo, para que, por contraste, se perceba a especificidade de cada um. Ao evidenciar cada discurso, o estudo mostrará que a obra homérica não é uniforme no que diz respeito a morte; que nos quarenta e oito cantos que compõem o poema, a morte nunca é a mesma, nunca tem a mesma face.

Portanto, no primeiro capítulo desta pesquisa algumas questões periféricas, porém importantes, ao nosso tema serão tratadas. Analisaremos a estrutura e os assuntos da Ilíada e da Odisseia, chamando atenção para os aspectos relacionados à composição dos poemas, tais como a tradição da poesia oral, a “questão homérica” e as diferenças entre as duas epopeias: quem foi Homero, quem escreveu os poemas, quando os escreveu, assim como as circunstâncias, as características, crenças e etc. que diferenciam a Ilíada da Odisseia. Essa ambientação será de extrema importância para os capítulos seguintes, nos quais cada poema é analisado separadamente.

À tentativa de reconstrução da figura de Aquiles, cuja existência é trágica, e cujo destino não tarda a tomar termo, somado ao estudo dos diversos termos que referem-se à Morte, deve-se o objetivo do segundo capítulo. Neste momento, focamos as análises na Ilíada, e no ideal de “bela morte” nela presente: morte em campo de batalha, na flor da idade. Veremos um Aquiles que afirma não temer a Morte, preferindo morrer gloriosamente na guerra de Tróia a retornar para sua terra sem ter alcançado a recompensa dos grandes heróis: a fama imorredoura.

O terceiro, e último capítulo, é uma espécie de antítese ao segundo. A morte na Odisseia assume um novo aspecto: a glória, a fama imorredoura não é capaz de tornar a morte palatável. Em diálogo com Ulisses no Hades, Aquiles tece um discurso que se contrapõe à bela morte iliádica, de modo que veremos outra compreensão sobre a natureza da morte. Para se chegar a essa conclusão, serão delineados os contornos da figura de Ulisses, bem como sua capacidade de escapar à morte.

A pesquisa sobre a relação das personagens homéricas com a Morte conclui por uma dupla compreensão sobre a contingência humana. A morte ora é capaz de conferir ao herói sobrevida, sendo, portanto, afirmada em sua tragicidade, ora ela é tratada como o pior dos males reservados pelos deuses aos homens, portanto, uma realidade da qual se deve esquivar ao máximo.

Deve ser dito que as conclusões a que chegamos na pesquisa fazem parte de uma corrente de leitura, de interpretação dos poemas homéricos. Como dito no início dessa introdução, Homero não se esgota tão facilmente numa pesquisa. Por esse motivo, a apropriação de Homero será filosófica: procura-se conhecer nos poemas a natureza da Morte para daí extrair os desdobramentos éticos de tal ontologia. O que está para além desse objetivo, embora sejam relevantes, não será problematizado.

Homero foi, e ainda é, considerado o maior poeta do Ocidente: um poeta monumental – ponto máximo de uma antiga tradição de aedos que cantavam as paixões dos deuses e as façanhas de herói remotos. Escrever sobre ele é, portanto, mais que uma escolha acadêmica filosófica, é uma honra.

Capítulo 1: Análises das estruturas e dos assuntos da Ilíada e da Odisseia

Falar sobre a Ilíada e a Odisseia é falar sobre o início da literatura europeia. É de “consenso geral”8 que as duas epopeias inauguram a literatura no Ocidente, influenciando toda a produção literária e a cultural dos séculos seguintes. Após os dois mil e seiscentos anos que vão da composição dos poemas homéricos no séc. VIII a.C. até os dias de hoje, é significativa a colossal quantidade de material poético, filosófico e acadêmico que foi produzido com o intuito de estabelecer o lugar que é de direito de Homero em nossa cultura. Por este motivo, qualquer trabalho que vise discorrer sobre o poeta grego necessariamente há de tocar em questões e análises já realizadas pelos muitos estudiosos ao longo dos séculos. Como nosso objetivo – no que concerne ao propósito desta pesquisa – não é citar as discussões engendradas por filólogos alexandrinos ou por acadêmicos medievais, nos ateremos aos estudos da filologia clássica9 sobre a mui controversa Questão Homérica.

Do mesmo modo, chamaremos atenção para os aspectos da tradição da poesia oral, fonte da qual Homero retira os episódios que irá narrar, assim como para os processos de composição da poesia homérica, que guarda em seus versos características da tradição que o precede: Homero não se recusa a fazer uso da poesia oral, a despeito da existência da escrita. Se tais processos forem compreendidos em suas sutileza e em sua complexidade, tornar-se-á claro as diferenças entre a Ilíada e a Odisseia que inevitavelmente resultam em diferentes compreensões sobre os deuses, a existência humana, e o mundo circundante.

