A arte de Morrer Longe Mário de Carvalho




старонка1/5
Дата канвертавання26.04.2016
Памер401.46 Kb.
  1   2   3   4   5

A Arte de Morrer Longe Mário de Carvalho



Na bela e nunca por demais celebrada cidade de Lisboa, urbe das urbes, afamado remanso de brandura, nimbado de zimbórios e palmeiras, a moda das tartarugas exóticas começou um dia a fatigar. Os animais foram crescendo desmedidamente, a termos de ocupar todo o espaço dos aquários domésticos, embatendo à toa nos vidros, com risco de os partir e de perturbar o sossego íntimo das famílias. Vultos furtivos, pela calada da noite, em ofegantes sortidas nocturnas, encarregaram-se de distribuir répteis bojudos pelos tanques e charcos de Lisboa e não poucos couberam ao lago do Campo Grande. Quem por ali passasse à noite, com uma lanterna, porventura em busca dum par de chaves transviado, ou duma moeda da sorte, surpreenderia, pelas margens lodosas, múltiplas excrescências tumefactas, negro-verdes, de que ressaltavam, numa redondeza um tanto pasmada, os olhos miúdos.

Por essa altura, no pátio do Museu da Cidade, houve quem decidisse animar o tanque setecentista, que a macieza derramada de musgos escurecia, em tons de dolência abandonada, com umas carpas juvenis que davam um luxo de cores rápidas à espessura das águas limosas.

Os patos marrecos que, há gerações, habitam o lago, deixando-se ver aos domingos a singrar, boiantes e burgueses, seguidos pela prole cinzenta em fila indiana, e que mergulham naquelas negruras, alçando uma pelúcia acrobática nabiforme entre duas amarelidões molengas, acusaram à sua maneira a invasão sorumbática das tartarugas. Dispuseram patrulhas, fizeram reconhecimentos e descobriram quão saborosas eram as carpas, que os empregados do museu não se cansavam de renovar, atribuindo, com injustiça, o seu desaparecimento a mãos humanas, vândalas ou vagabundas.

Mas nas cristalinas alcândoras de céus límpidos, donde toda a obra humana se apequena, recortada em talhões geométricos, e donde a todo o comprido Portugal se alcança, orlado do esbranquiçar difuso das praias e embutido num mar vasto, claro e luzente, velam, torvas e sombrias, algumas presenças funestas. Com o seu olhar recurvo, bico de gancho e possantes asas ombrudas, os falcões do aeroporto são profissionais mal pagos a quem aqueles patos gordos começam a fazer sentido, já desapetecida a pombalhada monótona que se alvoroça para amparos tão cinzentos como ela, em debandada fujona.

Podem os falcoeiros esperar, com a sua luva couraçada ao alto e os sinais estabelecidos desde há eras, que os falcões querem dar uso às garras e têm umas contas a regular com os intrusos que lhes grasnam no minucioso campo de visão. Os arvoredos e folhagens das vastidões do Campo Grande antes ocultavam-nos, mas, nos jardins do museu, disponibilizam-se agora, distraídos e prontos, como uma oferenda da divindade das aves de rapina.

E foi em volta daquele aristocrático tanque, ornado de bolores e limos, recoberto de graciosas figuras evocando nudezes esquivas e solertes minuetes, que espadanaram águas, se altearam grasnidos pungentes, estrídulos de ferir ouvidos e estremecer vidraças. Robustas garras de bronze dilaceraram carnes e penas, em redemoinhos convulsos de feridas em aberto, num espectáculo aflitivo como nunca se houvera visto, sequer nas televisões mais torpes.