As análises deste capítulo servem a um fim específico, e não pretende esgotar a discussão quanto as questões aqui problematizadas. O que objetivamos é ter claro o modo de composição dos poemas homéricos, assim como a reconhecer a diferença na temática e na estrutura de cada poema permitirá reconhecer o modo como se dá a relação das personagens homéricas com a Morte.



1.1. A tradição da poesia oral

Qual é o ambiente histórico em que situa-se Homero? Para os gregos antigos, assim como para os críticos modernos, Homero é um poeta do séc. VIII a.C., que apresenta idealisticamente em seus poemas um passado muito mais remoto e nobre do que o seu. Recuando no tempo até o séc. XII a.C., à época em que haveria ocorrido a dita guerra de Tróia, vemos a decadência10 de uma rica e poderosa civilização, que teve seu início por volta do ano 1600 a.C, a civilização micênica – cujo um dos principais centros foi o palácio de Agamêmnon, soberano de Micenas. Os quatrocentos anos que se seguiram desde o final desta civilização, pela invasão dos Dórios, até a época da composição dos poemas homéricos são obscuros, e sobre eles não existem muitos registros escritos que nos auxiliem em sua compreensão, restando apenas a arqueologia os maiores esclarecimentos. No século VIII a.C., porém, observa-se um novo alvorecer da cultura com a emigração grega do continente europeu à Ásia Menor, que permitiu a retomada do comércio, a criação de uma espécie de colonização organizada, e o desenvolvimento de uma nova escrita, adaptada do alfabeto recebido dos Fenícios. Nesse período de conturbadas transformações, nascem os poemas homéricos, filhos de uma extensa tradição poética oral.

Os quatro séculos da ausência da escrita são de suma importância para o desenvolvimento da poesia pré-homérica, pois nesse período teve início a elaboração dos mitos que influenciaram a obra de Homero. Atentemos, portanto, para o fato de que a poesia homérica não foi o início da tradição oral poética, e sim uma “conclusão amadurecida de um longo desenvolvimento.”11 Homero é testemunha deste desenvolvimento quando em seus poemas alude a episódios em que os próprios personagens cantam a gesta dos heróis12, histórias que faziam parte do chamado “ciclos de canções”.13 A existência de um ciclo de canções já à época de Homero ajudará a sustentarmos que o poeta é herdeiro de uma tradição e não seu criador.

Importante para a compreensão do processo de criação da poesia pré-homérica numa tradição oral de a recitação-criação das estórias do imaginário popular são os extensos estudos de Milman Parry14 e de seu sucessor Albert Lord15, que a partir de 1933 dedicaram seus trabalhos à comparação dos textos homéricos com as epopeias da tradição sul-eslávica. Verificaremos que em ambos os casos, a criação de mitos poéticos seguem o mesmo método:

“Sempre encontramos no centro de tais cantos o herói que sobressai entre os demais pela sua coragem e força física. As suas ações são determinadas unicamente pelo conceito ainda não problematizado da honra. (...) Esta poesia tem a sua origem e é cultivada geralmente numa classe superior de cavaleiros que têm por conteúdo de sua vida a luta, a caça e os prazeres da mesa. (...) O que se interpreta em tais círculos converte-se normalmente mais tarde em patrimônio da comunidade. O pano de fundo de semelhante poesia heroica é constituído por uma época de heróis que se considera como um passado que supera a época presente. (...) Esta poesia heroica tem sempre a pretensão de narrar fatos verdadeiros, pretensão essa que se fundamenta na venerabilidade da tradição ou na inspiração divina.”16

O resumo acima das características básicas dos textos épicos são comuns a bardos gregos e a bardos do território sérvio-croata, e presentes na chamada “oral composition”: dispondo de lendas comuns de um povo, sem um texto pré-estabelecido, o cantor (aedo) cria sempre de novo a sua canção, o seu repertório poético, variando sem cessar o conteúdo da narrativa, ampliando o que antes se havia cantado. Nesse âmbito da composição oral surgem a Ilíada e a Odisseia.



    1. A Questão Homérica

Vimos que a composição dos poemas homéricos advém de uma longa tradição oral de recitação e criação de lendas e mitos. Resta-nos, portanto, perceber o corolário dessa filiação, reconhecendo que os poemas homéricos não estão isentos dos intercâmbios culturais, nem das produções de textos análogos. A partir da chama Questão Homérica investigaremos o modo como a poesia de Homero relaciona-se com a tradição precedente.