Ninguém se atreve a estabelecer qual foi a exacta causalidade desta repentina cadeia de acontecimentos, mas pode aventar-se que nem as famílias que se privaram das tartarugas, nem o honrado conservador do museu, nem os falcoeiros protectores de aviões, nem qualquer dos cidadãos de Lisboa anteviram um desfecho tão sanguinolento e tão espectacular. É a sina dos homens serem sistematicamente traídos pelos caprichos da realidade. Ainda que advertidos por qualquer Cassandra da marcha das coisas, não deixariam de proceder às cegas, como é próprio da sua natureza, servil a um destino escrito não sei onde.
A esmagadora maioria dos vizinhos de Lisboa não tomou conhecimento daquelas pavorosas ocorrências que, aliás, lhe provocariam horror e repulsa. Tampouco um certo jovem casal desavindo, morador ao Lumiar, convencido, por esses dias, de que a sua «comunhão de vida» (luminosa formulação legal) estava a dar as últimas. Antes da fase do divórcio, de que anteviam maçadas burocráticas e tortuosidades jurídicas, ocupavam-se com os termos da sua própria separação física e material.

Ela ficava muito séria, sorrindo, numa sua maneira peculiar de conflituar as feições, contrastando lábios e olhos, para bom entendedor; ele tamborilava com os dedos e fingia regressar a si, após sobressaltos de distracção, como se não estivesse, na verdade, a fazer nada de importante. E assim se aplicavam naquela noite, sobraçando livros, discos e bibelôs, elaborando listas, tratando-se com uma cortesia glacial, depois de terem jantado cada um para seu lado. Subentendiam que cada qual amesendara com seu par, quando, em boa verdade, ela tinha vindo do balcão despovoado dum centro comercial e ele duma tasca escondidinha com bifanas a um euro.

Chamavam-se Arnaldo e Bárbara, andavam pelos trinta anos, eram empregados de escritório, e cada qual estaria, segundo informação mais aludida que confessada, «interessado» n' outrem.

Classificavam e inventariavam sem penosidade, com a segurança superior com que vemos os funcionários das finanças somar talõezinhos de despesa, ou receitas de farmácia com NA a 5% e 11%. Como é isto possível? Como não se distraem? Como não se enganam? Como não se enfadam de morte? A alma humana regurgita destas misteriosas potencialidades.

Ao cabo de duas noites, foi deixado em dúvida apenas um bibelô cinético, um equilibrista de arame que, ao menor impulso, oscilava durante horas, sobre dois blocos de mármore fingido. Ambos reivindicaram o artefacto, lembrando diversos familiares ofertantes, ambos acabaram, generosamente, por renunciar à sua posse e por pouco não engrossavam a voz, mais para impor a recusa que a exigência.

Tratando-se de duas assoalhadas, e de vidas novas, com poucas heranças, das que atravancam as casas de velhas cómodas desirmanadas, pilhas de quadros escondidos atrás de sofás e tapetes persas tão autênticos como os chineses de Arraiolos, dir-se-ia que a partilha não era muito trabalhosa. Por exemplo, para espíritos menos conscienciosos, não se imporia anotar numa folha pautada os nomes dos discos, autores, intérpretes, editor e data, nem proceder de forma semelhante com os livros, que se contavam pelos dedos. Mas ambos se compraziam em mostrar-se zelosos e, sobre o brio profissional, dominava o gosto de enumerar a que não faltava uma feição competitiva.

Havia oito dias que dormiam separados, mas Bárbara não aceitou o hábito, consagrado por gerações burguesas, de pernoitar ela no quarto e ele na sala. Tiveram de discutir com alguma veemência, mas ela impôs que se revezassem, noite sim, noite não. Um casal apressado e menos diligente procederia, decerto, de outro modo, mas convém aqui lembrar aquele célebre incipit sobre as parecenças das famílias felizes e a singularidade das infelizes. Em termos subjectivos, eles considerar-se-iam razoavelmente infelizes, de maneira que não será indelicado arrolá-los nessa categoria, literariamente mais dotada.

Depois dos últimos vasos de flores, das latas de conservas e frascos de salsichas alemãs da despensa, ambos se sentaram, de bloco de notas na mão, a contemplar, com alguma incomodidade, o item que faltava repartir. Dentro de um aquário de acrílico, já encardido, de águas empasteladas de nutrientes, oxigenadas vagamente por um velho motor regougante, espapaçava-se, negra e granulosa, a gorda tartaruga de origens pretensamente exóticas e preço condicente.

Agora estava o animal em sossego, sobre um calhau artístico, a cabeça sonolenta meio acobertada, o olhar fixo numa pequena mancha de humidade esbranquiçada formada por emanações calcárias da reputada água de Lisboa. Ao invés de outras tartarugas domésticas conhecidas por nomes como «Becas», «Zitas» ou «Cunegundes», esta nunca tinha sido baptizada. Era mencionada apenas como «a tartaruga», designação que lhe servia perfeitamente porque não havia outra em casa e nunca ocorreu aos proprietários chamar-lhe «cágado» rebaixando-a às designações populares. Era alimentada com regularidade, e o aquário recebia a manutenção adequada, quanto baste, sem exageros.

Arnaldo e Bárbara começaram, de repente, a falar ao mesmo tempo e, depois, riram-se e calaram-se meio embaraçados. A tartaruga descaiu um pouco, desandou na água, numa braçada dum amarelo viscoso, e tornou a equilibrar-se sobre a pedra.

- Coitada - disse Bárbara. - Sempre foi tão desajeitada.

- Podes ficar com ela, não a quero.

- A tartaruga é um bem comum. Comprámo-la os dois.

- E quem teve a ideia?

A tartaruga não deu qualquer atenção à controvérsia que se seguiu e que ditava o seu destino. De facto, ela foi longa e bem integrada no contexto da separação, irradiante de insinuações e pequeninas perfídias, concentrando sentimentos negativos e dando ocasião a rebuscadas figuras de estilo, dentro dos limites daquilo que habitualmente se considera uma «discussão civilizada». Para mim e para o leitor, pouco interessados em argumentos repisados e muito semelhantes aos das outras contendas domésticas, ela apenas tem interesse por introduzir uma divagação breve e transcendente.

Imaginem uma tartaruguita, rebrilhante de tons de azeviche e amarelos da Carris, no meio das suas companheiras, num ambiente explosivo de luzes, fofices e cores, em pleno Natal, em certa loja de animais da Avenida de Roma, com os compassos do Adeste Fideles a arredondar as próprias esquinas. Um par recém-casado, ainda saltitante, numa descoberta dum mundo a dois, a vibrar de cores vivas, entendeu, na sua exuberância, que aquela elegância sossegada e luzida ia bem com a decoração da sala.

Não estavam interessados em filhos para já. Sabiam o que um cachorro e um gato exigem de atenção e os tributos inevitáveis que reclamam em destruição de chinelos e forros de sofás. Optaram com grande alegria por aquele animal de estimação que respirava e tinha movimentos, mas também jogava bem com as pedras exóticas importadas do Brasil amontoadas num prato de vidro azul, e que caberiam a Bárbara na partilha em curso.

Eis a transitoriedade e o arbítrio dos afectos humanos. É-se pequeno, gracioso, saudável e elegante e temos o mundo rendido, especialmente o dos jovens casais, para quem o futuro é uma ideia abstracta e despicienda. Cresce-se, avantaja-se, escurece-se, deslassa-se, amolece-se e já nos olham de lado, com impaciência ou indiferença, porque o passado é um lastro. É destas incomodidades metafísicas que se tem feito a literatura e são amarguras deste género o verdadeiro portal para a transcendência.

- Eu não a quero! - repetiu Bárbara apertando os dentes com irritação.

- Eu também não! - respondeu Arnaldo, levantando-se com o rosto muito perto do nariz dela.

Logo a seguir suspiraram, descontraíram os ombros e sentaram-se de novo no sofá.