A figura de Homero como autor da Ilíada e da Odisseia é questionada desde a Antiguidade com os chamados corizontes17, que se recusavam a atribuir essa dupla autoria ao poeta grego. Como é periférico à pesquisa os argumentos utilizados por esse grupo de estudiosos gregos para provar suas teses, saltamos para o início da questão com F. A. Wolf e a publicação de sua obra Prolegomena ad Homerum, em 1795. Wolf inicia a crítica pelo viés analítico, que defende a existência de mais de um autor para os poemas homéricos, e cujo método de análise consiste em recortar cada canto, cada passagem dos poemas e observar os traços de elaboração, as possíveis suturas, as contradições, as diversas interpolações, e a existência de elementos externos à época que o texto retrata. Por esta metodologia foi possível a Wolf e aos demais analíticos “revelar um estado primitivo dos poemas, muito menos copioso do que o estado atual, e isolar os sucessivos contributos que introduziram nesse antigo estado, sejam cantos, ou grupo de cantos, sejam passagens mais breves ou alguns versos aqui ou ali.”18

Seguindo os passos de Wolf, os analíticos como G. Hermann19 e K. Lachmann sustentaram a existência de um plano poético inicial, que consistiria numa Ilíada primitiva, de pequena extensão, que com o decorrer do tempo haveria crescido – devido as interpolações de outros poetas – até chegar as proporções tradicionais da obra. Para neo-analistas, como o importante W. Schadewaldt20, Homero haveria de ser um poeta que localiza-se na esteira de uma grande tradição, servindo-se de fontes que tem origem e datas diferentes. Dito de outra forma, Schadewaldt “conta, sim, com a existência duma multiplicidade de formas prévias e com uma tradição que tem as suas raízes no passado longínquo, anterior à obra do poeta da nossa Ilíada.”21 No caso de outro grande filólogo analítico, Wilamowitz22, a origem da Ilíada e sua complexa estrutura só pode ser concebida através de uma abundante atividade de escrita, que escaparia do domínio de apenas um homem. Isto é, para dar origem a um poema como a Ilíada não bastaria supor apenas a existência de alguns poetas escrevendo a Ilíada, mas seria preciso “conceber também os seus modelos em forma de livros, de que se serviam [tais poetas] como material escrito, efetuando cortes, corrigindo e ampliando.”23

Contrapondo a escola analítica surge a escola dos unitários24, para quem a Ilíada e a Odisseia são obras de um único autor. Com exímios defensores como Drerup25 e Renata von Scheliha26, os unitários sustentam que os problemas das interpolações nos cantos, da ruptura na narrativa, e acréscimos tardios não modificam a impressão geral dos poemas homéricos. Tais unitários admitem uma ou outra adição tardia, entretanto argumentam a favor da unidade que é perceptível por todo os lados. Sua tarefa, portanto, consiste em “mostrar que uma divergência, uma espera, um rodeio na narrativa eram deliberados e sabiamente utilizados com vista a fins literários.”27 Por essa metodologia esperava-se impedir os exageros das leituras analíticas que pulverizariam as epopeias em elementos incoerentes, tornando-as fragmentárias.

A problematização em torno da questão homérica produziu estudos que certamente contribuíram para melhor compreensão dos meios de composição do poemas, assim como elucidaram pontos obscuros e contraditórios na narrativa. Um dos exemplos clássicos, é o canto XI da Odisseia, episódio conhecido por Nekýa – a viagem de Ulisses ao Hades. No consenso geral entre os estudiosos de Homero, esta passagem é produto de adições tardias, uma vez que o catálogo de heroínas e malfeitores têm uma “conexão frouxa com o contexto”28. Embora os relato mitológicos de katábases de heróis sejam antigos e inúmeros, para os analíticos a Nekýa da Odisseia apresenta diversos problemas de composição que inviabilizaram sua inclusão no poema original. Exemplo é a inspiração religiosa presente no episódio que destoaria do restante da narrativa.

De igual forma, a discussão em torno da Telemaquia29 levou os analíticos a considerarem o episódio como interpolação posterior a primeira composição da Odisseia, já que o envio de Hermes a Calipso, sugerido por Atena, no começo do primeiro canto, só é posto em prática em consequência dos seus protestos, no início do canto V, com a assembleia dos deuses. Para os analíticos, esta cena haveria de ser primariamente uma cena unitária dos deuses que foi repetida e sutilmente modificada em decorrência da interpolação da Telemaquia. Entretanto, para os unitários a repetição da cena em questão serve para realçar o reaparecimento da trama do retorno de Ulisses, de modo que a própria Telemaquia serviria de “moldura” às aventuras do herói grego.

Muitos outros exemplos poderíamos citar sobre a querela entre analíticos e unitários. Contudo, a parte às discussões se os poemas homéricos seriam compostos por um único poeta, de gênio brilhante e estilo singular, ou se seriam elaborações de uma escola de homeristas que seguiam na esteira de um aedo cego que nada escreveu, o tocante para esta pesquisa consiste nos diversos frutos narrativos, conteudísticos, e interpretativos da complexidade da criação dos poemas.

  1   2   3   4   5   6   7


База данных защищена авторским правом ©shkola.of.by 2016
звярнуцца да адміністрацыі

    Галоўная старонка