Nenhum deles reivindicava o pobre animal. Tinham-no comprado, é certo, eram responsáveis por ele, nunca faltaram à criatura os ínfimos camarões torrados, nem um raio esguio de sol, nem a mudança de águas. Só que, para além do facto de ser um animal com um poder de sedução discutível e que dava pouco azo a empatias, não podia sentir-se livre nem realizado, já com um tamanho daqueles, num aquário tão estreito. E a verdade é que a infelicidade dos nossos animais interfere com a nossa e chega mesmo a causar grandes amuos. O vendedor, contra quem não se podia reclamar porque a loja de animais falira, com as razias da fiscalização a ajudar pouco, num vezo de antipatizar com os produtos mais berrantes e mais rentáveis, garantira que aquela espécie de tartaruga, maneirinha e donairosa, não crescia muito. Mas ela aí estava, em poucos meses, um Leviatão doméstico que só se movimentava à noite, estalando no aquário como um prato de estanho à solta num porão vazio, nas procelas da Biscaia.

A dupla recusa poderia conformar, para os juristas, aquilo a que se chama um «conflito negativo» digno de um Rei Salomão, e foi uma solução salomónica que se começou a formar naqueles espíritos. Já que nenhum queria a tartaruga, havia que lhe assegurar um destino independente de ambos.

Começaram por passar em revista amigos e familiares, sem excluir, com alguma leviandade, os filhos menores de uns e de outros. Acresceu mais uma lista, nesse serão, a que não foram poupados, em desespero, os comerciantes da zona, nem as empregadas domésticas ao alcance do conhecimento. Do rol constou dificilmente a mãe de Arnaldo, rasurada e recuperada múltiplas vezes, em maré de hesitação. Aparentemente, seria o recurso de que todos os filhos se lembrariam, em ânsias de resolver um problema espinhoso, como o de uma tartaruga cuja sobrevivência perturbava as consciências. Mas a mãe de Arnaldo tinha o seu estilo peculiar: não era do género de se deixar comover pelas dificuldades filiais.

Não foi nessa noite ainda que a divisão dos bens do casal resultou deliberada. Estavam cansados.

- Quem dorme hoje no sofá? - perguntou Bárbara.

- Não faças barulho quando fores ao frigorífico - respondeu Arnaldo.
No dia seguinte, nos empregos de Arnaldo e de Bárbara, correu que eles se iam separar. Tanto um como o outro jurariam que tinham mantido reserva sobre a sua vida pessoal, como era, aliás, concordância tácita, mas a verdade é que, como na ária da calúnia, houve qualquer aureta, um venticello que levou a notícia a almas predispostas a aligeirar um quotidiano demasiadamente carregado de «deduções específicas» e «juros compensatórios».

Na firma de Arnaldo, os homens manifestaram-se com meias palavras e palmadas viris de encorajamento nas espaldas; as mulheres formando grupinhos, comentando de longe e mirando-o com outros olhos. Na loja de ferragens em que Bárbara trabalhava, os homens encolheram os ombros e a única mulher, Clarinda, de que adiante mais se falará, solidarizou-se logo, militantemente. Mas ninguém se disponibilizou para desfazer o nó górdio que ligava aqueles dois, na figura de um pacato quelónio, removendo-o da pauta, o que traduz a impopularidade das tartarugas entre os jovens empregados. Foram lastimosamente esgotadas todas as desculpas para não dar asilo ao animal, desde a falta de espaço até ao medo de lhe tomarem afeição e serem desiludidos por qualquer percalço.

No entanto, no meio das inúmeras sugestões que apareceram, num afã de os colegas se mostrarem úteis e bons camaradas, surgiram duas propostas interessantes, mais razoáveis que a doação à Igreja, insinuada por um rancoroso franco-mação.

Uma, seria a de tentar vendê-la na Internet, com a vantagem de resolver um problema ganhando algum dinheiro; outra, a de tentar colocá-la, mesmo que gratuitamente, em lojas de animais que havia perto de cada um dos empregos. Arnaldo e Bárbara, sensivelmente pela mesma hora, fizeram as suas consultas e obtiveram as mesmas respostas: ninguém queria tartarugas, o cabo dos trabalhos era vendê-las. Mas ambos os comerciantes revelaram, com algumas hesitações, o destino que os lisboetas costumavam dar às tartarugas desactivadas: os lagos e pegos de Lisboa, sendo certo que um se inclinou mais para o Jardim da Estrela e outro para o Parque Eduardo VII.

E, nessa noite, depois de Arnaldo ter jantado na sua tasca mexeruca e Bárbara ter comido um par de chamuças com um sumo de laranja no centro comercial, repleto de vadiagem, ambos traçaram, à mesa oval da sala, a sorte da tartaruga.

A opção entre o Jardim da Estrela e o Parque deu discussão. Acabaram por fazer uma lista quase exaustiva de todos os tanques, charcos, espelhos de água que há em Lisboa. Optaram, vistos os prós e os contras, pelo lago do Campo Grande contra o Parque Eduardo VII, recorrendo ao processo democrático apropriado para desempates: cara ou c'roa.

E, como era muito tarde, foram ambos deitar-se.
Na noite seguinte, Arnaldo e Bárbara calharam encontrar-se no mesmo restaurante do centro comercial. Quando Arnaldo entrou, já Bárbara estava sentada a uma mesa, e desviava o olhar. Ele fez menção de virar as costas, mas ficou atarantado, a remexer nos bolsos com o ar de quem tinha perdido as chaves. Por um instante, tanto um como o outro foram fulminados por desagradáveis sensações de ridículo e desajeito que, ainda por cima, feriam o sentido de fair play que ambos queriam ostentar, mesmo que o corpo lhes pedisse outra coisa.

Arnaldo foi resoluto, dirigiu-se à mesa de Bárbara e puxou uma cadeira:

- Posso?

- Ah, estavas aí? - perguntou Bárbara, sabendo que Arnaldo notara que ela o havia visto.

Já que desviara o olhar, entendia que o mínimo sentido de decoro a obrigava a sustentar a farsa. Mas Arnaldo não se sentou logo. Por um instante, a ideia de que Bárbara pudesse estar à espera de alguém gelou-o, e Bárbara leu-lhe o embaraço na cara, entre o desafiador e o suplicante.

O jantar correu tão bem que nenhum deles resmungou contra as péssimas lulas grelhadas que lhes foram servidas por um brasileiro barulhento, que continuava a galhofar com a empregada de balcão enquanto lhes atirava as duas travessas para cima da mesa. Falaram de tudo menos dos agravos recíprocos, e podiam ficar muito mais tempo a conversar se a conta não lhes tivesse aparecido na mesa, já com a porta de vidro meio cerrada e os brasileiros a empilhar as cadeiras para o outro dia.

Em casa, os gestos amoleceram e as expressões tornaram-se mais compenetradas. Havia um grande problema e, dentro do grande problema, um problemazito-satélite que estava a prevalecer e a empatar tudo. A tartaruga, que nunca lhes tinha merecido ternura bastante para lhe atribuírem sequer um nome, parecia boiar na água como uma mancha de breu compacto, gorduroso, grosso e feio.

- O que é que nós decidimos? - perguntou Arnaldo, procurando, de entre as folhas espalhadas pela mesa, aquela em que tinham escrito a lista dos lugares húmidos de Lisboa.

- Lago do Campo Grande - respondeu Bárbara, admirada com a inesperada desmemória.

E ficaram a olhar um para o outro. Bárbara pousou o comando da televisão em que tinha pegado por distracção.

- Então? - quis saber.

- Então, o quê?

- Esperas que seja eu a levar o bicho?

Isto deu urna arrastada discussão em que foram chamados a capítulo pontos subjacentes, corno o de quem mudava a água, quem comprava as latas de comida seca e quem alimentava o animal. De nada valeu a Arnaldo tentar transformar a desvantagem em vitória, com o argumento de que «já que és tu quem mais trata dela, então compete-te transportá-la». Ambos se referiam ao bicho no feminino, «ela», «ela isto e ela aquilo, ela assim e ela assado», ainda que, por efeitos com que só os veterinários conseguem atinar, o quelónio redondo, inexpressivo e pesado fosse, afinal, um macho.

- Recuso-me a tocar nesse animal com as minhas mãos - repontou, por fim, Arnaldo, num cruzar de braços brusco que representava já a defesa do último reduto, com a guarda a resistir ainda, por denodo, sabendo que em breve será esmagada pela derradeira carga.

-Porquê?

- Bactérias. Salmonelas. Este bicho é um fervedouro de infecções.

Bárbara concordou. Vira o mesmo programa de televisão. O caso é que não havia luvas em casa. Tinha de ficar para o outro dia.

- Mas ajudas-me, hã?

Arnaldo insistia. Queria por força que Bárbara compartilhasse o despedimento da tartaruga com a mesma frieza com que os cúmplices dum assassínio exigem que todos desfiram um golpe para selar uma responsabilidade comum. Ela não respondeu. Mas quando, cansado, Arnaldo regressou da casa de banho, dizendo:

- Podíamos hoje partilhar a cama e acabar com esta jigajoga das trocas. Já somos adultos, que diabo.

Bárbara retorquiu:

- Eu sou. Tu não.

Amuada, abriu um armário e atirou dois lençóis e uma almofada para cima do sofá.
- Meu filho querido, francamente, preferia que tivesses percebido isso por ti. Uma pessoa afeiçoa-se aos animais e, depois, quando eles morrem ...

Arnaldo tinha feito a pergunta a medo, depois de hesitar longo tempo e contemplar demoradamente os quadros com molduras douradas da sala, sempre muito composta, de linhas, cores e volumes sabiamente equilibrados. Tomou um golo do horrível sumo de laranja em pó que a mãe lhe havia apresentado, mesmo contra os seus protestos, e guardou para si a observação de que um crachá prateado, da Polícia de Nova Iorque, num fundo de veludo azul, sobre a cómoda marchetada, destoava da Leda e o Cisne, Orfeu nos Infernos, e remadores de trirreme, que aspergiam uma atmosfera arcádica ou nostálgica em torno do polimento do piano. Apetecia-lhe devolver a observação à mãe, «preferia que tivesses percebido por ti», mas era absolutamente incapaz de, naquela presença, enunciar uma frase que pudesse ser considerada mais áspera ou agressiva. Em circunstâncias normais, teria guardado a apreciação para a exprimir em casa, junto de Bárbara, deixando que fosse ela a comentar, sem se comprometer demasiado. Mas, naquela tarde, Bárbara por onde andaria? Tornou mais um gole de laranjada e fez uma careta.

- Lamento, meu filho.

Arnaldo não percebeu bem se o desabafo tinha que ver com a rejeição da tartaruga, ou com aquele declive, lento e inexorável, do seu casamento, a pender para o fim, de uma forma que as mães não costumam apreciar, especialmente quando vêem aí risco de perturbação da sua paz e sossego. Em todo o caso, ela sabia pouco, porque Arnaldo, com alguma propensão para a litotes, foi vago («Isto, sabe, mãe, já tem andado melhor»), e não quis adiantar mais pormenores. Mas não tardava e a mãe dava a entender, distraidamente, como de passagem, que o segundo propósito que levara Arnaldo àquela visita inusitada de fim de tarde se achava gorado.

- O teu quarto de solteiro está desmanchado. Bem vês.

Arnaldo já se apercebera de que a mobília do seu quarto havia desaparecido e campeavam por lá, bizarramente, um tapete de judo, um jogo de alteres, vários estojos de pesca e uma volumosa bicicleta de exercício. A mãe, por descargo de consciência, acrescentava agora:

- Todos os casais têm os seus problemas. Por que não vais para um hotel, por uns dias, filho?

- Eu não tenho dinheiro para um hotel, mãe.

- Vês? Tu não estudaste ... Eu bem te avisei. A propósito, onde compraste essa gravata? Na Feira do Relógio?

- Não, mamã, foi em Saville Row ...

- Tens de tomar cuidado contigo, meu querido.

E a mãe fez-lhe uma festa distraída no cabelo, arrepelando-lhe a franja.
  1   2   3   4   5


База данных защищена авторским правом ©shkola.of.by 2016
звярнуцца да адміністрацыі

    Галоўная старонка